24 de dezembro de 2011

"Felicidade é brinquedo que não tem"

No fim dos anos 1920, o baiano Assis Valente decidiu mudar-se para o Rio. Talentoso e vaidoso, na cidade encontrou o que sempre quis: reconhecimento público, após compor alguns sambas entoados pelas cantoras mais importantes da cidade. Só que trazia em si um sentimento de solidão sem fim. E sentiu esta desesperança mais intensamente na noite de Natal de 1932. Sozinho no quarto, longe da família, viu uma imagem de uma menina com os sapatinhos sobre a cama, esperando o presente de Papai Noel. Foi o suficiente para nascer uma das músicas mais amarguradas de seu repertório - e inaugurar o gênero natalino na música brasileira. “Boas Festas é o melhor dos meus sambas”, diria anos mais tarde.

20 de dezembro de 2011

Apesar deles, o Brasil cantou

O verão no Rio estava quentíssimo. Mas, estranhamente, a previsão do tempo do Jornal do Brasil do dia 14 de dezembro de 1968 indicava: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos”.

O Ato Institucional nº 5 havia entrado em vigor no dia anterior, o que, na prática, fechava o Congresso, cassava mandatos políticos e suspendia garantias constitucionais. Começava a se desenhar a faceta mais perversa e totalitária do regime militar. Quase que instantaneamente os órgãos de imprensa foram invadidos por censores. Vários jornais, que até então se sentiam com alguma liberdade para noticiar, tiveram as edições recolhidas.

Não raro, os editores eram levados de camburão. Políticos, artistas e estudantes eram presos ou fugiam para o exílio. O regime, definitivamente, havia endurecido. Sem sombra de ternura.

Nas reuniões governamentais que decidiram pela medida, a voz corrente era que, se tivessem que implantar uma ditadura de fato para conter a “contra-revolução”, que assim se fizesse. O presidente Costa e Silva finalizou: “Eu confesso que é com verdadeira violência aos meus princípios e ideias que adoto uma medida como esta”.

O militar acreditava que o AI-5 duraria “de oito a nove meses”. Durou dez anos. Tempo suficiente para censurar 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 letras de música e o mesmo número de livros. Mesmo com a proibição, porém, houve canções que entraram definitivamente no gosto popular e outras que escaparam dos olhos pouco inteligentes dos censores. Só mais tarde descobririam que calar melodias seria a mais inútil das missões. E o País cantou.


Chico Buarque prometia que, apesar deles, amanhã seria outro dia.



Paulo César Pinheiro, em parceria com Maurício Tapajós, desafiava: Você me corta um verso / Eu escrevo outro.


Belchior e Toquinho foram acusados de exaltar a França em detrimento ao Brasil.


Odair José desagradou o moral vigente.


As famílias cearenses consideraram Genival Lacerda indecente.


E quando a situação começou a melhorar, João Bosco e Aldir Blanc lembraram o quão choraram Marias e Clarices.

30 de novembro de 2011

Insatisfacão de Ari Barroso valia ingresso


Ari Barroso foi locutor esportivo no início dos anos 1930, mas para ele imparcialidade era conversa pra boi dormir. Ari não tinha pudor algum de mostrar sua preferência pelo Flamengo. Se houvesse uma falta perigosa contra o time da Gávea, soltava ao microfone: “Falta perigosíssima contra o Flamengo! Não vou olhar!”. Mas se o gol era de sua equipe do coração, tocava alegremente uma gaitinha, para a irritação dos torcedores adversários.
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Certa vez, anos mais tarde, o Flamengo ia tomando uma acachapante goleada de 6 a 0 do Bangu, no Maracanã. Faltava pouco para a acabar a partida quando um cidadão quis comprar uma entrada para o jogo. O rapaz do guichê explicou que a partida estava no fim. "Eu sei", respondeu". "Só quero ver a cara do Ari Barroso".

