10 de setembro de 2014

A ditadura do bom gosto



"Deixa de onda e dá cá um abraço"
 Basta andar por qualquer ambiente descolado para perceber que, para os freqüentadores desses lugares, Romero Britto é hoje o símbolo maior do que o Brasil tem de cafona. Quase um inimigo nacional para a turma que não tira a expressão “arte urbana” da boca. A origem desse ódio a arte popular de Romero Britto – e de toda a arte popular de fato – é a Semana de Arte Moderna de 1922, quando uma patota tão talentosa quanto elitista e antenada com o que acontecia no mundo monopolizou para sempre o que seria considerado arte de bom-gosto no Brasil.

O que era para ser apenas mais uma corrente artística de valor tornou-se uma ditadura do bom-gosto. O Modernismo jogou para a vala da breguice eterna e hereditária tudo o que era produzido sem conceitos aparentes e, num primeiro momento, que servia apenas ao entretenimento. E essa é uma das piores heranças do Modernismo: a aversão ao entretenimento. Tudo o que tentou ser popular a partir de então ganhou a pecha de subcultura. Duvida?

Hoje pode soar cult, mas a produção cinematográfica da década de 1950 foi achincalhada na época por ter a intenção de divertir multidões. Os filmes estrelados por Grande Otelo e Oscarito eram considerados óbvios e popularescos. Ao ser perguntado se achava ruim seus longa-metragens buscarem apenas a aceitação popular, Oscarito – um gênio – saiu-se com essa: “Filme que não é aceito pelo público algum defeito deve ter”.
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Outro que sofreu com as críticas dos “entendidos” foi Anselmo Duarte. Um dos maiores galãs do cinema nacional resolveu mudar de posição e se tornar diretor em 1957, ao rodar Absolutamente Certo, um sucesso estrondoso. “Como um galãzinho se mete a ser diretor de cinema?” era o que mais se ouvia em rodas de cineastas. Ele só passou a ser visto com outros olhos em 1962 ao ganhar a Palma de Ouro em Cannes por O Pagador de Promessas. Só ganhou respeito depois do aval dos franceses e assim ganhar a carteirinha do clube do bom-gosto, antes exclusiva de quem se metia com o Cinema Novo – que produziu filmes tão bons quanto sonolentos.
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O mesmo se deu com o teatro moderno. A peça precursora é Vestido de Noiva, escrita por Nelson Rodrigues e dirigida por Zbigniew Ziembinski, que ganhou os tablados em 1943. Dali em diante, ou um jovem diretor enveredava pelo teatro moderno, com discussões estéticas sobre “a problemática nacional”, ou era jogado no limbo pesado da cafonice. E ninguém quer ser considerado cafona. Nelson Rodrigues, ele próprio, figura fundamental para o surgimento do teatro moderno, escreveu mais tarde, com a sensibilidade que só os profetas têm: “Não sei se notaram, mas o nosso teatro anda inteligentíssimo e de uma inteligência insuportável. Nem sempre foi assim. Por toda a Belle Époque e até 1930, o teatro não pensava. Cada qual fazia as coisas simples e profundas no seu métier. O ator começava e acabava no palco. Cá fora, na vida real, babava fisicamente na gravata. A atriz, idem. E o contrarregra não passava de contrarregra. Por isso mesmo, o teatro chegava mais depressa e com um impacto mais firme e mais puro ao coração do povo”.
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No campo musical, então, o preconceito se viu de forma bem mais nítida e cruel. Os cantores populares nacionais antes do início da bossa nova arrastavam multidões com seus dó-de-peito e com a emoção escorrendo em cada nota musical. O surgimento da bossa representou “uma pernada na era boleral”, como escreveu o maestro Rogério Duprat. Essa pernada, porém, quase provocou a extinção dos antigos cantores. O violonista Yamandú Costa afirmou recentemente: “João Gilberto acabou com a maneira de o homem brasileira cantar”. É verdade. E não é culpa de João Gilberto. A dureza é que, a partir dele, seu estilo ter se tornado o único caminho possível ao estar à frente do microfone.

