10 de janeiro de 2012

Nássara, um carioca autêntico

O rapaz nascido na zona norte do Rio de Janeiro tornou-se um dos maiores caricaturistas da história do País. Não se limitou à atividade. Também compôs mais de 200 canções, boa parte marchinhas cantadas até hoje. Entre os parceiros, gente da pesada, como Noel Rosa, Wilson Baptista e Ari Barroso. Transpirando carioquice, Nássara nunca abriu mão de viver na boêmia, entre intelectuais, artistas e vagabundos.

Fim da década de 1960. A cidade do Rio de Janeiro estava em processo de rápida transformação. Prédios altos surgiam na orla das praias, edifícios antigos do centro eram demolidos, a violência urbana começava a sair do controle. Antônio Gabriel Nássara, então com quase 60 anos, via as mudanças sem muita preocupação, mesmo sendo testemunha dos momentos áureos da Cidade Maravilhosa. “O autêntico carioca é aquele que depois de ter sofrido na carne todos os pesadelos que desabaram sobre o Rio moderno, ainda encontra em si amor e ternura pela cidade”, disse em entrevista ao jornalista Joel Silveira.

Nássara havia passado as últimas décadas praticando com louvor as principais características cariocas: o papo-furado em botecos, o bom humor, o otimismo diante das dificuldades, os sambas compostos sob o ritmo de caixinhas de fósforo. Só temia pelo fim da espécie: “O bom carioca é uma raça em processo de extinção. Acabará quando acabar gente como eu. Ou como o Bororó, a Aracy de Almeida, o Marques Rebelo e o Di Cavalcanti”.

Nascido em São Cristóvão e criado em Vila Isabel, ambos bairros tradicionais da zona norte, Nássara produziu, entre um chope e outro, um importante legado artístico. Compôs exatas 235 músicas, todas com parceiros da pesada, como Noel Rosa, Wilson Baptista, Lamartine Babo, Mário Lago, Ari Barroso. Mas celebrizou-se mesmo por suas ilustrações, publicadas nos mais importantes jornais e revistas do Rio. Seus traços fortes, porém minimalistas, registraram os personagens da cidade: políticos, escritores, sambistas, gente do povo. Não era preciso olhar duas vezes para seus desenhos para identificar o homenageado – ou a vítima. “Ele capturava, com linhas fortes, a alma frágil de quem estivesse desenhando”, define o jornalista Ruy Castro.

Primeiro jingle da história
Nássara sempre gostou de desenhar. Aos 17 anos, passou a trabalhar como ilustrador do jornal O Globo. Logo depois entraria na Escola de Belas Artes, curso que abandonaria no quarto ano. Já não dava conta das ilustrações que tinha de entregar, a essa altura em vários outros veículos.
Além dos desenhos, também tornou-se locutor do Programa do Casé, o mais importante programa de música da rádio carioca. Já começou inovando ao criar o primeiro jingle da história do rádio brasileiro: Ó padeiro desta rua / Tenha sempre na lembrança / Não me traga outro pão / Que não seja o pão Bragança.

Para anunciar um laxante e não chocar a “tradicional família carioca” – e nem a censura, que encrencava com anúncios dessa natureza –, saiu-se com a historinha: “Um casal de noivos brigou. Ele, arrependido, resolveu fazer as pazes, mas a moça estava irredutível. Conversou com a futura sogra, que o aconselhou que presenteasse a filha com algo de valor. Comprou-lhe, então, uma joia caríssima. E não fez efeito. Deu-lhe um casaco de peles. Mas não fez efeito. Então, lembrou de dar a ela um vidro de Manon Purgativo... Ahhh! Fez efeito! Manon Purgativo, à venda em todas as farmácias e drogarias.”

