6 de maio de 2014

Explicador do povo brasileiro

Bem humorado e carismático, Darcy Ribeiro foi um dos intelectuais mais importantes da história do
País e figura decisiva para desnudar a alma nacional. Na teoria e na prática. O mineiro de Montes
Claros dedicou boa parte de sua trajetória à causa indígena e à educação do povo. Viveu em tribos e,
em 1961, redigiu o texto da criação do Parque Nacional do Xingu. Foi o criador e o primeiro reitor
da Universidade de Brasília. Entusiasmado pela política, tornou-se ministro da Educação e, em seguida, chefe da Casa Civil de João Goulart. Sabia que era pela política que teria condições de revolucionar o ensino nacional. O golpe militar de 1964 interrompeu esse sonho. Na volta do exílio, como vice-governador do Rio, criou os Centros Integrados de Educação Pública, CIEPs, escolas de educação integral que se tornaram modelos. Pouco antes de morrer, em 1997, publicou obra-prima fundamental para entender o Brasil: O Povo Brasileiro, fruto de um trabalho de mais de 30 anos. Na edição de comemoração de 15 anos do Almanaque Brasil, decidimos resgatar livros, entrevistas e artigos de Darcy para criar uma entrevista póstuma com uma das personalidades mais conhecedoras e entusiasmadas pelo Brasil de que se tem notícia. Uma entrevista com o homem que tinha uma certeza inabalável: “Uma das coisas mais belas do mundo foi a aventura do Brasil fazer a si mesmo”.




O que mais chama a sua atenção no Brasil e no brasileiro? 
Este é um povo que constitui um novo gênero humano. Não tem novidade nenhuma fazer a Austrália ou o Canadá, por exemplo. Basta pegar um bocado de ingleses e escoceses, jogar num terreno vazio que eles fazem uma Inglaterrazinha sem graça. Mas fundir herança genética e cultural indígena, negra e europeia num
gênero humano novo, numa coisa nova, que nunca houve, essa é a aventura brasileira. Nós
fizemos um povo. Um povo capaz de herdar 10 mil anos de sabedoria indígena, de adaptação ao
trópico e fazer uma civilização tropical. Somos a nova Roma. E por que nova Roma? Porque somos
a maior massa latina. Nós somos melhores, porque lavados em sangue negro, em sangue índio,
melhorado, tropical. Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente,
pertencente a uma mesma etnia. A convicção a que chego é que uma das coisas mais belas do
mundo foi a aventura do Brasil fazer a si mesmo.

O que falta para o Brasil alcançar toda a sua potencialidade?
Uma das coisas é que temos que dar um jeito nessa classe dominante medíocre. É uma figura terrível a brutalidade, a incapacidade e a mediocridade dessa classe. Aqui o que ela fez é enriquecer e ter vantagens para si própria, ainda hoje. O Brasil moeu e liquidou seis milhões de índios e 12 milhões de negros africanos para quê? Para adoçar a boca dos europeus com açúcar, para enriquecê-los com o ouro de Minas Gerais. A nossa classe dominante tem que aceitar que o Brasil realize suas potencialidades de uma nova civilização, de uma nova Roma.

O País foi formado por indígenas, portugueses, africanos e, depois, por imigrantes de todos os 
cantos. Qual foi o primeiro grupo a sentir-se brasileiro de fato?
O primeiro brasileiro consciente de si foi, talvez, o mameluco, esse brasilíndio mestiço na carne e no espírito, que não podendo identificar-se com os que foram seus ancestrais americanos – que ele desprezava –, nem com os europeus – que o desprezavam –, e sendo objeto de mofa dos reinóis e dos luso-nativos, via-se
condenado à pretensão de ser o que não era e nem existia: o brasileiro. Através dessas oposições e de um persistente esforço de elaboração de sua própria imagem e consciência como correspondentes a uma entidade étnico-cultural nova, é que surge, pouco a pouco, e ganha corpo a brasilianidade.

Como definiria a importância da cultura africana para a criação do Brasil?
Toda a cultura brasileira está impregnada dessa herança africana que se expressa com maior vigor nas áreas onde o negro mais se concentrou. Às vezes, é tamanha, que faz da Bahia, do Rio de Janeiro e de Minas
verdadeiras províncias culturais negras, nas quais a criatividade africana se expressa gloriosamente. O Carnaval do Rio, o candomblé da Bahia, o culto a Yemanjá, são, acho eu, as matrizes mais vigorosas da cultura brasileira. E vão continuar sendo, porque neles a negritude não é um folclore ou uma mera sobrevivência cultural. São criações de comunidades morenas viventes que perpetuam seus valores ancestrais africanos, precisamente porque os vivem e os transformam continuamente.

O senhor viveu em várias tribos indígenas e ajudou a criar o Parque Nacional do Xingu. O 
que mais o fascina na cultura indígena?
Meditando, agora, sobre esse meu sentimento de fascinação, tantos anos depois, descubro que me encantava nos índios, primacialmente, sua dignidade, inalcançável para nós, de gente que não passou pela mó da estratificação social. Não tendo sido nem sabido, jamais, de senhores e escravos, nem de patrões e empregados, ou de elites e massas, cada índio desabrocha como um ser humano em toda sua inteireza e individualidade. Pode, assim, olhar o outro e ser visto por todos como um ser único e irrepetível. Um ser humano respeitável em si, tão só por ser gente de seu povo. Creio que lutamos pelo socialismo por nostalgia
daquele paraíso perdido de homens vivendo uma vida igualitária, sem nenhuma necessidade ou possibilidade de explorar ou ser explorados, de alienar-se e de ser alienados.

O senhor defende que o Brasil deve ter um socialismo próprio, um "socialismo moreno". 
Como se daria esse sistema?
A posição socialista é a posição dos que querem passar o Brasil a limpo, no sentido de fazer com que o Brasil se torne habitável, para que todos os brasileiros tenham os mínimos indispensáveis. Mínimos a partir dos quais nós passaríamos a existir como povo civilizado entre outros. Esse mínimo é o socialismo brasileiro. E um socialismo brasileiro surgirá de nossa história, com a nossa carne e com a nossa cor, morena. Um socialismo brasileiro começa por assumir o povo moreno que nós somos, mas sobretudo a nossa pobreza. Assumir essa pobreza sabendo que ela dá lucro para muita gente. Muita gente quer que o país continue assim. Nós somos contra isso.

“NÃO TEM NOVIDADE FAZER A AUSTRÁLIA OU O CANADÁ. BASTA PEGAR UM
BOCADO DE INGLESES, JOGAR NUM TERRENO VAZIO, QUE ELES FAZEM UMA
INGLATERRAZINHA SEM GRAÇA. NÓS FIZEMOS UM POVO.”

 O senhor poderia ter passado a vida apenas como intelectual. Por que decidiu arriscar-se na 
vida política?
Política é a atividade humana fundamental. É aquilo que move o destino humano. É o que define o que vai acontecer com comunidades. É vitalmente importante. Há países que deram certo, por coincidência da história ou por competência deles, que não confiam em intelectuais. A Inglaterra não dá a menor confiança para intelectual, nem para sociólogo, antropólogo ou psicólogo. A Alemanha e os Estados Unidos também não. Mas os países que não deram tão certo tem que dar um pouco de atenção.

Por isso a sua crítica aos acadêmicos pouco afeitos à política?
A Escola de Sociologia e a Faculdade de Filosofia nos tiravam da revolução e nos metiam a estudar arte plumária kaapor ou a reconstituir as guerras tupinambá de antes de 1500. Dopados, doutrinados sem o saber, estávamos empolgadíssimos com as tarefas que nos levariam a um cientificismo que se esgotava como uma finalidade em si, desligado de qualquer problemática social e nacional.

Mas esses estudos citados, por exemplo, não são importantes? 
Acho muito legítimo estudar qualquer tema só movido pelo desejo de saber. Afinal, nosso ofício de cientistas tem por fim ampliar e melhorar o discurso humano sobre a natureza das coisas, inclusive de si próprios. O que desejo assinalar é o caráter alienador de uma escolástica científica que fechava nossos olhos para o contexto circundante, que nos desatrelava do ativismo político para fazer de nós futuras eminências intelectuais e acadêmicas. A soma de ativismo político com a herança brasilianista e o interesse pela literatura impediram que eu me convertesse num acadêmico completo, perfeitamente idiota. Desses que só servem para por ponto e vírgula nos textos de seus mestres estrangeiros.