23 de novembro de 2011

Café paulista, leite mineiro

A República Velha se caracterizou pela Política do Café com Leite. Conchavos políticos garantiam que os ricos cafeicultores paulistas e os poderosos produtores de leite de Minas Gerais se revezassem no posto de presidente da República. Com apenas duas exceções – o gaúcho Hermes da Fonseca e o paraibano Epitácio Pessoa –, foi o que aconteceu de 1898 a 1930.

Em 1926, ao compor Café com Leite, Freire Júnior usou a culinária para explicar a prática. A letra dizia que o “mestre cuca” – ou seja, o presidente do momento – convocava os “cozinheiros”, que seriam os representantes dos estados, para fazer uma “boia bem escolhida”.

O resultado era sempre o mesmo: Café paulista / Leite mineiro / Nacionalista / Bem brasileiro.

Eis a letra:
Freire Júnior

Nosso Mestre Cuca movimentou
O Brasil inteiro,
Cada um estado pra cá mandou
O seu cozinheiro.
Mexeu-se a panela, fez-se a comida
Com perfeição.
Assim foi a bóia, bem escolhida
Com precaução

Café paulista,
Leite mineiro,
Nacionalista
Bem brasileiro.

Preto com branco,
Café com leite,
Cor democrata.
É preto com branco,
Meu bem, aceite.
Cor da mulata.
O leite é bem grosso, café é forte
Aguenta a mão.
As novas comidas têm que dar sorte
Na situação

Café paulista
Leite mineiro
Nacionalista
Bem brasileiro.

9 de novembro de 2011

"Teu mal é comentar o passado..."

Um amor conturbado e sambas inesquecíveis. Dalva de Oliveira e Herivelto Martins eram casados, mas viviam em pé de guerra. Quando se separaram oficialmente, em 1949, as discussões passaram a ser públicas. Herivelto ia a jornais acusar Dalva de promover orgias em casa, enquanto a mulher dizia o quanto Herivelto a fazia infeliz. A coisa ficou quente mesmo quando a peleja se tornou músicas. E que músicas.

A briga pública começou quando Dalva cantou Errei, Sim, encomendada a Ataulfo Alves especialmente para provocar o ex-marido: Errei, sim / Manchei teu nome / Mas foste tu o culpado / Deixava-me em casa / Me trocando pela orgia / Faltando sempre / Com a tua companhia.


Em resposta, Herivelto compôs Cabelos Brancos: Não falem desta mulher perto de mim (…) Por ela vivo aos trancos e barrancos / Respeitem ao menos os meus cabelos brancos. A provocação mútua não pararia, para deleite dos ouvintes-fãs-fofoqueiros.

Ainda foram criadas, para Dalva cantar, Fim de Comédia, de Ataulfo Alves, e Que Será, de Rossini Pinto. Herivelto respondeu com mais dois sambas: Caminhemos (para mim, a mais bonita de todas) e Segredo. Ironicamente, neste último, exige mais discrição por parte da ex-amada: Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois

20 de outubro de 2011

A tal da "casa muito engraçada" existe mesmo

Era uma casa muito engraçada / Não tinha teto, não tinha nada. Os versos de Vinicius de Moraes musicados por Toquinho para o disco infantil A Arca de Noé, de 1980, são conhecidos por todos. Mas pouca gente sabe como era o fim original de A Casa, não gravado em disco: Mas era feita com pororó / Era a casa de Vilaró.

Vilaró é o artista uruguaio Carlos Páez Vilaró. E a “casa muito engraçada”, a Casapueblo, sua mais suntuosa obra. Em 1958, o artista plástico, cineasta e escritor – ou, como ele se define, “um fazedor de coisas” – construiu uma pequena casa de lata em Punta Ballena, no litoral uruguaio, pertinho de Punta del Este. Aos poucos, foi erguendo novas estruturas e cômodos, sempre em linhas arredondadas. Depois pintou tudo de branco, “para interagir com o azul do céu”, disse.