Alalaô
A composição musical começou a tomar papel importante na vida de Nássara a partir de 1932, ao emplacar nas rádios a música Formosa, em parceria com J. Rui. Outras grandes canções surgiriam nas décadas seguintes, principalmente marchinhas. A que causou mais comoção foi a marchinha Alalaô, composta em parceria com Haroldo Lobo, que contou com uma genial orquestração de Pixinguinha. Os versos Alalaô / Mas que calor / Atravessando o deserto do Saara... foram o maior estouro do carnaval de 1941. E de todos que viriam pela frente.

Outros sucessos surgiriam: Retiro da Saudade (com Noel Rosa), Mundo de Zinco (com Wilson Baptista), Quem Não Chora Não Mama (com Roberto Martins). Apesar disso, sugeria que tratava a música como um hobby. “Eu não me considero compositor. Eu fiz música, é diferente. Não tenho nem um décimo da força de Noel Rosa”, afirmava, modestamente.

Aos poucos, foi se afastando das músicas e das ilustrações. Mas nunca dos bares e da boêmia. Havia quem disputasse a cadeira mais perto de Nássara para ouvir suas histórias, sempre surpreendentes. “Ele tem um bom humor contagiante, boa educação inata, o irresistível amor pela noite. Tem também o bate-papo colorido no qual as palavras, arrumadas com maestria e propriedade, jamais repetem as mesmas histórias”, exaltou Joel Silveira.

Inventor do Rio
A carreira de Nássara ganharia novo fôlego em 1976, ao ser convidado para fazer parte da equipe de O Pasquim. Era o lugar ideal para seus traços – num tempo em que a imprensa começava a se tornar mais carrancuda, com menos espaço para experimentalismos. Se antes retratava Noel Rosa, Getúlio Vargas, Mário Lago, agora punha no papel Martinho da Vila, Pelé, Paulinho da Viola.

A partir dos anos 1980, passou a trabalhar menos, até por uma gradativa perda de audição. Mas não perdia o bom humor. “Em Nássara nunca dará cupim”, profetizou Ari Barroso décadas antes.

Em 1996, aos 85 anos, ainda ilustrou o delicado livro infantil Moça Perfumosa, Rapaz Pimpão, de Daniela Chindler. Mas não viu o resultado. Morreu em casa, em 11 de dezembro de 1996, vítima de enfarte. “A gente é que nem lâmpada. Um dia apaga”, disse a amigos, poucos meses antes da morte.

Dos tais bons cariocas em extinção a que um dia se referiu, foi o último a se despedir da Cidade Maravilhosa. Mas já havia deixado uma herança. “De uma certa maneira, o Rio é uma invenção de Nássara, Orestes Barbosa e Noel Rosa. Inventores também do papo-furado, foram se distraindo e a cidade cresceu em volta deles”, escreveu Millôr Fernandes.

Assista ao delicioso Ensaio com Nássara, de 1975.

24 de dezembro de 2011

"Felicidade é brinquedo que não tem"

No fim dos anos 1920, o baiano Assis Valente decidiu mudar-se para o Rio. Talentoso e vaidoso, na cidade encontrou o que sempre quis: reconhecimento público, após compor alguns sambas entoados pelas cantoras mais importantes da cidade. Só que trazia em si um sentimento de solidão sem fim. E sentiu esta desesperança mais intensamente na noite de Natal de 1932. Sozinho no quarto, longe da família, viu uma imagem de uma menina com os sapatinhos sobre a cama, esperando o presente de Papai Noel. Foi o suficiente para nascer uma das músicas mais amarguradas de seu repertório - e inaugurar o gênero natalino na música brasileira. “Boas Festas é o melhor dos meus sambas”, diria anos mais tarde.

20 de dezembro de 2011

Apesar deles, o Brasil cantou

O verão no Rio estava quentíssimo. Mas, estranhamente, a previsão do tempo do Jornal do Brasil do dia 14 de dezembro de 1968 indicava: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos”.