Considera O Povo Brasileiro a sua maior obra?
Escrever esse livro foi o desafio maior que me propus. Por mais de 30 anos eu o escrevi e reescrevi, incansável. Nunca pus tanto de mim, jamais me esforcei tanto como nesse empenho, sempre postergado, de concluí-lo. Ultimamente essa angústia se aguçou porque me vi na iminência de morrer sem concluí-lo. Fugi do hospital aqui para Maricá, para viver e também para escrevê-lo. Se você, hoje, o tem em mãos para ler, em letras de forma, é porque afinal venci, fazendo-o existir. Por que só agora o retomo, depois de tantos,
tantíssimos anos, em que me ocupei de tarefas mais variadas, fugindo dele? Não sei! Não foi para descansar, certamente. Foi para me dar outras tarefas. Entre elas, a de me fazer literato e publicar quatro romances. Nessa longa travessia, também politiquei muito, com êxito e sem êxito, aqui e no exílio, e me dei a fazimentos trabalhosos, diversos. Inclusive vivi, quase morri.

Quem são seus ídolos? 
Eu tenho dois alter egos. Um, meu santo-herói, Cândido Rondon. Outro, meu santo-sábio, Anísio Teixeira. Cada qual de sua causa, que foram ambas causas minhas. Foram e são: a proteção aos índios e a educação do povo. Em educação, Anísio representou para mim o que fora Cândido Rondon em outro tempo e dimensão. Baixinho, irrequieto, falador, mais cheio de dúvidas de que de certezas, de perguntas que de respostas. Anísio me ensinou a duvidar e a pensar. Ele dizia de si mesmo que não tinha compromisso com suas ideias, o que me escandalizava, tão cheio eu estava de certezas. No caso de Rondon, fiquei galvanizado instantaneamente por sua bela figura índia, pela dignidade de sua fisionomia, pela energia de seu olhar, pela naturalidade de seu mando. Fiquei atado a Rondon pela vida inteira.

“TENHO DOIS ALTER EGOS. MEU SANTO-HERÓI, CÂNDIDO RONDON, E MEU
SANTO-SÁBIO, ANÍSIO TEIXEIRA. CADA QUAL DE SUA CAUSA, QUE FORAM E SÃO
MINHAS: A PROTEÇÃO AOS ÍNDIOS E A EDUCAÇÃO DO POVO.”

 Como resumiria sua atuação política pela educação?
Deixe-me dizer aqui que me considero um educador bem-sucedido. Não só por méritos meus. Mas porque soube encontrar poderosos com a grandeza de adotar minhas ideias. O primeiro foi Jânio Quadros, convencido por Anísio e por mim a fazer da educação a meta fundamental de seu governo. Chegamos a detalhar um belo programa para ele, que não cumpriu tudo sabem por quê. Mais êxito tive com Leonel Brizola, que comprou a mais velha ideia e sonho dos educadores brasileiros, que era criar aqui a escola primária que todo o mundo tem, a de tempo integral, sem recair nessa perversão que são as escolas de turno. Junto com Brizola fiz 500 CIEPs, em que poderão ser educadas 500 mil crianças, que representam mais de uma terça parte do alunado do estado do Rio.

O senhor nunca casou ou teve filhos, mas sempre levou fama de conquistador. Considera boa 
a opção?
Cada pessoa devia amar todos os amores de que fosse capaz. Sucessivamente, em amores apaixonados, cada um deles vivido e fruído como se fosse eterno. Para amar é que eu quisera viver mais e mais. O amor é a mais funda, mais sentida e mais gozosa e mais sofrida das vivências humanas. Aos olhos das moças de hoje, sou um velho. Sou mesmo e isso me dói muito demais. Quisera o impossível de ser confundido com a rapaziada de agora, felizarda.

Acredita em Deus? 
É claro. Seria uma soberba, uma prepotência não acreditar. Eu posso dizer que não posso provar que Deus existe, posso dizer que Deus está em dívida comigo, tem que me acender a fé, mais veemente. Não sou religioso praticante. Por isso Deus tinha que me iluminar o peito com a fé. Fé não é a razão que leva. Fé militante, combativa, é Deus que ilumina no coração dos homens.

Por falar em soberba, já houve quem o chamou de vaidoso... 
É verdade. E daí? Estou cheio de razões do que fiz em minha vida inteira para orgulhar-me de mim. Confesso que necessito e gosto demais de elogios. Sobretudo dos redondos, retumbantes, como o de Márcio Moreira Alves dizendo "que a coisa mais parecida com gênio que existe no Brasil é o Darcy". Ou dos que recebi de Adolpho Bloch, Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Gabriel García Márquez. Gosto também dos elogios menores, de mulher dizendo que sou bonito e gostosão. De homens me ouvindo com admiração. Gosto até das adulações. Um bom puxa-saco é coisa apreciável.

Olhando para trás, qual o balanço que faz de sua trajetória?
Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem me venceu.

Como vislumbra o futuro do Brasil?
O Brasil já é a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio de tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso auto-sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra.

5 de setembro de 2013

"Quando alguém diz ‘nóis vai’ é que nós vamos. E vamos mesmo"

Sérgio Vaz precisou ultrapassar obstáculos invisíveis (e outros nem tanto) para mostrar que a periferia também gosta de se comunicar por meio de poesia. Há 12 anos comanda a Cooperifa, o sarau que mudou a rotina da zona sul de São Paulo com versos, rimas e literatura. 
“Para quem o pessoal da periferia precisa pedir autorização para escrever? Para a Academia Brasileira de Letras?”. É de forma provocativa que Sérgio Vaz, 49 anos, rebate aos que ainda insistem em achar estranho uma empregada doméstica, um lixeiro ou um mecânico dedicar um tempo do dia para colocar poesia no papel. Não há, porém, um pingo de ressentimento em sua voz. O homem que está à frente do sarau de periferia mais importante do Brasil há 12 anos nunca precisou pedir autorização a ninguém para escrever a própria trajetória. Apenas se impôs. 
O Sarau da Cooperifa ocorre toda quarta-feira no bar Zé Batidão, na zona sul de São Paulo, e é disputado. Costuma reunir 200 pessoas por edição. Já chegou a 500. Os microfones estão abertos a poetas de todos os estilos e níveis. O evento angariou o pessoal da região e também espectadores da classe média, que cruzam a cidade para ouvir o que eles têm a dizer. A Cooperifa ainda promove ações como exibições de filme, saraus em escolas públicas, apresentações de música e arte cênica. Tudo de graça. Pelo trabalho inovador, a instituição ganhou o prêmio Educador Inventor, concedido pela Unesco. 
Para Sérgio, o segredo do sucesso da Cooperifa é a simplicidade com a qual foi criada. “Para entrar no sarau, Jorge Amado, Adélia Prado, Pablo Neruda precisam tirar o sapato. A poesia que pediu licença para entrar na vida das pessoas. Não as pessoas pediram licença para ter acesso à poesia. A ordem se inverteu. No bom sentido, a poesia foi tratada como uma arte qualquer”. 
Hoje, há saraus inspirados na Cooperifa em lugares diferentes entre si como Salvador e Porto Alegre, Belo Horizonte e Arcoverde. “Nós não somos um movimento para escritores. Somos um movimento para criar leitores”, explica. 
Alimentos e livros
A infância de Sérgio Vaz foi muita parecida com a de outros jovens de periferia. Os poucos espaços que havia para desenvolver suas potencialidades era o campo de futebol, a rua e a igreja. No seu lar, porém, havia outro bem também valioso. “Apesar da simplicidade, na minha casa nunca faltou nem alimentos e nem livros”. Era observando o pai, dono de bar e leitor contumaz, que começou a achar que ler poderia ser algo bacana. Tinha 14 anos quando abriu o primeiro livro, Eram os Deuses Astronautas?, do suiço Erich von Däniken. A experiência não foi das melhores: “Não entendi nada”.  Seu pai observou o filho de livro aberto, se entusiasmou e resolveu comprar publicações infanto-juvenis para o garoto. Nascia um leitor. 
Um pouco mais velho – e mais experimentado na literatura –, resolveu achar um espaço para sua turma realizar apresentações artísticas, em literatura, música, dança, artes cênicas ou qualquer outra ideia que surgisse. Ao lado do amigo Marco Pezão criou a Cooperifa e convenceu o dono de uma fábrica abandona em Taboão da Serra, na grande São Paulo, a ceder o espaço. De forma improvisada, ocorreram os primeiros eventos artísticos. E os primeiros saraus. 
A “sede” da Cooperifa foi mudando de endereço até fincar bandeira no Zé Batidão, bar que havia sido do seu pai e de onde, na infância, costumava ficar atrás do balcão observando de forma curiosa os tipos que entravam no recinto, os homens solitários, os bêbados. “O bar, que era a minha senzala na infância, se tornou a minha libertação. As pessoas passaram a vir como se estivessem indo para Palmares, fugindo da mediocridade, do marasmo”. Desde então não houve uma única quarta-feira sem sarau.
Cinema na Laje
Quase 50 livros já foram publicados pelos freqüentadores da Cooperifa. Só de Sérgio são sete, todos elogiados pela crítica. Na trajetória também atestou que todo mundo gosta de poesia. Para ilustrar, se lembra da primeira visita que fez à Fundação Casa, ex-Febem, para levar poesia aos jovens da instituição. A primeira recepção foi gelada, com olhares pouco entusiasmados dos garotos. Sérgio perguntou: “Alguém aqui gosta de poesia?”, e apenas recebeu como resposta cabeças para a direita e para a esquerda. Foi quando pediu licença e começou a recitar Negro Drama, música dos Racionais: Negro drama / Entre o sucesso e a lama / Dinheiro, problemas, inveja / Luxo, fama / Negro drama / Cabelo crespo / E a pele escura / A ferida, a chaga / A procura da cura... No meio percebeu que alguns recitavam juntos. Ao fim, o texto foi terminado em uníssono. Um jovem perguntou: “Ei, senhor, Racionais é poesia?”. Diante da resposta positiva, emendou: “Então nóis gosta”. 
Além da literatura, outra ação que entusiasma Sérgio é o Cinema na Laje. Quinzenalmente são exibidos filmes e documentários na laje do Zé Batidão. Esqueça filmes de Hollywood. A ideia não é a de passar cinema para quem não tem dinheiro. É formar público. “Defendo que todos têm dinheiro para ir ao cinema. Quem não vai é porque não tem o hábito”. O poeta costuma ligar para produção dos filmes e pedir a presença do diretor ou de um ator para discutir cinema com a comunidade. 
Já houve exibições de filmes como MarighellaQuebrando TabuCinco Vezes FavelaA Febre do Rato. O trabalho da Cooperifa também atraiu personalidades importantes do meio intelectual. No fim do ano passado, por exemplo, houve a visita de Mia Couto, o badalado escritor moçambicano. “E ele não queria mais sair de lá”, relembra. 
Literatura periférica
O poeta já visitou a Europa e países da América Latina, convidado a apresentar seu trabalho. É presença constante em eventos literários. Certas vezes, porém, se depara com algum preconceito do meio literário tradicional. “Em debates, às vezes é como se dissessem: ‘O Sérgio é poeta, mas é poeta da periferia. Vamos devagar com ele”. Outra coisa que o incomoda é quando as perguntas se limitam à criminalidade ou à vida na periferia. “Eu sou da mesma cidade do cidadão. Mas é como se eu tivesse vindo da Palestina. Já me perguntaram em debate se eu vi gente morrer. Dá vontade de responder: ‘Eu não trabalho na polícia e nem sou bandido. Eu li 300 mil livros na vida e quero falar sobre eles. Li Bauderlaire, Rambaud, Verlaine. Podem ficar à vontade para falar de literatura comigo’”. 
A sua poesia, porém, é combativa. Para manter o desejo de denunciar problemas sociais pelos versos inspira-se em uma frase do poeta Ferreira Gullar: “Só é justo cantar quando seu canto arrasta consigo pessoas e coisas que não tem voz”. Para a sua poesia, a realidade é fundamental. “O pessoal da bossa nova abriu a janela e viu um dia de luz, uma festa do sol, e fez uma música. Certo eles, sincero. Mas abrimos a janela e vemos outra coisa. É importante falar sobre o que vemos”. 
Para ele, a literatura periférica brasileira já criou um estilo. “Quem nasceu em Moema (bairro de classe média alta de São Paulo) não pode fazer literatura periférica. Ou até pode, mas não vai ficar bom. Literatura romana é feita pelos romanos, literatura grega é feita pelos gregos. E literatura periférica é feita por quem mora na periferia. É o texto dos sofridos”. E, para quem insiste em julgar seus pares da Cooperifa baseado em preconceitos linguísticos ou de qualquer natureza, explica: “A nossa literatura tem menos crase, ponto e vírgula, mas ainda assim é literatura. Quando alguém diz nóis vai é que nós vamos. E vamos mesmo”. 