A bossa e seus filhos diretos – os artistas da Era dos Festivais – também criaram um hiato na carreira de grandes músicos. Pode conferir: Adoniran Barbosa, Jackson do Pandeiro, Silvio Caldas e tantos outros desapareceram do cenário artístico durante a década de 1960. Só não foi uma ditadura total porque a tevê começou a resgatar os artistas populares de fato. A televisão, na qual o Modernismo nunca teve vez, salvou a pluralidade da cultura nacional.

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Mas tudo cíclico. Os modernos do passado desprezavam Silvio Caldas, Luiz Gonzaga e Oscarito e hoje o trio é obrigatório para qualquer cidadão de bom senso. Não à toa há tanta gente descolada cantando Raça Negra nos karaokês de agora. Primeiro, renegam. Depois percebem a própria tacanhice. E nem pedem desculpas.
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Após toda essa epopeia, chegamos ao preconceito atual a Romero Britto. O que o artista pernambucano faz é arte pop. E toda e qualquer arte pop é mais popular (opa, que coisa) que a arte mais sofisticada e intimista. As pessoas podem não gostar dele, achá-lo óbvio e colorido demais, crer que sua arte serve apenas para enfeitar lares. Tudo bem. O problema é o ódio contra alguém que ganha dinheiro fazendo algo que gosta e que tem uma história de vida bonita. Um dia, as turminha cult perceberá o quão patética é sua aversão ao artista plástico brasileiro mais conhecido no mundo, assim como aconteceu com tanta gente da história do País. E vão perceber que a sua galeria-de-arte-urbana-orgânica-conceitual não vive às moscas por causa de Romero Britto.

5 de agosto de 2014

Maldito, não. Revolucionário.


Durante toda a carreira Itamar Assumpção ouviu que era um “artista maldito”, afirmação que o incomodava. Mas sempre fez os discos exatamente como quis, sem ceder um milímetro às pressões da indústria fonográfica. Ajudou a criar um dos movimentos musicais mais importantes de São Paulo. Ao mesmo tempo vanguardista e respeitoso à obra de grandes artistas do passado, nunca foi totalmente entendido pelo público. “Itamar foi uma pessoa tão desperdiçada. Isso ficará evidente mais tarde”, profetizou o parceiro Arrigo Barnabé.


 “As pessoas não entendem e afirmam que sou maldito. O fato de eu não me entregar às abobrinhas musicais resulta em uma série de rótulos equivocados sobre mim”. Itamar Assumpção tinha total aversão a fama de artista marginal que o senso-comum havia lhe imposto. Ao mesmo tempo, negava-se a jogar pelas regras das grandes gravadoras. “A música é meu patrimônio e eu mando na minha carreira. Maldito, não. Sou um revolucionário”.
 
Desde que agitou a cena musical paulistana em 1980 com Beleléu, Leléu, Eu, até lançar o amargurado Preto Brás, em 1998, suas músicas nunca figuraram entre os hit parade das rádios FMs. Fato que lhe dava uma mistura curiosa de orgulho e dissabor. O grande público tinha uma dificuldade danada de entendê-lo. Talvez porque tentar compreender fosse uma missão inútil. “Itamar tinha parceria com o demônio da palavra musicada: apenas começava a cantar, e a música continuava sozinha, no ar”, afirmou José Miguel Wisnik. Já para outro parceiro, Naná Vasconcelos, “as músicas de Itamar são mantras. Chegava ao auge da sabedoria com simplicidade. Era o astro do intelecto”.

O músico elegante e melancólico se tornou uma das mais perfeitas traduções musicais de São Paulo. “Por oposição, se pode compará-lo com Jorge Ben. A música dos dois é comunicativa. Mas Jorge é alegre, do dia, e Itamar era mais amargo, da noite’, explicou o grande parceiro Arrigo Barnabé.

Do teatro londrinense à Varguarda Paulistana
Apesar da identificação com São Paulo, Francisco José Itamar de Assumpção nasceu na interiorana Tietê em 1949. O neto de escravos angolanos aprendeu a tocar atabaque no quintal de casa. “Sou um negro brasileiro legítimo. Descendente de escravos, conhecedor da cultura africana e filho de pai de santo”.