O Ato Institucional nº 5 havia entrado em vigor no dia anterior, o que, na prática, fechava o Congresso, cassava mandatos políticos e suspendia garantias constitucionais. Começava a se desenhar a faceta mais perversa e totalitária do regime militar. Quase que instantaneamente os órgãos de imprensa foram invadidos por censores. Vários jornais, que até então se sentiam com alguma liberdade para noticiar, tiveram as edições recolhidas.

Não raro, os editores eram levados de camburão. Políticos, artistas e estudantes eram presos ou fugiam para o exílio. O regime, definitivamente, havia endurecido. Sem sombra de ternura.

Nas reuniões governamentais que decidiram pela medida, a voz corrente era que, se tivessem que implantar uma ditadura de fato para conter a “contra-revolução”, que assim se fizesse. O presidente Costa e Silva finalizou: “Eu confesso que é com verdadeira violência aos meus princípios e ideias que adoto uma medida como esta”.

O militar acreditava que o AI-5 duraria “de oito a nove meses”. Durou dez anos. Tempo suficiente para censurar 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 letras de música e o mesmo número de livros. Mesmo com a proibição, porém, houve canções que entraram definitivamente no gosto popular e outras que escaparam dos olhos pouco inteligentes dos censores. Só mais tarde descobririam que calar melodias seria a mais inútil das missões. E o País cantou.


Chico Buarque prometia que, apesar deles, amanhã seria outro dia.



Paulo César Pinheiro, em parceria com Maurício Tapajós, desafiava: Você me corta um verso / Eu escrevo outro.


Belchior e Toquinho foram acusados de exaltar a França em detrimento ao Brasil.


Odair José desagradou o moral vigente.


As famílias cearenses consideraram Genival Lacerda indecente.


E quando a situação começou a melhorar, João Bosco e Aldir Blanc lembraram o quão choraram Marias e Clarices.

30 de novembro de 2011

Insatisfacão de Ari Barroso valia ingresso


Ari Barroso foi locutor esportivo no início dos anos 1930, mas para ele imparcialidade era conversa pra boi dormir. Ari não tinha pudor algum de mostrar sua preferência pelo Flamengo. Se houvesse uma falta perigosa contra o time da Gávea, soltava ao microfone: “Falta perigosíssima contra o Flamengo! Não vou olhar!”. Mas se o gol era de sua equipe do coração, tocava alegremente uma gaitinha, para a irritação dos torcedores adversários.
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Certa vez, anos mais tarde, o Flamengo ia tomando uma acachapante goleada de 6 a 0 do Bangu, no Maracanã. Faltava pouco para a acabar a partida quando um cidadão quis comprar uma entrada para o jogo. O rapaz do guichê explicou que a partida estava no fim. "Eu sei", respondeu". "Só quero ver a cara do Ari Barroso".

23 de novembro de 2011

Café paulista, leite mineiro

A República Velha se caracterizou pela Política do Café com Leite. Conchavos políticos garantiam que os ricos cafeicultores paulistas e os poderosos produtores de leite de Minas Gerais se revezassem no posto de presidente da República. Com apenas duas exceções – o gaúcho Hermes da Fonseca e o paraibano Epitácio Pessoa –, foi o que aconteceu de 1898 a 1930.

Em 1926, ao compor Café com Leite, Freire Júnior usou a culinária para explicar a prática. A letra dizia que o “mestre cuca” – ou seja, o presidente do momento – convocava os “cozinheiros”, que seriam os representantes dos estados, para fazer uma “boia bem escolhida”.

O resultado era sempre o mesmo: Café paulista / Leite mineiro / Nacionalista / Bem brasileiro.

Eis a letra:
Freire Júnior

Nosso Mestre Cuca movimentou
O Brasil inteiro,
Cada um estado pra cá mandou
O seu cozinheiro.
Mexeu-se a panela, fez-se a comida
Com perfeição.
Assim foi a bóia, bem escolhida
Com precaução

Café paulista,
Leite mineiro,
Nacionalista
Bem brasileiro.