10 de abril de 2013

Nássara, o último dos cariocas autênticos


Fim da década de 1960. A cidade do Rio de Janeiro estava em processo de rápida transformação. Prédios altos surgiam na orla das praias, edifícios antigos do Centro eram demolidos, a violência urbana começava a sair do controle. Antônio Gabriel Nássara, então com quase 60 anos, via as mudanças sem muita preocupação, mesmo sendo testemunha dos momentos áureos da Cidade Maravilhosa. “O autêntico carioca é aquele que depois de ter sofrido na carne todos os pesadelos que desabaram sobre o Rio moderno, ainda encontra em si amor e ternura pela cidade”, disse em entrevista ao jornalista Joel Silveira.

Nássara havia passado as últimas décadas praticando com louvor as principais características cariocas: o papo-furado em botecos, o bom-humor, o otimismo diante das dificuldades, os sambas compostos sob o ritmo de caixinhas de fósforo. Só temia pelo fim da espécie: “O bom carioca é uma raça em processo de extinção. Acabará quando acabar gente como eu. Ou como o Bororó, a Aracy de Almeida, o Marques Rebelo e o Di Cavalcanti”.

Nascido em São Cristóvão e criado em Vila Isabel, ambos bairros tradicionais da zona norte, Nássara produziu, entre um chope e outro, um importante legado artístico. Compôs exatas 235 músicas, todas com parceiros da pesada, como Noel Rosa, Wilson Baptista, Lamartine Babo, Mário Lago, Ari Barroso. Mas marcou-se mesmo por suas ilustrações, publicadas nos mais importantes jornais e revistas do Rio. Seus traços fortes, porém minimalistas, registraram os personagens da cidade: políticos, escritores, sambistas e gente do povo. Não era preciso olhar duas vezes para seus desenhos para identificar o homenageado – ou a vítima. “Ele capturava, com linhas fortes, a alma frágil de quem estivesse desenhando”, diz o escritor Ruy Castro.



Primeiro jingle da história
Nássara sempre gostou de desenhar. Aos 17 anos, passou a trabalhar como ilustrador do jornal O Globo. Logo depois entraria na Escola de Belas-Artes, curso que abandonaria no quarto ano. Já não dava conta das ilustrações que tinha de entregar, a essa altura em vários outros veículos de imprensa.

Além dos desenhos, também se tornou locutor do Programa do Casé, o mais importante programa de música da rádio carioca. Já começou inovando ao criar o primeiro jingle da história do rádio brasileiro: Ó padeiro desta rua / Tenha sempre na lembrança / Não me traga outro pão / Que não seja o pão Bragança. Para anunciar um laxante e não chocar a “tradicional família carioca” – e nem a censura, que encrencava com anúncios dessa natureza –, saiu-se com a historinha: “Um casal de noivos brigou. Ele, arrependido, resolveu fazer as pazes, mas a moça estava irredutível. Conversou com a futura sogra, que o aconselhou que presenteasse a filha com algo de valor. Comprou-lhe, então, uma jóia caríssima. E não fez efeito. Deu-lhe um casaco de peles. Mas não fez efeito. Então, lembrou de dar a ela um vidro de Manon Purgativo... Ahhh! Fez efeito! Manon Purgativo, à venda em todas as farmácias e drogarias.”



Mas que calor...
A composição musical começou a tomar papel importante em sua vida a partir de 1932, ao emplacar nas rádios a música Formosa, em parceria com J. Rui. Outras grandes canções surgiriam nas décadas seguintes, principalmente marchinhas. Qual causou mais comoção foi a marchinha Alalaô, composta em parceria com Haroldo Lobo, que contou com uma genial orquestração de Pixinguinha. Os versos Alalaô / Mas que calor / Atravessando o deserto do Saara... se tornou o maior sucesso do carnaval de 1941. E de todos que viriam pela frente.

Outros sucessos surgiriam: Retiro da Saudade (com Noel Rosa), Mundo de Zinco (com Wilson Baptista), Quem Não Chora Não Mama (com Roberto Martins). Apesar disso, sugeria que tratava a música como um hobby. “Eu não me considero compositor. Eu fiz música, é diferente. Não tenho nem um décimo da força de Noel Rosa”, afirmava, modestamente.

Aos poucos, foi se afastando das músicas e das ilustrações. Mas nunca dos bares e da boêmia. Havia quem disputasse a cadeira mais perto de Nássara para ouvir suas histórias, sempre surpreendentes. “Ele tem um bom humor contagiante, boa educação inata, o irresistível amor pela noite. Tem também o bate papo colorido no qual as palavras, arrumadas com maestria e propriedade, jamais repetem as mesmas histórias”, exaltou Joel Silveira.



Inventor do Rio
Sua carreira ganharia novo fôlego em 1976, ao ser convidado para fazer parte da equipe de O Pasquim. Lugar ideal para seus traços – num tempo em que a imprensa já começava a se tornar mais carrancuda, com menos espaços para experimentalismos. Se antes retratava Noel Rosa, Getúlio Vargas, Mário Lago, agora dava vida a Martinho da Vila, Pelé, Paulinho da Viola.