Vinicius, que por um tempo foi embaixador do Brasil no Uruguai, era amigo de Vilaró e presença constante na Casapueblo. Uma manhã, para agradar as filhas do artista, começou a improvisar a trova infantil: Era uma casa muito engraçada... Gostou do resultado e, mais tarde, com algumas aparafusadas, saiu a poesia. E a música.

Até hoje a casa continua a ser construída. Vilaró mora na parte mais alta da edificação, que também funciona como hotel e restaurante. Todos os mais de 70 quartos são batizados com os nomes de seus primeiros hóspedes: Pelé, Alain Delon, Brigitte Bardot, Robert de Niro. Além do quarto Vinicius de Moraes, é claro.



18 de outubro de 2011

“Bota o retrato do velho”

Em 1950, não houve canto do Brasil que não tivesse ouvido a marchinha cantada magistralmente por Francisco Alves: Bota o retrato do velho outra vez / Bota no mesmo lugar / O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar.

A música referia-se a uma prática comum quando Getúlio era presidente, durante o Estado Novo, que era cada repartição pública ter uma foto do mandatário na parede. Ele buscava voltar ao poder em 1950, agora por meios democráticos, e a canção de Haroldo Lobo e Marino Pinto foi usada como uma espécie de jingle político. Deu certo, e o gaúcho bateu o adversário Eduardo Gomes.

Apesar do sucesso, Getúlio ouvia a canção a contra-gosto. É que ele detestava ser chamado de velho.

12 de setembro de 2011

Noel compôs baixaria para taxista-cantor

Noel Rosa por Elifas Andreato
O sambista Noel Rosa costumava varar noites e noites em rodas boêmias no centro do Rio. No comecinho dos anos 1930, conheceu por lá um taxista (ou chofer, como se dizia à época) chamado Malhado, que também era metido a músico. Malhado gostava de cantar no estilo operístico, com letras rebuscadas, quase parnasianas, que muitas vezes não sabia o que queriam dizer.

Depois de muitas viagens com Malhado, tendo que suportar seus dós de peito, Noel resolveu pregar uma peça no chofer. Escreveu uma música para que Malhado pudesse mostrar seus dotes a duas moças lindas, filhas de um coronel de Vila Isabel. No dia marcado, e depois de algum ensaio, os dois se encontraram para a serenata. Noel disse que tocaria violão do outro lado da rua, para dar o destaque que a voz de Malhado merecia. Ao som das primeiras dedilhadas, Malhado soltou a voz, lendo num papel a letra escrita pelo companheiro: 
Saí da tua alcova com o prepúcio dolorido / Deixando seu clitóris gotejante / De volúpia emurchecido / Porém, o gonococos da paixão / Aumentou minha tensão...

O coronel, claro, não gostou nada da letra pornográfica dedicada a suas filhas. Surgiu na janela já de arma em punho. Malhado correu em disparada. Depois de algumas quadras, encontrou o Poeta da Vila. Esbaforido e assustadíssimo, exclamou: “Não entendi nada, o coronel saiu atirando”. E Noel, sem perder a pose: “Isso é pra você ver o que é a falta de sensibilidade dessa gente...”.