Preto com branco,
Café com leite,
Cor democrata.
É preto com branco,
Meu bem, aceite.
Cor da mulata.
O leite é bem grosso, café é forte
Aguenta a mão.
As novas comidas têm que dar sorte
Na situação

Café paulista
Leite mineiro
Nacionalista
Bem brasileiro.

9 de novembro de 2011

"Teu mal é comentar o passado..."

Um amor conturbado e sambas inesquecíveis. Dalva de Oliveira e Herivelto Martins eram casados, mas viviam em pé de guerra. Quando se separaram oficialmente, em 1949, as discussões passaram a ser públicas. Herivelto ia a jornais acusar Dalva de promover orgias em casa, enquanto a mulher dizia o quanto Herivelto a fazia infeliz. A coisa ficou quente mesmo quando a peleja se tornou músicas. E que músicas.

A briga pública começou quando Dalva cantou Errei, Sim, encomendada a Ataulfo Alves especialmente para provocar o ex-marido: Errei, sim / Manchei teu nome / Mas foste tu o culpado / Deixava-me em casa / Me trocando pela orgia / Faltando sempre / Com a tua companhia.


Em resposta, Herivelto compôs Cabelos Brancos: Não falem desta mulher perto de mim (…) Por ela vivo aos trancos e barrancos / Respeitem ao menos os meus cabelos brancos. A provocação mútua não pararia, para deleite dos ouvintes-fãs-fofoqueiros.

Ainda foram criadas, para Dalva cantar, Fim de Comédia, de Ataulfo Alves, e Que Será, de Rossini Pinto. Herivelto respondeu com mais dois sambas: Caminhemos (para mim, a mais bonita de todas) e Segredo. Ironicamente, neste último, exige mais discrição por parte da ex-amada: Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois

20 de outubro de 2011

A tal da "casa muito engraçada" existe mesmo

Era uma casa muito engraçada / Não tinha teto, não tinha nada. Os versos de Vinicius de Moraes musicados por Toquinho para o disco infantil A Arca de Noé, de 1980, são conhecidos por todos. Mas pouca gente sabe como era o fim original de A Casa, não gravado em disco: Mas era feita com pororó / Era a casa de Vilaró.

Vilaró é o artista uruguaio Carlos Páez Vilaró. E a “casa muito engraçada”, a Casapueblo, sua mais suntuosa obra. Em 1958, o artista plástico, cineasta e escritor – ou, como ele se define, “um fazedor de coisas” – construiu uma pequena casa de lata em Punta Ballena, no litoral uruguaio, pertinho de Punta del Este. Aos poucos, foi erguendo novas estruturas e cômodos, sempre em linhas arredondadas. Depois pintou tudo de branco, “para interagir com o azul do céu”, disse.

Vinicius, que por um tempo foi embaixador do Brasil no Uruguai, era amigo de Vilaró e presença constante na Casapueblo. Uma manhã, para agradar as filhas do artista, começou a improvisar a trova infantil: Era uma casa muito engraçada... Gostou do resultado e, mais tarde, com algumas aparafusadas, saiu a poesia. E a música.

Até hoje a casa continua a ser construída. Vilaró mora na parte mais alta da edificação, que também funciona como hotel e restaurante. Todos os mais de 70 quartos são batizados com os nomes de seus primeiros hóspedes: Pelé, Alain Delon, Brigitte Bardot, Robert de Niro. Além do quarto Vinicius de Moraes, é claro.



18 de outubro de 2011

“Bota o retrato do velho”

Em 1950, não houve canto do Brasil que não tivesse ouvido a marchinha cantada magistralmente por Francisco Alves: Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar / O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar.

A música referia-se a uma prática comum quando Getúlio era presidente, durante o Estado Novo, que era cada repartição pública ter uma foto do mandatário na parede. Ele buscava voltar ao poder em 1950, agora por meios democráticos, e a canção de Haroldo Lobo e Marino Pinto foi usada como uma espécie de jingle político. Deu certo, e o gaúcho bateu o adversário Eduardo Gomes.