A partir dos anos 1980, passou a trabalhar menos, até por uma gradativa perda de audição. Mas não perdia o bom-humor. “Em Nássara nunca dará cupim”, como Ari Barroso profetizou décadas antes. Em 1996, aos 85 anos, ainda ilustrou o delicado livro infantil Moça Perfumosa, Rapaz Pimpão, de Daniela Chindler. Mas não viu o resultado. Morreu em casa, em 11 de dezembro de 1996, vítima de enfarte. “A gente é que nem lâmpada. Um dia apaga”, disse a amigos, poucos meses antes da morte.

Dos bons cariocas em extinção, foi o último a se despedir da Cidade Maravilhosa. Mas já havia deixado uma herança. “De uma certa maneira, o Rio é uma invenção de Nássara, Orestes Barbosa e Noel Rosa. Inventores também do papo-furado, foram se distraindo e a cidade cresceu em volta deles”, escreveu Millôr Fernandes.


5 de abril de 2013

Martinho da Vila levou o samba à terra do semba (e vice-versa)


Integrantes do Canto Livre de Angola com Martinho e Alcione

Em meados da década de 1970 não havia uma embaixada brasileira em Angola. Mas Martinho da Vila era chamado de “embaixador do Brasil” no país africano. O compositor de Vila Isabel – intrinsecamente ligado à causa negra – começou a fazer excursões do lado de lá do oceano Atlântico, e cada vez voltava mais encantado com a riqueza e a diversidade cultural que via. Em 1980, enfim, idealizou um grande projeto de intercâmbio cultural entre os dois países: o Projeto Kalunga.

A organização ficou a cargo de Martinho e do produtor Fernando Faro. Durante todo o começo da década artistas brasileiros de primeira linhagem foram mostrar o samba à terra do semba: Chico Buarque, Dorival Caymmi, Clara Nunes, Miúcha, Djavan, Dona Ivone Lara, João Nogueira e outros. “O que mais ficou marcado na minha memória foi a participação de Dorival Caymmi sozinho com seu violão, e o povo todo cantando a letra inteira com ele”, afirma Martinho.

Três anos mais tarde, Martinho inverteu a direção. Elaborou o Canto Livre de Angola, que trouxe ao Rio, São Paulo e Salvador a então desconhecida música angola, com a participação de Elias Dia Kimuezo, um dos mais importantes nomes da música do país. O projeto rendeu o elepê Canto Livre de Angola.

De ambos os projetos, surgiram novas canções, como Morena de Angola, de Chico Buarque. A letra mais emblemática criada a partir do intercâmbio cultural é Lá de Angola, de João Nogueira, que encerra a discussão entre cariocas e baianos sobre o surgimento do samba: É preciso navegar / Pra poder se esclarecer / Do lado de lá do mar / É preciso ver pra crer (...) Samba vem lá de Angola / Não vem da Bahia, não / Samba vem lá de Angola / Não vem lá do Rio, não.


15 de janeiro de 2013

Frank Sinatra irritou jornalistas e encantou multidões no Rio



“Frank Sinatra está resfriado”. Este é o título de uma das mais conhecidas reportagens da história do jornalismo mundial, escrita pelo repórter norte-americano Gay Talese em 1966. A manchete também poderia descrever a estadia do cantor em solo brasileiro em 1980. Durante cinco dias no Rio de Janeiro, The Voice pegou um resfriado forte, arrumou confusão com a imprensa e fez um dos shows mais concorridos da história do Brasil.

O empresário Roberto Medina foi o responsável por trazer a lenda norte-americana ao País – o mesmo que produziria a primeira edição do Rock in Rio. O sonho de trazer Sinatra era uma questão de honra para a família desde que o pai, o também empresário Abraham Medina, tentou contratá-lo em 1955 por 300 mil dólares, mas o negócio acabou não sendo concretizada.

A chegada de Sinatra à Cidade Maravilhosa gerou uma corrida de repórteres para conseguir uma palavrinha do artista. Cerca de 200 profissionais da imprensa se empurraram (e o empurraram) ao se aproximar do Rio Palace Hotel. A entrevista coletiva foi suspensa. O assessor de imprensa gritou aos jornalistas: “Ele não precisa vir ao Brasil para ser tratado como animal!”. A relação a cada dia ficava mais tensa. Mais tarde, em uma outra coletiva de imprensa, ele fez uma congelante cara de desprezo a uma repórter argentina que lhe fez a pueril pergunta: “Você se acha o único?”. No quarto do hotel, Sinatra chegou a dizer à mulher que queria ir embora, mas foi convencido a permanecer. A pouca amistosa relação entre ele e a imprensa até gerou uma carta de repúdio de um grupo de jornalistas, enviada ao consulado dos Estados Unidos.

A apresentação, porém, foi impecável. Aos 64 anos, ele subiu ao palco na noite chuvosa de 26 de janeiro de 1980 e se impressionou ao dar de cara com o maior público de sua carreira: 175 mil ansiosas pessoas esperavam para ouvir sua Voz. “Quando Sinatra adentrou o palco, olhou para cima e disse: ‘Meu Deus’. Na arquibancada, eu também”, relembra o jornalista Ruy Castro. Não só de sua carreira. Aquela noite entrou para o Guinnes Book como o maior público de uma apresentação musical de todos os tempos. Durante 75 minutos os espectadores ouviram canções como I've Got the World on a String, The Lady Is a Tramp e I've Got You Under My Skin. O show foi transmitido para toda a América do Sul, com exceção da Colômbia, pela Globo.

Não houve outro tema no Rio. A repercussão da apresentação até inspirou o poeta Carlos Drummod de Andrade a escrever uma crônica sobre um sujeito que não suporta mais ouvir sobre o norte-americano e quer comprar por 20 mil cruzeiros a sua não-entrada para o show. Após um bate-boca com o rapaz da bilheteria, que não entende a proposta insólita, o sujeito conclui: “Quero o meu sossego, quero ouvir as fitas de minha escolha, e atualmente nesta cidade não há alternativa. Ou Sinatra ou nada. Então, quero Cr$ 20 mil de nada”.  

30 de novembro de 2012

Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém



Dia desses, eu estava com uns amigos, conhecidos e semi-conhecidos num bar. Em um momento a conversa rumou para música. Eu falei com a certeza de quem já tomou três cervejas a mais: “A música poderia se resumir em Noel Rosa, João Gilberto e Racionais”. Só se tem boa conversa com algumas verdades absolutas jogadas sobre a mesa. Num canto, até então quieto e observador, estava um sujeito conhecido do semi-conhecido de barba, camisa xadrez e óculos quadrados vermelho. O tipo que se tem certeza que rezou para Deus para ser acometido por miopia ou astigmatismo na adolescência e que regula o nível dos óculos pressionando o centro da armação com o dedo indicador. Pois bem. Ele rompeu o próprio silêncio, numa mistura de complacência e didatismo: “Desculpa, os outros tudo bem, mas Racionais não dá. Aquilo não é música. Mas o que mais me pega contra eles é a incoerência. Falam mal de playboy e o Mano Brown tem um Audi”. Depois, afirmou como se fosse um ser iluminado pelo Criador que é amante de jazz.

Não lhe disse, mas esse cara não sabe nada sobre a vida. Não há incoerência alguma. Para começar a acabar com o argumento basta ouvir o disco Nada Como um Dia após um Outro Dia, de 2002. É um tratado sobre a importância de ganhar dinheiro, de ter um carrão e uma corrente de ouro e as contradições que esses bens trazem a um sujeito negro de periferia. As pessoas querem ter destaque, seja qual for, seja pelo motivo que for. Os Titãs já ensinaram na década de 1980: A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte. Com a diferença que Brown afirma: A gente não quer só comida / A gente quer comida, cordão de elite 18 quilates, breitling no pulso e lupa baunch & lomb.

Cada música do disco, aliás, lembra da importância da grana no bolso. A música Vida Loka Parte 2 exalta: Imagina nós de Audi, ou de Citroen e Não é questão de luxo, não é questão de cor / É questão que fartura alegra o sofredor. Em A Vida é Desafio, é lembrada uma verdade fundamental: O sonho de todo pobre é ser rico. Ninguém quer ser coadjuvante de ninguém, como se diz em Da Ponte Pra Cá. Ninguém. E isso branco de classe média – de playboy da Vila Olímpia a estudante de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo – tem dificuldade de entender.

Uma das frases que mais se ouve por aí desde a ascensão de milhões de pessoas para a famosa classe C é: “Agora qualquer casa na favela tem uma tevê de plasma, mas não tem livros”. Só idiotas eternos esbravejam contra a explosão de eletroeletrônicos das Casas Bahia em bairros pobres. Não entendem que o poder simbólico de uma tevê de plasma, de uma corrente de ouro, de um Playstation e de um tênis Nike é imensurável.