Aos 12 anos mudou-se para a paranaense Arapongas. Na adolescência apaixonou-se pela música de Jimi Hendrix e aprendeu a tocar guitarra sozinho. Chegou a se matricular na faculdade de Contabilidade, mas decidiu largar tudo para se dedicar ao teatro na vizinha Londrina. Em uma peça, em que fazia o papel de Tiradentes, estava no plateia um jovem londrinense chamado Arrigo Barnabé. Tornaram-se amigos e parceiros musicais. Quando Barnabé decidiu se mudar para São Paulo, em 1973, convidou Itamar. Ambos se tornariam paulistanos por toda a vida.

Na cidade, envolveu-se definitivamente com música. Ao lado de Barnabé, grupo Rumo e Premeditando o Breque, inaugurou um movimento musical conhecido como Vanguarda Paulistana, notória pela alta dose de experimentalismo e pela independência da indústria fonográfica, fato até então incomum. Em 1980 surgia Beleléu, Leléu, Eu, o primeiro e elogiado disco de Itamar. Dentro do mesmo elepê apareciam influências de tropicália, funk, samba, soul, poesia concreta e música erudita. Foi considerado pela revista Rolling Stones um dos 100 melhores discos da história do País. O sucesso, porém, ficou restrito a pequenos grupos.

Amor pelas orquídeas
Ao mesmo tempo em que vivia ao lado dos “descolados” e universitários de São Paulo, recusava-se a se mudar do bairro da Penha, na zona leste, então uma região pouco valorizada da capital. Em Nobody Knows, cantou, em inglês: Ela me abandonou / Porque moro no lado leste da cidade (...) O lado leste é meu santuário. No quintal de sua casa penhense dedicava-se à outra paixão: cuidar de plantas e flores, com dedicação especial às orquídeas.

Itamar gostava de ironizar a condição de artista marginal. Lançou durante os anos 1980 discos batizados como Às Próprias Custas S/A e Intercontinental! Quem Diria! Era Só o Que Faltava!!!, este último produzido pela Continental, a primeira e única vez que lançou um disco por uma grande gravadora.

No começo dos anos 1990 convidou oito mulheres para criar um novo grupo musical. Lembrou-se de seu amor pelas flores e batizou-as de Orquídeas do Brasil. Ao lado das moças lançou uma trilogia de discos considerada histórica: Bicho de Sete Cabeças, com o qual conquistou Prêmio Sharp de Melhor Disco de Pop/Rock. Logo depois, lançou um álbum inteiramente dedicado à obra de Ataulfo Alves, um dos seus ídolos musicais.

“Sofrer vai ser a minha última obra”
Apesar da qualidade de Bicho de Sete Cabeças e de Ataulfo Alves por Itamar Assumpção, a fama de maldito não saia de si. O próximo disco, Preto Brás, soou como um desabafo do artista que se amargurava pela falta de entendimento do público. “O resultado foi uma raiva expostas como ferida abertas no iracundo Preto Brás”, escreveu o jornalista Pedro Alexandre Sanches.

Na mesma época descobriu estar com câncer. Manteve a rotina de shows nos intervalos das internações, compunha para dois novos discos individuais e outro em parceria com Naná Vasconcelos – que se chamaria Vasconcelos e Assumpção  - Isso Vai Dar Repercussão. Não chegou a ver o resultado de nenhuma das obras. Morreu em 12 de junho de 2003, aos 53 anos. “Itamar foi uma pessoa tão desperdiçada. Isso ficará evidente mais tarde”, lamentou Arrigo Barnabé.

Em um dos seus últimos shows, contou com bom-humor sobre o tormento da doença e o medo da morte. Depois, virou Itamar Assumpção, com a mesma aspereza delicada de sempre, e cantou uma música que fez com Paulo Leminski quando a iminência da morte já lhe fazia companhia diariamente: Um homem com uma dor / É muito mais elegante / Caminha assim de lado / Como se chegando atrasado / Andasse mais adiante (...) Ópios, edens, analgésicos / Não me toquem nesse dor / Ela é tudo o que me sobra / Sofrer vai ser a minha última obra.