Apesar do sucesso, Getúlio ouvia a canção a contra-gosto. É que ele detestava ser chamado de velho.

12 de setembro de 2011

Noel compôs baixaria para taxista-cantor

Noel Rosa por Elifas Andreato
O sambista Noel Rosa costumava varar noites e noites em rodas boêmias no centro do Rio. No comecinho dos anos 1930, conheceu por lá um taxista (ou chofer, como se dizia à época) chamado Malhado, que também era metido a músico. Malhado gostava de cantar no estilo operístico, com letras rebuscadas, quase parnasianas, que muitas vezes não sabia o que queriam dizer.

Depois de muitas viagens com Malhado, tendo que suportar seus dós de peito, Noel resolveu pregar uma peça no chofer. Escreveu uma música para que Malhado pudesse mostrar seus dotes a duas moças lindas, filhas de um coronel de Vila Isabel. No dia marcado, e depois de algum ensaio, os dois se encontraram para a serenata. Noel disse que tocaria violão do outro lado da rua, para dar o destaque que a voz de Malhado merecia. Ao som das primeiras dedilhadas, Malhado soltou a voz, lendo num papel a letra escrita pelo companheiro: 
Saí da tua alcova com o prepúcio dolorido / Deixando seu clitóris gotejante / De volúpia emurchecido / Porém, o gonococos da paixão / Aumentou minha tensão...

O coronel, claro, não gostou nada da letra pornográfica dedicada a suas filhas. Surgiu na janela já de arma em punho. Malhado correu em disparada. Depois de algumas quadras, encontrou o Poeta da Vila. Esbaforido e assustadíssimo, exclamou: “Não entendi nada, o coronel saiu atirando”. E Noel, sem perder a pose: “Isso é pra você ver o que é a falta de sensibilidade dessa gente...”.

8 de setembro de 2011

Abaixo a guitarra elétrica


Quando Caetano Veloso e Gilberto Gil ouviram pela primeira vez o disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, do Beatles, em 1967, ficaram estupefatos. Perceberam definitivamente que o rock era mais que mero iê-iê-iê. Que poderia ser uma música mais profunda. A dupla tratou de pôr guitarras elétricas nos arranjos de suas novas composições.
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Mas esse não era o sentimento de parte dos músicos brasileiros, que via na guitarra o símbolo da dominação cultural norte-americana. Chegou-se a organizar marchas contra a guitarra elétrica e pela valorização da tradicional música brasileira. Na foto, Jair Rodrigues, Elis Regina, Gilberto Gil e Edu Lobo encabeçam uma dessas marchas - Magro, do MPB4, é o de barba logo atrás.
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Gilberto Gil? Pois é. O baiano – que poucos depois subiria aos palcos do Festival da Record de 1967 ao lado dos Mutantes para defender Domingo no Parque – não soube dizer não a Elis Regina. Da janela de um prédio, Caetano Veloso e Nara Leão assistiam a tudo. Caetano disse: “Acho isso muito esquisito”. Nara respondeu: “Esquisito? Isso aí é um horror! Parece manifestação do Partido Integralista. É fascismo mesmo”.

10 de agosto de 2011

Um amor em 140 caracteres

Um amor evitável, mas irresistível. É assim que soa Tipo Um Baião, a melhor música (ao lado de Sinhá) do novo disco de Chico Buarque. Não tenho pretensão de destrinchar os critérios técnicos do baião-canção. Só dar pitacos sobre os aspectos emocionais. Que é o que importa.

Sabe as músicas que na primeira audição soam familiares, como se você já as conhecessem? Tipo Um Baião é um desses casos raros. A melodia, arranjo e harmonia já nasceram clássicos. Tudo isso com uma letra cheia de signos.

A música é uma confissão do amor entre um sujeito mais velho e uma menina cheia de vitalidade que surge quando não há muitos motivos para mais uma “história de amor a essa hora”. É mais provável que seja inspirado em Thais Gulin, a namorada 36 anos mais jovem do compositor. Mas, se não for, pouco importa.

