O primeiro sucesso popular de Chico Buarque foi Pedro Pedreiro, do compacto lançado em 1965 que também continha Sonho de um Carnaval. Segundo afirmação de Paulo Vanzolini à época, “este é um samba perfeito, sob qualquer ângulo. E impressiona ter sido feito por um garoto de apenas 23 anos”. E, desde então, Chico se mantém numa coerência musical ora louvável, ora alvo de críticas pela “pouca inventividade” de sua obra.
Há exemplos de críticas ao Chico por esta conduta. Tom Zé disse sobre o compositor, sarcasticamente, no final dos anos 1960: “Temos de respeitá-lo. Afinal, ele é nosso pai”. Já nos anos 1990, Fernando Henrique Cardoso, o criticou de forma parecida, após ter lançado o Paratodos: “Lá vem o Chico com os mesmos sambinhas de sempre”.
Mas “vir com os mesmos sambinhas de sempre”, mesmo se fosse verdade, não é necessariamente um demérito. Grosso modo, artistas precisam de ao menos uma das duas coisas a seguir pra serem valiosos: ser inovador, como Caetano Veloso, por exemplo, ou ter extremo talento. Estando no segundo caso, se pode dar o caminho que desejar à obra (até ser “sempre a mesma coisa”), que será interessante.
Basta citar João Gilberto. Há 50 anos veste um terno escuro, se agarra ao violão como se fosse a si próprio e toca um repertório bem parecido, com sutis variações harmônicas. E é genial.
E neste grupo está Chico Buarque. Muito mais parecido a João Gilberto do que a Caetano Veloso. A coerência e naturalidade artística são postas acima de invenções que soariam artificiais.
Ao ouvir seu último disco, Carioca, percebe-se que há muito daquele Chico de 40 anos atrás. Há uma linha que une o semi-adolescente ao senhor que já passou dos 60. Claro, em Carioca há mais esmero na escolha das harmonias e arranjos. As letras são menos pulsantes e mais exatas. É um projeto mais intelectual do que emocional.
Mas há o mesmo Chico, de qualquer época, em suas faixas. A música Subúrbio ilustra muito bem essa conduta. Ao ouvir, há algo que puxa as sensações para Pedro Pedreiro. Talvez pelo tema, pois esse tal Pedro provavelmente vive “de costas para o Cristo”. Ao mesmo tempo, a música é mais madura. É densa. É exata. É uma evolução sem atropelos do “mesmo Chico de sempre”. E assim está ótimo. Porque gênios não precisam se propor a revolucionar a cada cinco minutos. Gênios já são uma revolução em si.
Há exemplos de críticas ao Chico por esta conduta. Tom Zé disse sobre o compositor, sarcasticamente, no final dos anos 1960: “Temos de respeitá-lo. Afinal, ele é nosso pai”. Já nos anos 1990, Fernando Henrique Cardoso, o criticou de forma parecida, após ter lançado o Paratodos: “Lá vem o Chico com os mesmos sambinhas de sempre”.
Mas “vir com os mesmos sambinhas de sempre”, mesmo se fosse verdade, não é necessariamente um demérito. Grosso modo, artistas precisam de ao menos uma das duas coisas a seguir pra serem valiosos: ser inovador, como Caetano Veloso, por exemplo, ou ter extremo talento. Estando no segundo caso, se pode dar o caminho que desejar à obra (até ser “sempre a mesma coisa”), que será interessante.
Basta citar João Gilberto. Há 50 anos veste um terno escuro, se agarra ao violão como se fosse a si próprio e toca um repertório bem parecido, com sutis variações harmônicas. E é genial.
E neste grupo está Chico Buarque. Muito mais parecido a João Gilberto do que a Caetano Veloso. A coerência e naturalidade artística são postas acima de invenções que soariam artificiais.
Ao ouvir seu último disco, Carioca, percebe-se que há muito daquele Chico de 40 anos atrás. Há uma linha que une o semi-adolescente ao senhor que já passou dos 60. Claro, em Carioca há mais esmero na escolha das harmonias e arranjos. As letras são menos pulsantes e mais exatas. É um projeto mais intelectual do que emocional.
Mas há o mesmo Chico, de qualquer época, em suas faixas. A música Subúrbio ilustra muito bem essa conduta. Ao ouvir, há algo que puxa as sensações para Pedro Pedreiro. Talvez pelo tema, pois esse tal Pedro provavelmente vive “de costas para o Cristo”. Ao mesmo tempo, a música é mais madura. É densa. É exata. É uma evolução sem atropelos do “mesmo Chico de sempre”. E assim está ótimo. Porque gênios não precisam se propor a revolucionar a cada cinco minutos. Gênios já são uma revolução em si.