8 de setembro de 2011

Abaixo a guitarra elétrica


Quando Caetano Veloso e Gilberto Gil ouviram pela primeira vez o disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, do Beatles, em 1967, ficaram estupefatos. Perceberam definitivamente que o rock era mais que mero iê-iê-iê. Que poderia ser uma música mais profunda. A dupla tratou de pôr guitarras elétricas nos arranjos de suas novas composições.
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Mas esse não era o sentimento de parte dos músicos brasileiros, que via na guitarra o símbolo da dominação cultural norte-americana. Chegou-se a organizar marchas contra a guitarra elétrica e pela valorização da tradicional música brasileira. Na foto, Jair Rodrigues, Elis Regina, Gilberto Gil e Edu Lobo encabeçam uma dessas marchas - Magro, do MPB4, é o de barba logo atrás.
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Gilberto Gil? Pois é. O baiano – que poucos depois subiria aos palcos do Festival da Record de 1967 ao lado dos Mutantes para defender Domingo no Parque – não soube dizer não a Elis Regina. Da janela de um prédio, Caetano Veloso e Nara Leão assistiam a tudo. Caetano disse: “Acho isso muito esquisito”. Nara respondeu: “Esquisito? Isso aí é um horror! Parece manifestação do Partido Integralista. É fascismo mesmo”.

10 de agosto de 2011

Um amor em 140 caracteres

Um amor evitável, mas irresistível. É assim que soa Tipo Um Baião, a melhor música (ao lado de Sinhá) do novo disco de Chico Buarque. Não tenho pretensão de destrinchar os critérios técnicos do baião-canção. Só dar pitacos sobre os aspectos emocionais. Que é o que importa.

Sabe as músicas que na primeira audição soam familiares, como se você já as conhecessem? Tipo Um Baião é um desses casos raros. A melodia, arranjo e harmonia já nasceram clássicos. Tudo isso com uma letra cheia de signos.

A música é uma confissão do amor entre um sujeito mais velho e uma menina cheia de vitalidade que surge quando não há muitos motivos para mais uma “história de amor a essa hora”. É mais provável que seja inspirado em Thais Gulin, a namorada 36 anos mais jovem do compositor. Mas, se não for, pouco importa.

Para começar, acho graça quando Chico arrisca falar as “gírias da juventude”. Ele já havia feito isso no último disco, ao dizer em Leve: Sei que seu caminho será tudo de bom / Mas não me leve. Agora, manda o tal Tipo me adora mesmo assim, meio mané, por fora. E lamenta-se que a moça só surgiu somente agora, ora para “enfeitar" a sua vida ora para “embaralhar” os seus dias.

Só quem amou entende o drama de ver o vulto da amada sumir entre mil abadás na ladeira num dia de carnaval. Só quem amou sabe como é irresistível estar ao lado de alguém que faz pouco caso das coisas que para você são importantes. A tal da moça, afinal, ignora o baião. Só quem amou acredita mais uma vez que desta vez será uma festa sem fim.

Mas o êxtase da canção é quando surge uma das melhores analogias da história da música brasileira sobre as emoções de amar. Comparar o sentimento com o movimento do acordeão é monumental: Meu coração / Que você sem pensar / Ora brinca de inflar / Ora esmaga / Igual que nem / Fole de acordeão / Tipo assim num baião / Do Gonzaga. É um tratado sobre o amor em exatos 140 caracteres. O Chico, tipo sem querer, mostrou-se antenado com as novidades dos tempos modernos. Assim como goleiro bom tem de ter sorte, gênios também produzem genialidade sem querer.

23 de julho de 2011

Amy Winehouse e Noel Rosa

Morreu hoje a cantora Amy Winehouse em Londres. Ela tinha apenas 27 anos e, pelo que se especula, morreu em virtude dos anos de uso exagerado de drogas e bebidas.

Pela idade, pelo talento e pela existência sem muitas regras, lembrou-se da vida e morte de Noel Rosa. Ele morreu em 1937, poucos meses antes de completar 27 anos.  O Filósofo do Samba era dado a viver sob o sereno e consumir doses imensuráveis de bebidas e cigarros (chegava a fumar três maços por dia). Certa vez, já muito doente, pediu uma cerveja num boteco. Alguém o reprimiu: "Noel, você está muito mal, não pode tomar gelado". "Tem razão", retrucou Noel. E disparou: "Garçom, me traga uma cerveja quente". Essa receita suicida, segundo o escritor Ruy Castro, “levou-o à tuberculose e à morte aos 26 anos. Levou-o também a ser Noel Rosa”. O mesmo cabe para Amy.