Para começar, acho graça quando Chico arrisca falar as “gírias da juventude”. Ele já havia feito isso no último disco, ao dizer em Leve: Sei que seu caminho será tudo de bom / Mas não me leve. Agora, manda o tal Tipo me adora mesmo assim, meio mané, por fora. E lamenta-se que a moça só surgiu somente agora, ora para “enfeitar" a sua vida ora para “embaralhar” os seus dias.

Só quem amou entende o drama de ver o vulto da amada sumir entre mil abadás na ladeira num dia de carnaval. Só quem amou sabe como é irresistível estar ao lado de alguém que faz pouco caso das coisas que para você são importantes. A tal da moça, afinal, ignora o baião. Só quem amou acredita mais uma vez que desta vez será uma festa sem fim.

Mas o êxtase da canção é quando surge uma das melhores analogias da história da música brasileira sobre as emoções de amar. Comparar o sentimento com o movimento do acordeão é monumental: Meu coração / Que você sem pensar / Ora brinca de inflar / Ora esmaga / Igual que nem / Fole de acordeão / Tipo assim num baião / Do Gonzaga. É um tratado sobre o amor em exatos 140 caracteres. O Chico, tipo sem querer, mostrou-se antenado com as novidades dos tempos modernos. Assim como goleiro bom tem de ter sorte, gênios também produzem genialidade sem querer.

23 de julho de 2011

Amy Winehouse e Noel Rosa

Morreu hoje a cantora Amy Winehouse em Londres. Ela tinha apenas 27 anos e, pelo que se especula, morreu em virtude dos anos de uso exagerado de drogas e bebidas.

Pela idade, pelo talento e pela existência sem muitas regras, lembrou-se da vida e morte de Noel Rosa. Ele morreu em 1937, poucos meses antes de completar 27 anos.  O Filósofo do Samba era dado a viver sob o sereno e consumir doses imensuráveis de bebidas e cigarros (chegava a fumar três maços por dia). Certa vez, já muito doente, pediu uma cerveja num boteco. Alguém o reprimiu: "Noel, você está muito mal, não pode tomar gelado". "Tem razão", retrucou Noel. E disparou: "Garçom, me traga uma cerveja quente". Essa receita suicida, segundo o escritor Ruy Castro, “levou-o à tuberculose e à morte aos 26 anos. Levou-o também a ser Noel Rosa”. O mesmo cabe para Amy.

Há mais coincidências. A saúde de Noel também nunca foi lá essas coisas e, como se alimentava mal (tinha vergonha de comer em público devido a seu defeito no queixo), era magérrimo. E assim como Amy, Noel também fez suas melhores músicas para o grande e mais conturbado amor de sua vida, a dançarina de cabaré Ceci. Destaque para Último Desejo, uma comovente despedida sem retrato, sem bilhete, sem luar sem violão à amada.

Os puritanos do samba podem achar um sacrilégio a comparação. Mas as coincidências são irrefutáveis. Em homenagem, segue o samba que Noel escreveu sobre sua própria morte. Afinal, acredito que Amy também preteria choro e velha em seu velório. Iria preferir uma fita amarela gravada com o nome dele.

12 de julho de 2011

A língua brasileira segundo Noel Rosa

Recentemente, houve polêmica alardeada pela imprensa por causa da decisão do MEC de aprovar livros com “erros de português”. Na verdade, não havia erro algum. As publicações destacavam a importância do português padrão, mas diziam também que não é inapropriado falar com naturalidade, comendo algumas letras, plurais etc. Que a comunicação espontânea é mais importante que correr para um dicionário antes de abrir a boca.

É o que todos fazemos diariamente. Um exemplo é “pra” em vez de “para”. Ninguém acredita ser incorreto. Agora, se o sujeito falar “arvre” no lugar de “árvore”, é considerado um semianalfabeto. Mas o fenômeno é exatamente o mesmo: o sumiço de uma vogal no meio da palavra. Mas por burrice ou má-fé, a imprensa nacional prefere manter o idioma como um símbolo perverso de exclusão social.