6 de maio de 2014

Explicador do povo brasileiro

Bem humorado e carismático, Darcy Ribeiro foi um dos intelectuais mais importantes da história do
País e figura decisiva para desnudar a alma nacional. Na teoria e na prática. O mineiro de Montes
Claros dedicou boa parte de sua trajetória à causa indígena e à educação do povo. Viveu em tribos e,
em 1961, redigiu o texto da criação do Parque Nacional do Xingu. Foi o criador e o primeiro reitor
da Universidade de Brasília. Entusiasmado pela política, tornou-se ministro da Educação e, em seguida, chefe da Casa Civil de João Goulart. Sabia que era pela política que teria condições de revolucionar o ensino nacional. O golpe militar de 1964 interrompeu esse sonho. Na volta do exílio, como vice-governador do Rio, criou os Centros Integrados de Educação Pública, CIEPs, escolas de educação integral que se tornaram modelos. Pouco antes de morrer, em 1997, publicou obra-prima fundamental para entender o Brasil: O Povo Brasileiro, fruto de um trabalho de mais de 30 anos. Na edição de comemoração de 15 anos do Almanaque Brasil, decidimos resgatar livros, entrevistas e artigos de Darcy para criar uma entrevista póstuma com uma das personalidades mais conhecedoras e entusiasmadas pelo Brasil de que se tem notícia. Uma entrevista com o homem que tinha uma certeza inabalável: “Uma das coisas mais belas do mundo foi a aventura do Brasil fazer a si mesmo”.




O que mais chama a sua atenção no Brasil e no brasileiro? 
Este é um povo que constitui um novo gênero humano. Não tem novidade nenhuma fazer a Austrália ou o Canadá, por exemplo. Basta pegar um bocado de ingleses e escoceses, jogar num terreno vazio que eles fazem uma Inglaterrazinha sem graça. Mas fundir herança genética e cultural indígena, negra e europeia num
gênero humano novo, numa coisa nova, que nunca houve, essa é a aventura brasileira. Nós
fizemos um povo. Um povo capaz de herdar 10 mil anos de sabedoria indígena, de adaptação ao
trópico e fazer uma civilização tropical. Somos a nova Roma. E por que nova Roma? Porque somos
a maior massa latina. Nós somos melhores, porque lavados em sangue negro, em sangue índio,
melhorado, tropical. Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente,
pertencente a uma mesma etnia. A convicção a que chego é que uma das coisas mais belas do
mundo foi a aventura do Brasil fazer a si mesmo.

O que falta para o Brasil alcançar toda a sua potencialidade?
Uma das coisas é que temos que dar um jeito nessa classe dominante medíocre. É uma figura terrível a brutalidade, a incapacidade e a mediocridade dessa classe. Aqui o que ela fez é enriquecer e ter vantagens para si própria, ainda hoje. O Brasil moeu e liquidou seis milhões de índios e 12 milhões de negros africanos para quê? Para adoçar a boca dos europeus com açúcar, para enriquecê-los com o ouro de Minas Gerais. A nossa classe dominante tem que aceitar que o Brasil realize suas potencialidades de uma nova civilização, de uma nova Roma.

O País foi formado por indígenas, portugueses, africanos e, depois, por imigrantes de todos os 
cantos. Qual foi o primeiro grupo a sentir-se brasileiro de fato?
O primeiro brasileiro consciente de si foi, talvez, o mameluco, esse brasilíndio mestiço na carne e no espírito, que não podendo identificar-se com os que foram seus ancestrais americanos – que ele desprezava –, nem com os europeus – que o desprezavam –, e sendo objeto de mofa dos reinóis e dos luso-nativos, via-se
condenado à pretensão de ser o que não era e nem existia: o brasileiro. Através dessas oposições e de um persistente esforço de elaboração de sua própria imagem e consciência como correspondentes a uma entidade étnico-cultural nova, é que surge, pouco a pouco, e ganha corpo a brasilianidade.

Como definiria a importância da cultura africana para a criação do Brasil?
Toda a cultura brasileira está impregnada dessa herança africana que se expressa com maior vigor nas áreas onde o negro mais se concentrou. Às vezes, é tamanha, que faz da Bahia, do Rio de Janeiro e de Minas
verdadeiras províncias culturais negras, nas quais a criatividade africana se expressa gloriosamente. O Carnaval do Rio, o candomblé da Bahia, o culto a Yemanjá, são, acho eu, as matrizes mais vigorosas da cultura brasileira. E vão continuar sendo, porque neles a negritude não é um folclore ou uma mera sobrevivência cultural. São criações de comunidades morenas viventes que perpetuam seus valores ancestrais africanos, precisamente porque os vivem e os transformam continuamente.