Há mais coincidências. A saúde de Noel também nunca foi lá essas coisas e, como se alimentava mal (tinha vergonha de comer em público devido a seu defeito no queixo), era magérrimo. E assim como Amy, Noel também fez suas melhores músicas para o grande e mais conturbado amor de sua vida, a dançarina de cabaré Ceci. Destaque para Último Desejo, uma comovente despedida sem retrato, sem bilhete, sem luar sem violão à amada.

Os puritanos do samba podem achar um sacrilégio a comparação. Mas as coincidências são irrefutáveis. Em homenagem, segue o samba que Noel escreveu sobre sua própria morte. Afinal, acredito que Amy também preteria choro e velha em seu velório. Iria preferir uma fita amarela gravada com o nome dele.

12 de julho de 2011

A língua brasileira segundo Noel Rosa

Recentemente, houve polêmica alardeada pela imprensa por causa da decisão do MEC de aprovar livros com “erros de português”. Na verdade, não havia erro algum. As publicações destacavam a importância do português padrão, mas diziam também que não é inapropriado falar com naturalidade, comendo algumas letras, plurais etc. Que a comunicação espontânea é mais importante que correr para um dicionário antes de abrir a boca.

É o que todos fazemos diariamente. Um exemplo é “pra” em vez de “para”. Ninguém acredita ser incorreto. Agora, se o sujeito falar “arvre” no lugar de “árvore”, é considerado um semianalfabeto. Mas o fenômeno é exatamente o mesmo: o sumiço de uma vogal no meio da palavra. Mas por burrice ou má-fé, a imprensa nacional prefere manter o idioma como um símbolo perverso de exclusão social.

No campo cultural, muito se falou sobre isso. Oswald de Andrade defende em Pronominais:

Dê-me um cigarro
Diz a gramática

Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um
cigarro


Já Manuel Bandeira sentencia na comovente Evocação do Recife:

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada


Em Macunaíma, o personagem criado por Mário de Andrade ironiza os paulistanos:


Ora sabereis que sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra.

Mas o maior defensor da língua brasileira – provavelmente sem essa pretensão – foi Noel Rosa. Em várias músicas o Filósofo do Samba mostra seu desdém em “macaquear a sintaxe lusíada”. Noel abusava de gírias e coloquialismos. E às vezes ia direto ao ponto.

É o caso do samba Mulata Fuzarqueira. Em dado momento, a letra diz: “"Meu amô não tem R / mas é amô debaixo d'água". Isso é bonito demais. E é sintético demais. Resumia como só Noel sabia resumir suas ideias tão espertas.

Mas o maior exemplo é Não Tem Tradução. Se um dia a língua portuguesa do Brasil se tornar oficialmente a língua brasileira, o hino ao idioma mãe terá de ser esse samba.

Há gente importante que concorda comigo. Um deles é Orestes Barbosa, contemporâneo de Noel e ardoroso defensor do jeito brasileiro de falar. Ao ouvir pela primeira vez o verso É brasileiro, já passou de português, exclamou, espantado: “Esse sem-queixo é demais. Um gênio! A gente aqui escrevendo, escrevendo, e ele resume tudo em meia dúzia de palavras. Exatamente meia dúzia!” E completou, emocionado: “Eu trocaria toda a minha obra por um só verso deste samba”.

Seguem as canções, cantadas em bom brasileiro.


14 de junho de 2011

Bob Marley não fez show, mas marcou gol

Em março de 1980, convidado por sua gravadora, Bob Marley desembarcou no Brasil. Logo na chegada, teve problemas com a polícia federal, que não lhe concedeu o visto de trabalho, acabando com as chances de qualquer apresentação em palcos brasileiros. O rei do reggae se hospedou no Copacabana Palace, assistiu a um show de Moraes Moreira e visitou a Rocinha, que achou muito parecida com os guetos de Kingston. 