No campo cultural, muito se falou sobre isso. Oswald de Andrade defende em Pronominais:

Dê-me um cigarro
Diz a gramática

Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um
cigarro


Já Manuel Bandeira sentencia na comovente Evocação do Recife:

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada


Em Macunaíma, o personagem criado por Mário de Andrade ironiza os paulistanos:


Ora sabereis que sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra.

Mas o maior defensor da língua brasileira – provavelmente sem essa pretensão – foi Noel Rosa. Em várias músicas o Filósofo do Samba mostra seu desdém em “macaquear a sintaxe lusíada”. Noel abusava de gírias e coloquialismos. E às vezes ia direto ao ponto.

É o caso do samba Mulata Fuzarqueira. Em dado momento, a letra diz: “"Meu amô não tem R / mas é amô debaixo d'água". Isso é bonito demais. E é sintético demais. Resumia como só Noel sabia resumir suas ideias tão espertas.

Mas o maior exemplo é Não Tem Tradução. Se um dia a língua portuguesa do Brasil se tornar oficialmente a língua brasileira, o hino ao idioma mãe terá de ser esse samba.

Há gente importante que concorda comigo. Um deles é Orestes Barbosa, contemporâneo de Noel e ardoroso defensor do jeito brasileiro de falar. Ao ouvir pela primeira vez o verso É brasileiro, já passou de português, exclamou, espantado: “Esse sem-queixo é demais. Um gênio! A gente aqui escrevendo, escrevendo, e ele resume tudo em meia dúzia de palavras. Exatamente meia dúzia!” E completou, emocionado: “Eu trocaria toda a minha obra por um só verso deste samba”.

Seguem as canções, cantadas em bom brasileiro.


14 de junho de 2011

Bob Marley não fez show, mas marcou gol

Em março de 1980, convidado por sua gravadora, Bob Marley desembarcou no Brasil. Logo na chegada, teve problemas com a polícia federal, que não lhe concedeu o visto de trabalho, acabando com as chances de qualquer apresentação em palcos brasileiros. O rei do reggae se hospedou no Copacabana Palace, assistiu a um show de Moraes Moreira e visitou a Rocinha, que achou muito parecida com os guetos de Kingston. 


Um dos momentos mais divertidos foi um jogo de futebol no campo de Chico Buarque. Como se vê na foto, o time do jamaicano contava, entre outros, com Chico, Toquinho e o jogador vascaíno Paulo César Caju. A turma venceu a equipe de Alceu Valença por 3 a 0. E Bob Marley tratou de guardar o seu.



1 de junho de 2011

Música e poema de Tom Jobim não conquistaram Helô Pinheiro

Helô Pinheiro em Ipanema. Tom, de olho, não aparece nas fotos
Garota de Ipanema estava recém-composta e Tom Jobim continuava encantado com a moça cujo balançado era mais que um poema. O maestro estava apaixonado pra valer por Helô Pinheiro, a musa inspiradora de um dos maiores sucessos da música mundial. Mas a menina de 20 anos – filha de militar e 16 anos mais jovem que Tom – não dava mole. Ainda mais porque o pretendente era casado. 

O músico chegou a se declarar, mas o máximo que conseguiu foi arrancar-lhe um breve beijo. Tom apelou até para um convite-poema com o intuito de que se encontrassem novamente: Oh, minha eterna Heloísa / Sou teu constante Abelardo / Tu és a musa perfeita / E eu teu constante bardo / Venha depressa Heloisinha / Quem te chama é o Tom Jobim / Te espero na mesma esquina / Já comprei o amendoim.

Helô não apareceu ao encontro. E, um ano depois, para desalento de Tom, convidou-o para ser padrinho de seu casamento com um empresário que não entrou para a história.