O senhor viveu em várias tribos indígenas e ajudou a criar o Parque Nacional do Xingu. O 
que mais o fascina na cultura indígena?
Meditando, agora, sobre esse meu sentimento de fascinação, tantos anos depois, descubro que me encantava nos índios, primacialmente, sua dignidade, inalcançável para nós, de gente que não passou pela mó da estratificação social. Não tendo sido nem sabido, jamais, de senhores e escravos, nem de patrões e empregados, ou de elites e massas, cada índio desabrocha como um ser humano em toda sua inteireza e individualidade. Pode, assim, olhar o outro e ser visto por todos como um ser único e irrepetível. Um ser humano respeitável em si, tão só por ser gente de seu povo. Creio que lutamos pelo socialismo por nostalgia
daquele paraíso perdido de homens vivendo uma vida igualitária, sem nenhuma necessidade ou possibilidade de explorar ou ser explorados, de alienar-se e de ser alienados.

O senhor defende que o Brasil deve ter um socialismo próprio, um "socialismo moreno". 
Como se daria esse sistema?
A posição socialista é a posição dos que querem passar o Brasil a limpo, no sentido de fazer com que o Brasil se torne habitável, para que todos os brasileiros tenham os mínimos indispensáveis. Mínimos a partir dos quais nós passaríamos a existir como povo civilizado entre outros. Esse mínimo é o socialismo brasileiro. E um socialismo brasileiro surgirá de nossa história, com a nossa carne e com a nossa cor, morena. Um socialismo brasileiro começa por assumir o povo moreno que nós somos, mas sobretudo a nossa pobreza. Assumir essa pobreza sabendo que ela dá lucro para muita gente. Muita gente quer que o país continue assim. Nós somos contra isso.

“NÃO TEM NOVIDADE FAZER A AUSTRÁLIA OU O CANADÁ. BASTA PEGAR UM
BOCADO DE INGLESES, JOGAR NUM TERRENO VAZIO, QUE ELES FAZEM UMA
INGLATERRAZINHA SEM GRAÇA. NÓS FIZEMOS UM POVO.”

 O senhor poderia ter passado a vida apenas como intelectual. Por que decidiu arriscar-se na 
vida política?
Política é a atividade humana fundamental. É aquilo que move o destino humano. É o que define o que vai acontecer com comunidades. É vitalmente importante. Há países que deram certo, por coincidência da história ou por competência deles, que não confiam em intelectuais. A Inglaterra não dá a menor confiança para intelectual, nem para sociólogo, antropólogo ou psicólogo. A Alemanha e os Estados Unidos também não. Mas os países que não deram tão certo tem que dar um pouco de atenção.

Por isso a sua crítica aos acadêmicos pouco afeitos à política?
A Escola de Sociologia e a Faculdade de Filosofia nos tiravam da revolução e nos metiam a estudar arte plumária kaapor ou a reconstituir as guerras tupinambá de antes de 1500. Dopados, doutrinados sem o saber, estávamos empolgadíssimos com as tarefas que nos levariam a um cientificismo que se esgotava como uma finalidade em si, desligado de qualquer problemática social e nacional.

Mas esses estudos citados, por exemplo, não são importantes? 
Acho muito legítimo estudar qualquer tema só movido pelo desejo de saber. Afinal, nosso ofício de cientistas tem por fim ampliar e melhorar o discurso humano sobre a natureza das coisas, inclusive de si próprios. O que desejo assinalar é o caráter alienador de uma escolástica científica que fechava nossos olhos para o contexto circundante, que nos desatrelava do ativismo político para fazer de nós futuras eminências intelectuais e acadêmicas. A soma de ativismo político com a herança brasilianista e o interesse pela literatura impediram que eu me convertesse num acadêmico completo, perfeitamente idiota. Desses que só servem para por ponto e vírgula nos textos de seus mestres estrangeiros.