O sujeito com esses bens de consumo passa a não se sentir mais diferente dos riquinhos que vivem da ponte pra lá. Sente-se feliz, confortável, confiante e, a palavra é essa, com auto-estima. Qual o problema há nisso? Só se pode desprezar algo que se tenha. Os filhos dessas famílias, num futuro próximo, não verão tanta importância em assistir a uma televisão numa tela de 200 polegadas – isso foi normal durante toda a vida deles – e darão prioridade a outras coisas, como montar um coletivo de arte urbana. Grande parte dos filhos da classe média da zona oeste de São Paulo só pôde escolher profissões como clown, arte-educador e cineasta porque os pais – ou os avôs – foram engenheiros, advogados ou donos de imobiliárias. Alguém precisou ganhar dinheiro com profissões tradicionais para o rapaz se dar ao luxo de ganhar menos e ter prioridades mais nobres. Vocês querem que os meninos da favela leiam Nietzsche sob o teto do barraco de madeirite. Podem ler também, sem problema. Nada disso se opõe a ter uma bela tevê na sala. A gente não quer só comida e filosofia.

Depois de tantos anos de subemprego, de humilhação, de preconceito, de ser tratada como invisível, ainda se exige da periferia que tenha prioridades anti-consumistas. A classe média sempre comprou carro. Agora que os pobres também podem andar numa máquina motorizada inventou-se a moda que a bicicleta é o único veículo possível. É cultural ver os pobres enfurnados em ônibus lotados, em trens desumanos ou, no máximo, em chevetes com um adesivo de Jesus. Não é cultural vê-los num carro com teto solar, direção hidráulica e quatro círculos na frente. Ou mesmo em qualquer zero quilômetro com IPI reduzido. Dá-lhe exortar contra essa “pouca vergonha” que “atrapalha a cidade”, como se o trânsito fosse uma invenção da classe C. “Ei, bacana, quem te fez tão bom assim? O que cê deu, o que cê faz, o que cê fez por mim?”, muitos dos pobres que ascenderam devem, com razão, pensar.

Lembro-me de uma frase que pipoca como uma dessas verdades inapeláveis pelo Facebook: “País rico não é o que o pobre anda de carro, mas o que o rico usa transporte público”. Calma lá, amigos. Vocês passaram décadas transformando São Paulo em sinônimo de carangas gigantes e agora, que os mais pobres também podem ter as máquinas, vêm com esse papo? Pobre não pode estar certo nem com dinheiro. Sugiro que você pegue sua bicicleta diariamente na Praça da Sé e vá pedalando para Guaianases, Vila Ré ou Guarulhos; ou até Vila Joaniza, Taboão da Serra ou Vila Santa Catarina; ou até Brasilândia, Pirituba ou Jardim Brasil. Ir da Vila Madalena para o Alto de Pinheiros é mole. Primeiro deve-se ter um sistema de transporte público eficiente. Depois, as pessoas – de qual classe social forem – que decidam se querem ou não ter um carro.

De volta aos Racionais. Em uma das faixas de Nada Como um Dia, Brown deixa de lado a cantoria para contar uma situação que presencionou num Dia das Crianças. Era a de um menino pobre da zona sul de São Paulo que, em vez de presente, ganhou um tapa na cara da mãe por xingá-la por não ser presenteado. Brown termina a história: Aí eu fiquei pensando, né, mano, como uma coisa gera a outra. Isso gera um ódio. O moleque com 10 anos tomar um tapa na cara no Dia das Crianças. Eu fico pensando quantas mortes, quantas tragédias em família o governo já não causou com a incompetência, com a falta de humanidade. (…) Ali marcou pra ele. Talvez ele tenha se transformado numa outra pessoa aquele dia”. E agora, imagine que se em vez de tapa na cara o garoto ganhasse um tênis que solta luzinha ou um carrinho de controle remoto. É isso que está acontecendo cada vez mais. É consumismo? É. E o que a classe média de São Paulo fez toda a vida? Deixem de eco-egoísmo.

Não se deve ver com incoerência alguma o desejo de consumo. A reclamação de Brown contra os playboys de carrão é que Pero Vaz de Caminha foi o primeiro branco a ter um Audi por estas terras e desde então só descendente de europeu conseguiu chegar perto de um. O que o adorador de jazz não percebeu é que ele próprio acha estranho, sem se dar conta, um preto de periferia no comando de Audis e Citroens, mesmo que seja um dos artistas de música popular mais conhecidos do País. O mundo seria muito melhor se o desejo geral fosse pelo bem do próximo, pela paz mundial e pela elevação espiritual. Mas, como se sabe, em São Paulo Deus é uma nota de 100.


19 de setembro de 2012

Romeu e Julieta, a música inédita de Vinicius de Moraes

Quais são as chances de surgir uma canção inédita de um gênio da música algumas décadas depois de sua morte? Poucas. Mas um desses acontecimentos raros ocorreu há dois anos. Toquinho estava jogando bilhar com Paulinho da Viola e outros amigos em São Paulo quando uma senhora desconhecida apareceu no local com um papel na mão e disse ao violonista: “Toquinho, acho que isso vai te interessar muito”.

Era o manuscrito original da canção Romeu e Julieta, composta por Toquinho e Vinicius de Moraes entre 1974 e 1975, que nunca foi gravada em disco. A falta de gravação por todas essas décadas se deve a um leve descuido de Toquinho, que perdeu a letra e nunca mais a achou, até o encontro inusitado e misterioso durante uma partida de bilhar.

A canção, agora, é gravada em CD para O Haver – Pinturas e Músicas para Vinicius, projeto idealizado pelo artista plástico Elifas Andreato em homenagem a Vinicius (para saber mais sobre o projeto, clique aqui)

A letra é Vinicius de ponta a ponta. Lírica, sofrida, mas com alguns quês de otimismo. Veja o vídeo abaixo e acompanhe a letra.

Romeu e Julieta (Toquinho e Vinicius de Moraes)
Não te esqueças de mim
Quando um dia eu me for
Deposita uma flor
Onde disser assim: 
Aqui jaz um amor
Que foi lindo demais
Aqui jaz um amor em paz

E não busques jamais
Repousares enfim
Busca um velho punhal
De ferrugem ruim
E num instante fatal
Ao sentires teu fim
Vem deitar o teu sangue em mim

31 de agosto de 2012

Coração de estudante, composta para Jango, se tornou hino de Tancredo Neves

Quero falar de uma coisa / Adivinha onde ela anda / Deve estar dentro do peito / Ou caminha pelo ar. A música Coração de Estudante, composta por Milton Nascimento e Wagner Tiso, ganhou as rádios do País em 1983. E conquistou um fã especial: Tancredo Neves, o político conterrâneo dos compositores mineiros, que dizia ser uma de suas músicas preferidas.

A canção, no entanto, foi composta originalmente por Tiso para outro líder político. Era um dos temas instrumentais do documentário Jango, do diretor Silvio Tendler, em homenagem a João Goulart, presidente deposto pelo golpe militar em 1964.

Após o filme ganhar as telas de cinema, Milton decidiu pôr a letra, fato incomum em sua carreira. Baseou-se em Edson Luís, um dos primeiros estudantes mortos pela ditadura militar, em 1968. Os versos foram surgindo um a um, naturalmente. Para batizar, lembrou-se de uma flor muito comum em Minas, a coração-de-estudante. A novidade foi lançada durante as Diretas-Já, movimento cujo um dos líderes era Tancredo. "Era o momento da campanha das Diretas e ela começou a se tornar um hino da juventude", recorda Tiso.

A volta das eleições diretas não foi aprovada, mas o político mineiro foi escolhido como o novo presidente, o primeiro civil desde 1964. Porém, morreu antes de tomar posse. Não houve matéria na tevê ou no rádio sobre Tancredo sem a canção como fundo musical, que se encerra com a mistura de tristeza e esperança que permeava o País naquele momento: Alegria e muito sonho / Espalhados no caminho / Verdes, planta e sentimento / Folhas, coração / Juventude e fé.



27 de julho de 2012

"Corpo fechado" abriu os caminhos do rap nacional

A partir de meados da década de 1980, o vão livre da estação São Bento do Metrô, em São Paulo, passou a ser ponto de encontro dos aficionados pelo movimento hip-hop, já forte nos Estados Unidos, mas ainda engatinhando no Brasil. Dois fatores foram decisivos para a escolha do lugar: localização central e piso propício para dançar break, enquanto os MCs lançavam as rimas de improviso. Foram integrantes dessa turma que produziriam o elepê inicial do rap brasileiro: Hip-Hop Cultura de Rua, que ganharia as lojas de disco em 1988.