Como é bom gostar – sinceramente, sem fazer tipo – de coisas que pouca gente gosta. Há dez anos me sentia o supra-sumo da intelectualidade paulistana ao explicar detalhes sobre a obra de Chico Buarque. Há uns cinco, era gênio por exaltar a revolução musical de João Gilberto. Há dois, gostar de Geraldo Pereira me diferenciava da multidão. Pois bem: falar de Chico se tornou lugar-comum, João Gilberto é citado a cada três minutos e Sem Compromisso é a música pop do momento. Virei burro.
Pasquale Cipro Neto afirmou outro dia em seu programa semanal na rádio Cultura: “Vivemos um dos períodos de juventude mais careta da história”, e enfatizou: “Careta de doer”. Chico Buarque, no filme sobre Vinícius de Moraes, disse que não imaginava o poeta vivendo no mundo atual, pois ele era um “desvairado” e a sociedade está extremamente pragmática, e sentenciou: “Vivemos a vitória do consumismo”. Na semana passada Kaká foi eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa. E comprovou, no campo futebolístico, as afirmações do professor e do compositor.
Muitas sensações vêm ao peito. Poucas permanecem. Apenas a angústia se acomodou, com toda a tranqüilidade, e neste momento está lendo jornal no melhor sofá da alma preta-e-branca. Faltam dois dias para o jogo decisivo. “Pára, isto é só futebol”, exclamam alguns desavisados. Não, não é só futebol. Isto é Corinthians. O time do povo. E, tal qual o povo, cheio de imperfeições. Ingênuo, maltratado, enganado e sofrido. E só peço que domingo esse sentimento deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa.
O governador do Distrito Federal, Roberto Arruda (DEM), proibiu, na semana passada, o uso do gerúndio entre os funcionários públicos. O decreto afirma: “fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal (...) Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA” (assim mesmo, com direito a “Gerúndio” e “INEFICIÊNCIA” em maiúsculas).
Dois malandros que se acham "muito espertos" -considerando que os "mais inteligentes" mesmo têm advogados para não ficar presos- brigam pelo espaço de um varal no pátio de uma cadeia superlotada de bandidos pobres.
Quando soube, de manhã, quem seria o entrevistado do programa Roda Viva (da Cultura), fiquei empolgado. Era Mano Brown, líder de um grupo que é uma ilha de autenticidade entre o marasmo artístico. Genial, corajoso, diferenciado em diversos aspectos. Tinha certeza de que seria uma noite histórica. Pois bem, assisti ao programa. E me decepcionei. 
Quando aquela voz característica começa a ecoar, é impossível não saber de quem se trata. O canto rascante, rouco e amargurado é o retrato fiel da obra de Nelson Cavaquinho. Dadas a desilusões amorosas e desesperança na vida, suas canções são sem paralelo na história da música popular. De uma simplicidade musical – e de vida – impressionante. Nelson era craque da boêmia. Do desapego material. Do medo e da alegria. Dos sentimentos nobres e baixos. Para ser sincero, é difícil falar sobre o compositor. Possivelmente é o personagem mais complexo da nossa música. Há muito de desconhecido no subterrâneo daquele olhar profundo e carismático.


Pixinguinha ficou impressionado quando ouviu pela primeira vez uma música do Geraldo Pereira. Era Se Você Sair Chorando, apresentada a ele por Roberto Paiva, em 1939. O consagrado compositor, que produziu os arranjos para a canção, se disse entusiasmado com a originalidade da melodia. Mais tarde, seus sambas sincopados (uma característica harmoniosa) também chamou a atenção de outros músicos, como João Gilberto. Mas o que mais salta aos olhos (ou aos ouvidos) são as letras. Ele não era dado a romantismo lírico. Preferia a “forma cronista” de compor. Em sua obra, não há espaço pro amor romântico, pras belezas da natureza ou pro brilho da lua. Ele é objetivo, preciso e mordaz. Vide Bolinha de Papel, Escurinho, Você Está Sumindo, Falsa Baiana. Mas a música do coração é Sem Compromisso. Para mim, o maior samba da história. Une harmonia fantástica, machismo e humor sem cair no escracho. Ah, não, não. Sem Compromisso não é do Chico Buarque. Pode confiar.
Durante este e o próximo mês (veja cartaz inilegível acima), rolará no Espaço Parlapatões, no centro, O Menino que Fugiu da Peça. Oficialmente, é uma peça de teatro voltada ao público infantil. Mas tem um humor irônico (e, às vezes, sarcástico) que agrada todo mundo. É só R$ 10. E, depois, ainda dá pra ir no sambão da Praça Roosevelt, que é do lado.