Considera O Povo Brasileiro a sua maior obra?
Escrever esse livro foi o desafio maior que me propus. Por mais de 30 anos eu o escrevi e reescrevi, incansável. Nunca pus tanto de mim, jamais me esforcei tanto como nesse empenho, sempre postergado, de concluí-lo. Ultimamente essa angústia se aguçou porque me vi na iminência de morrer sem concluí-lo. Fugi do hospital aqui para Maricá, para viver e também para escrevê-lo. Se você, hoje, o tem em mãos para ler, em letras de forma, é porque afinal venci, fazendo-o existir. Por que só agora o retomo, depois de tantos,
tantíssimos anos, em que me ocupei de tarefas mais variadas, fugindo dele? Não sei! Não foi para descansar, certamente. Foi para me dar outras tarefas. Entre elas, a de me fazer literato e publicar quatro romances. Nessa longa travessia, também politiquei muito, com êxito e sem êxito, aqui e no exílio, e me dei a fazimentos trabalhosos, diversos. Inclusive vivi, quase morri.

Quem são seus ídolos? 
Eu tenho dois alter egos. Um, meu santo-herói, Cândido Rondon. Outro, meu santo-sábio, Anísio Teixeira. Cada qual de sua causa, que foram ambas causas minhas. Foram e são: a proteção aos índios e a educação do povo. Em educação, Anísio representou para mim o que fora Cândido Rondon em outro tempo e dimensão. Baixinho, irrequieto, falador, mais cheio de dúvidas de que de certezas, de perguntas que de respostas. Anísio me ensinou a duvidar e a pensar. Ele dizia de si mesmo que não tinha compromisso com suas ideias, o que me escandalizava, tão cheio eu estava de certezas. No caso de Rondon, fiquei galvanizado instantaneamente por sua bela figura índia, pela dignidade de sua fisionomia, pela energia de seu olhar, pela naturalidade de seu mando. Fiquei atado a Rondon pela vida inteira.

“TENHO DOIS ALTER EGOS. MEU SANTO-HERÓI, CÂNDIDO RONDON, E MEU
SANTO-SÁBIO, ANÍSIO TEIXEIRA. CADA QUAL DE SUA CAUSA, QUE FORAM E SÃO
MINHAS: A PROTEÇÃO AOS ÍNDIOS E A EDUCAÇÃO DO POVO.”

 Como resumiria sua atuação política pela educação?
Deixe-me dizer aqui que me considero um educador bem-sucedido. Não só por méritos meus. Mas porque soube encontrar poderosos com a grandeza de adotar minhas ideias. O primeiro foi Jânio Quadros, convencido por Anísio e por mim a fazer da educação a meta fundamental de seu governo. Chegamos a detalhar um belo programa para ele, que não cumpriu tudo sabem por quê. Mais êxito tive com Leonel Brizola, que comprou a mais velha ideia e sonho dos educadores brasileiros, que era criar aqui a escola primária que todo o mundo tem, a de tempo integral, sem recair nessa perversão que são as escolas de turno. Junto com Brizola fiz 500 CIEPs, em que poderão ser educadas 500 mil crianças, que representam mais de uma terça parte do alunado do estado do Rio.

O senhor nunca casou ou teve filhos, mas sempre levou fama de conquistador. Considera boa 
a opção?
Cada pessoa devia amar todos os amores de que fosse capaz. Sucessivamente, em amores apaixonados, cada um deles vivido e fruído como se fosse eterno. Para amar é que eu quisera viver mais e mais. O amor é a mais funda, mais sentida e mais gozosa e mais sofrida das vivências humanas. Aos olhos das moças de hoje, sou um velho. Sou mesmo e isso me dói muito demais. Quisera o impossível de ser confundido com a rapaziada de agora, felizarda.

Acredita em Deus? 
É claro. Seria uma soberba, uma prepotência não acreditar. Eu posso dizer que não posso provar que Deus existe, posso dizer que Deus está em dívida comigo, tem que me acender a fé, mais veemente. Não sou religioso praticante. Por isso Deus tinha que me iluminar o peito com a fé. Fé não é a razão que leva. Fé militante, combativa, é Deus que ilumina no coração dos homens.

Por falar em soberba, já houve quem o chamou de vaidoso... 
É verdade. E daí? Estou cheio de razões do que fiz em minha vida inteira para orgulhar-me de mim. Confesso que necessito e gosto demais de elogios. Sobretudo dos redondos, retumbantes, como o de Márcio Moreira Alves dizendo "que a coisa mais parecida com gênio que existe no Brasil é o Darcy". Ou dos que recebi de Adolpho Bloch, Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Gabriel García Márquez. Gosto também dos elogios menores, de mulher dizendo que sou bonito e gostosão. De homens me ouvindo com admiração. Gosto até das adulações. Um bom puxa-saco é coisa apreciável.