Quatro grupos fizeram parte das 14 faixas do vinil, lançado pela Eldorado: Código 13, MC Jack, O Credo e, conhecidos até os dias de hoje, Thaíde e DJ Hum. Hip-Hop Cultura de Rua trazia, inclusive, um dos clássicos do rap tupiniquim, Corpo Fechado (parceria de Thaíde com Marcos Telésforo), em que Thaíde versava com voz brava: Me atire uma pedra / Que eu te atiro uma granada / Se tocar em minha face / Sua vida está selada.


Com boa receptividade, o disco (hoje considerado raríssimo) abriu as portas para o lançamento de outros rappers, como Ndee Naldinho, Consciência Humana, DMN e, fora de São Paulo, Câmbio Negro, de Brasília, e Faces do Subúrbio, do Recife. Logo também surgiria o primeiro elepê dos Racionais MCs, o mais cultuado grupo de rap do País. Fatos que mudaram a produção cultural das periferias das grandes cidades, principalmente de São Paulo. “Se no Rio é o samba, o rap é a grande música popular paulistana”, diz Mano Brown, líder dos Racionais.

25 de abril de 2012

Bôscoli conquistou três das maiores cantoras do Brasil


Bôscoli e Elis casam-se em 1967
O compositor Ronaldo Bôscoli era um dos mais bem-sucedidos conquistadores do seu tempo. E parecia ter predileção por cantoras. Com pinta de galã e conversa mansa, viveu casos de amor com três das mais conhecidas cantoras brasileiras.
O relacionamento iniciado com Nara Leão, em 1956, era quase um conto de fadas. Para ela compôs emblemáticas canções da bossa nova, como O Barquinho, Nós e o Mar e Vagamente. Chegaram a ficar noivos. Estavam prestes a se casar quando, em uma turnê em Buenos Aires, Bôscoli envolveu-se com Maysa. O rapaz não queria terminar o noivado, mas não esperava o que a amante podia aprontar. Ao chegar ao Brasil, a apaixonada – e ardilosa – cantora convocou a imprensa e anunciou: “Vou me casar com Bôscoli”. Nara, claro, pôs um ponto-final no relacionamento.
Poucos anos depois iniciou um inesperado relacionamento com Elis Regina – já que os dois não se bicavam. Conhecedor da personalidade de Bôscoli, um jornalista escreveu sobre o casamento: “Elis Regina terá o consolo de saber que a guerra do Vietnã é muito pior”. As brigas realmente se assemelhavam a batalhas. Numa delas, a gaúcha jogou todos os discos raros de Frank Sinatra pertencentes ao marido pela janela. Detalhe: Bôscoli afirmava gostar mais de Sinatra do que de mulher.


26 de fevereiro de 2012

Gabriel Cavalcante

O samba ressurgiu de uns 15 anos pra cá, desde que jovens cariocas retomaram o bairro da Lapa com pandeiros, cuícas e violões e alastraram as tradições do gênero musical para todos os cantos do País. Passada a sensação inicial, uma questão ficou difícil de liquidar: como compor samba contemporâneo sem esquecer o passado e, ao mesmo tempo, sem saudosismo à toa. Muita gente tentou e, para mim, poucos conseguiram. Uma dessas exceções é o tijucano Gabriel Cavalcante, 25 anos, também conhecido como Gabriel da Muda, que no início de 2011 lançou o ótimo O Que Vai Ficar Pelo Salão, com participação do violonista Patrick Ângelo e dos compositores Roberto Didio e Renato Martins.

Gabriel também é uma das figuras que comandam o Samba do Ouvidor, roda de samba que ocorre duas vezes por mês nas esquinas das ruas do Mercado e do Ouvidor, no centro do Rio. Toda a história começou em em 2005 quando, com apenas 19 anos, passou a fazer parte do Samba do Trabalhador, comandado por Moacyr Luz.

Eu o conheci pessoalmente há uns 4 anos em Copacabana, durante o carnaval, e tomamos uma cerveja juntos. Mas só o vi tocar no ano passado numa roda em São Paulo. O seu vozeirão e carisma impressionam e ajudam a revigorar o gênero musical mais importante do Brasil.

Resolvi, então, fazer uma entrevista com o músico. Gabriel, que considera-se um “comunista não praticante” e “fã absoluto do Lula”, fala sobre sua relação com o bairro da Tijuca, sua visão sobre como compor samba contemporâneo e cita seus músicos preferidos além-samba. Ele também afirma que vale a pena se manter fiel aos seus princípios musicais: “Faço música pela música. Meu radicalismo é não abrir mão dos meus ideais por tentações comerciais. Quando chego num lugar como Maceió, Florianópolis ou São Luis e percebo que tenho admiradores do meu trabalho, vejo que tudo vale a pena”.

Fale sobre sua relação emocional com a Tijuca. O bairro influencia seu modo de fazer música?
A Tijuca é o meu lugar. Nasci por aqui. Fui criado na rua Uruguai, onde moro até hoje. Aprendi a amar este lugar. Foi andando pela Muda que comecei a ser o bairrista que sou. Por lá, ensaiava o Nem Muda Nem Sai de Cima, bloco fundado por Moacyr Luz, Aldir Blanc e outros boêmios do bairro. Quando pequeno, ia pra lá sozinho, ver o movimento, o samba, e tentar entender um pouco aquele universo. Via naqueles ensaios o amor que as pessoas tinham pela Tijuca, e descobri que era o mesmo que sentia. Me achei ali, na Garibaldi, rua onde bebi minha primeira cerveja. A Tijuca infuencia em tuda na minha vida. Convivi com algumas figuras como os saudosos Basile e Diniz , além de Greg, Queiroz e tantos outros. Só gente da antiga. Cansaram de puxar minha orelha quando viam algo de errado. Depois fui conhecendo pessoas da minha faixa etária que também tinham esse amor, e são essas pessoas que faço questão de conviver diariamente. E foi no Bar do Momo onde sentei pela primeira vez com meu cavaquinho para tocar com os coroas.

Como começou a ser conhecido no samba carioca?
Até então, minha vida no meio do samba se resumia a esses encontros na Tijuca. Depois toquei durante algum tempo num grupo, que se apresentava pelas bandas da Lapa, mas não durei muito tempo. O acontecimento mais importante, que me deu visibilidade e abriu de vez as portas para mim no samba foi o Samba do Trabalhador, do qual faço parte desde a primeira roda, em maio de 2005.

Como foi o processo de criação do Samba do Ouvidor, roda de samba da qual você faz parte hoje?
Aconteceu meio que naturalmente. Sentíamos falta de um lugar para tocarmos os sambas sem a preocupação de agradar o empresário ou não, e nada mais justo do que fazer um movimento desse na rua, de graça, para qualquer um chegar. A rua do Ouvidor é uma rua histórica no Rio, que casou perfeitamente com os sambas que cantamos, históricos, porém pouco lembrados por aí.

Quais figuras foram importantes para a criação do seu primeiro CD? Houve muitos parceiros no projeto?
Em primeiro lugar meus irmãos Roberto Didio e Renato Martins, que conheci em 2007, e desde então não saímos mais separados. Chamei outro querido amigo, Patrick Ângello, violonista de primeira linha que caminhou comigo nas primeiras jornadas musicais profissionais no Rio, antes mesmo do Samba do Trabalhador. E claro, meu fiel Moacyr Luz, incentivador da minha carreira, parceiro de profissão e de vida.

 Há uma dificuldade de fazer samba com temática contemporânea?
Acho que sim. Mas já dizia Noel Rosa de Oliveira: ...O que passou, passou, ficou pra trás
Cantar samba é diferente de produzi-lo. Vejo hoje em dia pessoas fazendo samba falando de coisas que provavelmente nem nossos pais viveram. Com muito respeito a todos, esse tempo já passou. O que tinha que ser feito já foi. Cantar sambas antigos é reverenciar e manter um hábito vivo, porém fazer sambas com temáticas de 60, 70 anos passados é desconhecer e ignorar o presente.

Alguns pontos tradicionais de samba no Rio, como a Lapa, estão passando por um processo de “modernização”, com bares sofisticados e tal. Como isso atinge o samba que é feito por lá?
Atinge muito, e de muitas formas. Em primeiro, o samba não é mais a estrela nem o foco principal. Os empresários estão interessadoa nos seus próprios bolsos. Em segundo, o músico deixou de ter liberdade, pois se canta algo que não agada o empresário, corre o risco de não receber e ser mandado embora do local. Em terceiro, os músicos mais experientes acabam se afastando, e naturalmente e qualidade dos sambas feitos por lá cai.

O estilo musical entrou fortemente na moda no começo dos anos 2000, e agora está menos em evidência. Qual sua impressão sobre esse processo?
Não acho que esteja tanto fora de evidência, mas acho esse declíneo natural. No início todos vão, pois é moda, depois ficam os apreciadores, os sambistas, que mesmo sem tocar um instrumento estão ali, cada um contribuindo do seu jeito.

Você costuma vir para São Paulo. Sob o ponto de vista do samba, o que pensa da cidade?
Gabriel e Moacyr Luz
Não vejo muita diferença pro Rio. O Rio tem essa ligação natural com o samba, porém vejo São Paulo lado a lado em termos de movimentos, rodas em ruas, praças... Fora isso, o profissionalismo do paulista é muito positivo.

Além de samba, o que gosta de escutar?
Ouço muito Nana, Dori e Danilo Caymmi. A obra não sambística dos ídolos Aldir Blanc e Paulo Cesar Pinheiro. Ivor Lancelloti. Gostei muito do último CD do Chico. O da Amelia Rabello está impecável também. Vez ou outra coloco algo cubano para ouvir. Compay, Ibraim, El Inegualabile Bola de Nieve. Piazolla, Michel Legrand e Piafh são lembrados também.

Você se diz um sujeito radical, e que foi esse radicalismo que te levou até onde você está. Explique melhor.
Faço música pela música. Meu radicalismo é não abrir mão dos meus ideais por tentações comerciais. Muitos não entendem, principalmente meu pai e minha mãe (risos), porém quando chego num lugar como Maceió, Florianópolis ou São Luis, e percebo que tenho seguidores e admiradores do meu trabalho, vejo que tudo vale a pena.

Pra fechar: você tem um sambista preferido? E por quê?
É difícil falar num só, mas vou de Candeia, pela postura e por ter rompido barreiras. Candeia foi muito além do sambista e compositor.


24 de fevereiro de 2012

As pataquadas do “branco mais negro do Brasil”

Há poucos anos, Caetano Veloso causou uma certa polêmica ao afirmar que Feitiço da Vila, de Noel Rosa e Vadico, era uma canção racista. Me dou a mesma liberdade do compositor baiano para sugerir que outro grande nome da música brasileira, Vinicius de Moraes, também deixou a desejar algumas vezes sobre o tema racial. Veja: não estou dizendo que Vinicius era racista. Mas, por mais estranho que a afirmação soe inicialmente, me parece ser alguém bastante lugar-comum sobre o tema. E ser lugar-comum na questão por estas terras é ser racista.

A minha “prova” é uma entrevista que o Pasquim fez com Paulinho da Viola em agosto de 1970. Em dado momento, bem no começo da entrevista, o escritor Luiz Carlos Maciel pergunta a Paulinho, lembrando-se de uma entrevista recente com o poeta e compositor Capinam:

Maciel - Na entrevista com Capinam, ele disse que o Gilberto Gil era o primeiro cara que fazia música negra no Brasil. O que é que você acha dessa opinião?

Paulinho - Eu acho que a Clementina de Jesus faz música negra.

Eis que Vinicius intervém. Um dos inventores da bossa nova - estilo conhecido por ser dos brancos da zona sul do Rio de Janeiro - sentencia que falar sobre música negra se trata de “racismo musical”. E que Gilberto Gil teria uma "natureza racista". Já Paulinho tenta contemporizar, mas não deixa de afirmar a importância da valorização da cultura negra. A entrevista se desenrola assim:

Vinicius - O jazz branco é caudatário [simpatizante] da música negra, mas depois se misturou tudo, não há uma separação de música branca e música negra. Isso é racismo musical. O que eu quero dizer é o seguinte: eu acho o Gil um tremendo compositor, mas ele tem esse racismo, então isso se manifesta através da música dele. Eu acho que é um problema da natureza dele.

Paulinho - Você vê alguma conotação de racismo no momento em que se levantam certos problemas de uma estética negra, por exemplo?

Vinicius - Não vejo desde que não seja levantado nos termos dos Panteras Negras americanos, aí é racismo negro mesmo.

Paulinho - Você não acha que esse negócio dos Panteras Negras tem um peso que coloca em segundo plano esse problema do racismo?

Vinicius - Nunca houve um ser mais humilhado que mulher e nem por isso elas são racistas.

Paulinho - Eu acho que aí há um negócio diferente. No momento em que você tenta fazer certas afirmações em termos de uma cultura negra, de certos valores negros, e tenta afirmar isso como valores absolutos, como uma coisa que tem que ser porque não foi, eu acho que é racismo. Mas no momento em que ele tenta afirmar seus valores, o negócio do racismo fica em segundo plano.

Vinicius - Eu acho que quanto mais o negro se aproximar de uma cultura, menos racista ele deve ser. É a cultura que aproxima as pessoas e resolve os problemas. Até agora não tem resolvido nada, mas nossa esperança é que resolva.

Paulinho - Essa afirmação desses valores que você entende como uma posição racista, ela é racista até certo ponto. Dependendo das proposições, das coisas que estão acontecendo, ela até pode ser uma posição válida e importante, ela pode não ser uma posição racista.

Eis que Vinicius encerra a discussão com “chave de ouro”:

Vinicius - Eu acho que o grande problema do racismo se resolve na cama, sabe?

A partir desse ponto a conversa toma outro rumo, sem explicitar o que Vinicius quis dizer com “resolver o racismo na cama”.

Mas as evidências não param por aí. A minha amiga e pesquisadora sobre relações raciais Lia Vainer Schucman recentemente me chamou atenção, indignada, sobre os versos finais de Samba da Bênção, em que o poeta versa sobre o samba: Se hoje ele é branco na poesia / Ele é negro demais no coração. Ou seja, a poesia, a parte intelectual, reclamou Lia, para Vinicius ficava sob responsabilidade dos brancos. Já aos negros cabiam apenas o lado emocional.

Não é pouca gente que conheço que afirma ver no poeta não um exaltador da cultura negra, mas sim um folclorizador. Se essas frases da entrevista viessem da boca de qualquer outro sujeito do Pasquim, seria mais fácil entender. Falar essas coisas eram de certo modo naturais na década de 1970. Mas é difícil aceitar vindo do “branco mais negro do Brasil”.

9 de fevereiro de 2012

O medo de se chamar saudade

Certa noite, Nelson Cavaquinho acordou assustado e suando frio. Havia sonhado que morreria exatamente às três horas daquela madrugada. Olhou para o relógio e os ponteiros marcavam 2h55. Não dormiria mais. Passou a noite toda atrasando os ponteiros, para que não chegasse o horário fatídico. O medo da morte era a característica mais evidente da personalidade do sambista. E marcou uma das obras mais singulares da música brasileira. Morte, envelhecimento, melancolia, religiosidade e desamores foram os temas que tornaram o compositor carioca um dos mais importantes músicos do Brasil.

Ele é o poeta da morte”, define o crítico musical Ricardo Cravo Albin. Mas o compositor também entrou para a história por sua forma única de tocar violão, usando apenas o indicador e o polegar da mão direita para vibrar as cordas do instrumento. O resultado era um som rústico e rascante, tal qual sua voz. As letras – ora feita por ele, ora com parceiros – impressionavam pela profundidade. “O meu grande mestre em samba é o Nelson Cavaquinho. Ele é o maior poeta popular do Brasil”, desmanchava-se Baden Powell.

De soldado a sambista
A trajetória de Nelson Antônio da Silva, nascido em 1911 no bairro da Tijuca, foi marcada pela pobreza. O garoto precisou largar os estudos na terceira série primária para trabalhar. Nas horas vagas, divertia-se ao ver o pai e o tio entoando choros e outros gêneros da época. Para acompanhar os mais velhos, improvisou o seu primeiro instrumento, uma caixa de charutos com alguns arames esticados. Mais tarde, já no meio de boêmios e malandros, passou a tomar gosto pelo cavaquinho. Depois migraria para o violão, mas o apelido que ganhou em suas primeiras rodas de samba o acompanharia a vida toda.
Ao fazer 18 anos, entrou para a Cavalaria da Polícia Militar. Uma das incumbências do jovem soldado era patrulhar o morro da Mangueira. De tanto subir e descer o morro no lombo de um cavalo, tornou-se amigo dos bambas do lugar, como Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda. Até que, por absoluta incompetência para correr atrás de bandidos, pediu baixa da corporação.

Longe das obrigações como policial, passou a compor sem parar. Porém, as dificuldades financeiras o obrigavam a vender seus sambas por qualquer ninharia. Foram muitas as composições negociadas. Até donos de bar e gerentes de hotel entraram para a história da música brasileira em troca de uma cachaça a mais ou de um teto para o compositor dormir.

A vida de Nelson Cavaquinho ganhou outro rumo ao conhecer Guilherme de Brito, no início dos anos 1950. O compositor seria seu mais importante parceiro. Uma parceria de fato. De acordo com o sambista Nelson Sargento, “foi Guilherme que deu uma nova direção para a vida de Nelson, que começou a beber menos e a compor mais”.