Olhando para trás, qual o balanço que faz de sua trajetória?
Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem me venceu.

Como vislumbra o futuro do Brasil?
O Brasil já é a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio de tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso auto-sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra.

5 de setembro de 2013

"Quando alguém diz ‘nóis vai’ é que nós vamos. E vamos mesmo"

Sérgio Vaz precisou ultrapassar obstáculos invisíveis (e outros nem tanto) para mostrar que a periferia também gosta de se comunicar por meio de poesia. Há 12 anos comanda a Cooperifa, o sarau que mudou a rotina da zona sul de São Paulo com versos, rimas e literatura. 
“Para quem o pessoal da periferia precisa pedir autorização para escrever? Para a Academia Brasileira de Letras?”. É de forma provocativa que Sérgio Vaz, 49 anos, rebate aos que ainda insistem em achar estranho uma empregada doméstica, um lixeiro ou um mecânico dedicar um tempo do dia para colocar poesia no papel. Não há, porém, um pingo de ressentimento em sua voz. O homem que está à frente do sarau de periferia mais importante do Brasil há 12 anos nunca precisou pedir autorização a ninguém para escrever a própria trajetória. Apenas se impôs. 
O Sarau da Cooperifa ocorre toda quarta-feira no bar Zé Batidão, na zona sul de São Paulo, e é disputado. Costuma reunir 200 pessoas por edição. Já chegou a 500. Os microfones estão abertos a poetas de todos os estilos e níveis. O evento angariou o pessoal da região e também espectadores da classe média, que cruzam a cidade para ouvir o que eles têm a dizer. A Cooperifa ainda promove ações como exibições de filme, saraus em escolas públicas, apresentações de música e arte cênica. Tudo de graça. Pelo trabalho inovador, a instituição ganhou o prêmio Educador Inventor, concedido pela Unesco. 
Para Sérgio, o segredo do sucesso da Cooperifa é a simplicidade com a qual foi criada. “Para entrar no sarau, Jorge Amado, Adélia Prado, Pablo Neruda precisam tirar o sapato. A poesia que pediu licença para entrar na vida das pessoas. Não as pessoas pediram licença para ter acesso à poesia. A ordem se inverteu. No bom sentido, a poesia foi tratada como uma arte qualquer”. 
Hoje, há saraus inspirados na Cooperifa em lugares diferentes entre si como Salvador e Porto Alegre, Belo Horizonte e Arcoverde. “Nós não somos um movimento para escritores. Somos um movimento para criar leitores”, explica. 
Alimentos e livros
A infância de Sérgio Vaz foi muita parecida com a de outros jovens de periferia. Os poucos espaços que havia para desenvolver suas potencialidades era o campo de futebol, a rua e a igreja. No seu lar, porém, havia outro bem também valioso. “Apesar da simplicidade, na minha casa nunca faltou nem alimentos e nem livros”. Era observando o pai, dono de bar e leitor contumaz, que começou a achar que ler poderia ser algo bacana. Tinha 14 anos quando abriu o primeiro livro, Eram os Deuses Astronautas?, do suiço Erich von Däniken. A experiência não foi das melhores: “Não entendi nada”.  Seu pai observou o filho de livro aberto, se entusiasmou e resolveu comprar publicações infanto-juvenis para o garoto. Nascia um leitor. 
Um pouco mais velho – e mais experimentado na literatura –, resolveu achar um espaço para sua turma realizar apresentações artísticas, em literatura, música, dança, artes cênicas ou qualquer outra ideia que surgisse. Ao lado do amigo Marco Pezão criou a Cooperifa e convenceu o dono de uma fábrica abandona em Taboão da Serra, na grande São Paulo, a ceder o espaço. De forma improvisada, ocorreram os primeiros eventos artísticos. E os primeiros saraus. 
A “sede” da Cooperifa foi mudando de endereço até fincar bandeira no Zé Batidão, bar que havia sido do seu pai e de onde, na infância, costumava ficar atrás do balcão observando de forma curiosa os tipos que entravam no recinto, os homens solitários, os bêbados. “O bar, que era a minha senzala na infância, se tornou a minha libertação. As pessoas passaram a vir como se estivessem indo para Palmares, fugindo da mediocridade, do marasmo”. Desde então não houve uma única quarta-feira sem sarau.