Tire o seu sorriso do caminho
Nelson e Guilherme era uma dupla de compositores de amargo lirismo, voltada para as pequenas tragédias do cotidiano e para o caráter efêmero da vida”, escreveu André Diniz, autor do livro Almanaque do Samba. O tema da morte era caro a ambos. “Eu falo tanto de morte que é para ela ficar longe de mim”, justificava-se Nelson. Os clássicos surgiam um atrás do outro: Folhas Secas, Quando Eu Me Chamar Saudade, Pranto de Poeta, Tatuagem e uma porção de outras. Para o poeta Manuel Bandeira, o verso inicial de A Flor e o Espinho mereceria figurar em qualquer antologia de grandes momentos da poesia brasileira: Tire o seu sorriso do caminho / Que eu quero passar com a minha dor.

Mesmo com sambas de alta qualidade, só na década de 1960 Nelson passou a ser conhecido no Rio de Janeiro. Foi quando começou a se apresentar no Zicartola, bar de Cartola e dona Zica, e chamou a atenção de novos artistas. Nara Leão gravou Pranto de Poeta; Elizeth Cardoso, Vou Partir.
Nelson passou a ser convidado constantemente para apresentações. A novidade não o empolgava muito. Certa vez, o convocaram para participar de um programa de tevê. Como estava sem muita vontade, recusou. O produtor disse que o cachê era bom, e ouviu como resposta: “Não tem por que me apresentar. Dinheiro não rima com nada”.

Foi só beirando os 60 anos que gravou o primeiro disco: Depoimento de Poeta. Depois lançaria mais dois. Em 1984, foi homenageado com o disco Flores em Vida, em que grandes artistas tratavam de reverenciá-lo. Teve dois anos para desfrutar as tais flores em vida. Na madrugada de 18 de fevereiro de 1986, encontrou-se com o momento que tanto temeu. Apesar do medo da morte, partiu com uma aparência serena. Deixou um repertório de mais de 600 canções e um vazio na música brasileira. Um artista que nunca se rendeu a temas fáceis para alcançar o sucesso. “Faço músicas só para tirar as coisas de dentro do coração. É assim desde o dia em que fiz o meu primeiro samba.”

10 de janeiro de 2012

Nássara, um carioca autêntico

O rapaz nascido na zona norte do Rio de Janeiro tornou-se um dos maiores caricaturistas da história do País. Não se limitou à atividade. Também compôs mais de 200 canções, boa parte marchinhas cantadas até hoje. Entre os parceiros, gente da pesada, como Noel Rosa, Wilson Baptista e Ari Barroso. Transpirando carioquice, Nássara nunca abriu mão de viver na boêmia, entre intelectuais, artistas e vagabundos.

Fim da década de 1960. A cidade do Rio de Janeiro estava em processo de rápida transformação. Prédios altos surgiam na orla das praias, edifícios antigos do centro eram demolidos, a violência urbana começava a sair do controle. Antônio Gabriel Nássara, então com quase 60 anos, via as mudanças sem muita preocupação, mesmo sendo testemunha dos momentos áureos da Cidade Maravilhosa. “O autêntico carioca é aquele que depois de ter sofrido na carne todos os pesadelos que desabaram sobre o Rio moderno, ainda encontra em si amor e ternura pela cidade”, disse em entrevista ao jornalista Joel Silveira.

Nássara havia passado as últimas décadas praticando com louvor as principais características cariocas: o papo-furado em botecos, o bom humor, o otimismo diante das dificuldades, os sambas compostos sob o ritmo de caixinhas de fósforo. Só temia pelo fim da espécie: “O bom carioca é uma raça em processo de extinção. Acabará quando acabar gente como eu. Ou como o Bororó, a Aracy de Almeida, o Marques Rebelo e o Di Cavalcanti”.

Nascido em São Cristóvão e criado em Vila Isabel, ambos bairros tradicionais da zona norte, Nássara produziu, entre um chope e outro, um importante legado artístico. Compôs exatas 235 músicas, todas com parceiros da pesada, como Noel Rosa, Wilson Baptista, Lamartine Babo, Mário Lago, Ari Barroso. Mas celebrizou-se mesmo por suas ilustrações, publicadas nos mais importantes jornais e revistas do Rio. Seus traços fortes, porém minimalistas, registraram os personagens da cidade: políticos, escritores, sambistas, gente do povo. Não era preciso olhar duas vezes para seus desenhos para identificar o homenageado – ou a vítima. “Ele capturava, com linhas fortes, a alma frágil de quem estivesse desenhando”, define o jornalista Ruy Castro.

Primeiro jingle da história
Nássara sempre gostou de desenhar. Aos 17 anos, passou a trabalhar como ilustrador do jornal O Globo. Logo depois entraria na Escola de Belas Artes, curso que abandonaria no quarto ano. Já não dava conta das ilustrações que tinha de entregar, a essa altura em vários outros veículos.
Além dos desenhos, também tornou-se locutor do Programa do Casé, o mais importante programa de música da rádio carioca. Já começou inovando ao criar o primeiro jingle da história do rádio brasileiro: Ó padeiro desta rua / Tenha sempre na lembrança / Não me traga outro pão / Que não seja o pão Bragança.

Para anunciar um laxante e não chocar a “tradicional família carioca” – e nem a censura, que encrencava com anúncios dessa natureza –, saiu-se com a historinha: “Um casal de noivos brigou. Ele, arrependido, resolveu fazer as pazes, mas a moça estava irredutível. Conversou com a futura sogra, que o aconselhou que presenteasse a filha com algo de valor. Comprou-lhe, então, uma joia caríssima. E não fez efeito. Deu-lhe um casaco de peles. Mas não fez efeito. Então, lembrou de dar a ela um vidro de Manon Purgativo... Ahhh! Fez efeito! Manon Purgativo, à venda em todas as farmácias e drogarias.”

Alalaô
A composição musical começou a tomar papel importante na vida de Nássara a partir de 1932, ao emplacar nas rádios a música Formosa, em parceria com J. Rui. Outras grandes canções surgiriam nas décadas seguintes, principalmente marchinhas. A que causou mais comoção foi a marchinha Alalaô, composta em parceria com Haroldo Lobo, que contou com uma genial orquestração de Pixinguinha. Os versos Alalaô / Mas que calor / Atravessando o deserto do Saara... foram o maior estouro do carnaval de 1941. E de todos que viriam pela frente.

Outros sucessos surgiriam: Retiro da Saudade (com Noel Rosa), Mundo de Zinco (com Wilson Baptista), Quem Não Chora Não Mama (com Roberto Martins). Apesar disso, sugeria que tratava a música como um hobby. “Eu não me considero compositor. Eu fiz música, é diferente. Não tenho nem um décimo da força de Noel Rosa”, afirmava, modestamente.

Aos poucos, foi se afastando das músicas e das ilustrações. Mas nunca dos bares e da boêmia. Havia quem disputasse a cadeira mais perto de Nássara para ouvir suas histórias, sempre surpreendentes. “Ele tem um bom humor contagiante, boa educação inata, o irresistível amor pela noite. Tem também o bate-papo colorido no qual as palavras, arrumadas com maestria e propriedade, jamais repetem as mesmas histórias”, exaltou Joel Silveira.

Inventor do Rio
A carreira de Nássara ganharia novo fôlego em 1976, ao ser convidado para fazer parte da equipe de O Pasquim. Era o lugar ideal para seus traços – num tempo em que a imprensa começava a se tornar mais carrancuda, com menos espaço para experimentalismos. Se antes retratava Noel Rosa, Getúlio Vargas, Mário Lago, agora punha no papel Martinho da Vila, Pelé, Paulinho da Viola.

A partir dos anos 1980, passou a trabalhar menos, até por uma gradativa perda de audição. Mas não perdia o bom humor. “Em Nássara nunca dará cupim”, profetizou Ari Barroso décadas antes.

Em 1996, aos 85 anos, ainda ilustrou o delicado livro infantil Moça Perfumosa, Rapaz Pimpão, de Daniela Chindler. Mas não viu o resultado. Morreu em casa, em 11 de dezembro de 1996, vítima de enfarte. “A gente é que nem lâmpada. Um dia apaga”, disse a amigos, poucos meses antes da morte.

Dos tais bons cariocas em extinção a que um dia se referiu, foi o último a se despedir da Cidade Maravilhosa. Mas já havia deixado uma herança. “De uma certa maneira, o Rio é uma invenção de Nássara, Orestes Barbosa e Noel Rosa. Inventores também do papo-furado, foram se distraindo e a cidade cresceu em volta deles”, escreveu Millôr Fernandes.

Assista ao delicioso Ensaio com Nássara, de 1975.