Cinema na Laje
Quase 50 livros já foram publicados pelos freqüentadores da Cooperifa. Só de Sérgio são sete, todos elogiados pela crítica. Na trajetória também atestou que todo mundo gosta de poesia. Para ilustrar, se lembra da primeira visita que fez à Fundação Casa, ex-Febem, para levar poesia aos jovens da instituição. A primeira recepção foi gelada, com olhares pouco entusiasmados dos garotos. Sérgio perguntou: “Alguém aqui gosta de poesia?”, e apenas recebeu como resposta cabeças para a direita e para a esquerda. Foi quando pediu licença e começou a recitar Negro Drama, música dos Racionais: Negro drama / Entre o sucesso e a lama / Dinheiro, problemas, inveja / Luxo, fama / Negro drama / Cabelo crespo / E a pele escura / A ferida, a chaga / A procura da cura... No meio percebeu que alguns recitavam juntos. Ao fim, o texto foi terminado em uníssono. Um jovem perguntou: “Ei, senhor, Racionais é poesia?”. Diante da resposta positiva, emendou: “Então nóis gosta”. 
Além da literatura, outra ação que entusiasma Sérgio é o Cinema na Laje. Quinzenalmente são exibidos filmes e documentários na laje do Zé Batidão. Esqueça filmes de Hollywood. A ideia não é a de passar cinema para quem não tem dinheiro. É formar público. “Defendo que todos têm dinheiro para ir ao cinema. Quem não vai é porque não tem o hábito”. O poeta costuma ligar para produção dos filmes e pedir a presença do diretor ou de um ator para discutir cinema com a comunidade. 
Já houve exibições de filmes como MarighellaQuebrando TabuCinco Vezes FavelaA Febre do Rato. O trabalho da Cooperifa também atraiu personalidades importantes do meio intelectual. No fim do ano passado, por exemplo, houve a visita de Mia Couto, o badalado escritor moçambicano. “E ele não queria mais sair de lá”, relembra. 
Literatura periférica
O poeta já visitou a Europa e países da América Latina, convidado a apresentar seu trabalho. É presença constante em eventos literários. Certas vezes, porém, se depara com algum preconceito do meio literário tradicional. “Em debates, às vezes é como se dissessem: ‘O Sérgio é poeta, mas é poeta da periferia. Vamos devagar com ele”. Outra coisa que o incomoda é quando as perguntas se limitam à criminalidade ou à vida na periferia. “Eu sou da mesma cidade do cidadão. Mas é como se eu tivesse vindo da Palestina. Já me perguntaram em debate se eu vi gente morrer. Dá vontade de responder: ‘Eu não trabalho na polícia e nem sou bandido. Eu li 300 mil livros na vida e quero falar sobre eles. Li Bauderlaire, Rambaud, Verlaine. Podem ficar à vontade para falar de literatura comigo’”. 
A sua poesia, porém, é combativa. Para manter o desejo de denunciar problemas sociais pelos versos inspira-se em uma frase do poeta Ferreira Gullar: “Só é justo cantar quando seu canto arrasta consigo pessoas e coisas que não tem voz”. Para a sua poesia, a realidade é fundamental. “O pessoal da bossa nova abriu a janela e viu um dia de luz, uma festa do sol, e fez uma música. Certo eles, sincero. Mas abrimos a janela e vemos outra coisa. É importante falar sobre o que vemos”. 
Para ele, a literatura periférica brasileira já criou um estilo. “Quem nasceu em Moema (bairro de classe média alta de São Paulo) não pode fazer literatura periférica. Ou até pode, mas não vai ficar bom. Literatura romana é feita pelos romanos, literatura grega é feita pelos gregos. E literatura periférica é feita por quem mora na periferia. É o texto dos sofridos”. E, para quem insiste em julgar seus pares da Cooperifa baseado em preconceitos linguísticos ou de qualquer natureza, explica: “A nossa literatura tem menos crase, ponto e vírgula, mas ainda assim é literatura. Quando alguém diz nóis vai é que nós vamos. E vamos mesmo”.