Um dos momentos mais divertidos foi um jogo de futebol no campo de Chico Buarque. Como se vê na foto, o time do jamaicano contava, entre outros, com Chico, Toquinho e o jogador vascaíno Paulo César Caju. A turma venceu a equipe de Alceu Valença por 3 a 0. E Bob Marley tratou de guardar o seu.



1 de junho de 2011

Música e poema de Tom Jobim não conquistaram Helô Pinheiro

Helô Pinheiro em Ipanema. Tom, de olho, não aparece nas fotos
Garota de Ipanema estava recém-composta e Tom Jobim continuava encantado com a moça cujo balançado era mais que um poema. O maestro estava apaixonado pra valer por Helô Pinheiro, a musa inspiradora de um dos maiores sucessos da música mundial. Mas a menina de 20 anos – filha de militar e 16 anos mais jovem que Tom – não dava mole. Ainda mais porque o pretendente era casado. 

O músico chegou a se declarar, mas o máximo que conseguiu foi arrancar-lhe um breve beijo. Tom apelou até para um convite-poema com o intuito de que se encontrassem novamente: Oh, minha eterna Heloísa / Sou teu constante Abelardo / Tu és a musa perfeita / E eu teu constante bardo / Venha depressa Heloisinha / Quem te chama é o Tom Jobim / Te espero na mesma esquina / Já comprei o amendoim.

Helô não apareceu ao encontro. E, um ano depois, para desalento de Tom, convidou-o para ser padrinho de seu casamento com um empresário que não entrou para a história.

21 de maio de 2011

Vamos fazer um som na casa da vovó?

Há uma nova fórmula na música brasileira, tão fórmula quanto a infestação de neo-pagodes e axés dos anos 1990: as bandas de rock fofas. E desde ontem, com a propagação viral de uma banda de Curitiba, essa nova moda tem um refrão: Coração não é tão simples quanto pensa / Nele cabe o que não cabe na dispensa / Cabe o meu amor / Cabem três vidas inteiras / Cabe uma penteadeira...

Os integrantes dessa banda – auto-intitulada A Banda Mais Bonita da Cidade – fazem apenas parte de uma leva de jovens brancos, com jeitão de sensíveis e com cara de estudantes da PUC, seja qual PUC for. Provavelmente todo mundo ali votou na Marina Silva e propaga ideais de consumo consciente.

Como toda fórmula, essas bandas trazem elementos semelhantes entre si. Pra começar, os clipes têm de ser feitos em lugares meigos, com cara de casinha da vovó. Ou em jardins com tijolos alaranjados à mostra. Acho que é pra fazer um ar de república dos anos 1970. Além de violão, flauta e pandeiro, é fundamental um instrumento que soe mais exótico que os outros, mesmo que o som desse instrumento faça pouca diferença no arranjo. É preciso ter pelo menos uma mulher (no meu tempo, existia banda ou de mulher ou de homem, mas tudo bem). Os músicos precisam sorrir ou, no mínimo, fazer uma cara serena. Mas, sobretudo, e é isso que caracteriza todas as bandas, as letras tem de ser amorosas e, ao mesmo tempo, fofas e nonsenses. Se não houver letras assim, esqueça, está fora do grupo.

É estranho porque realmente é um movimento, com bandas semelhantes que surgiram de um tempo pra cá. A paulistana Tiê é um bom exemplo. Numa música ela diz, despudoradamente: Já que não te tenho por perto / Vou tomar um sorvete, pra alegrar o meu dia. Num clipe em que faz cara de musa da esquerda brasileira, dispara: Fica um pouco pra cá, pra variar / A lua brilhando no calcanhar...

Outra que merece lugar de destaque é Barbara Eugênia. O clipe de A Chave concentra todos os elementos dessa nova onda. O clipe começa com uma conversa informal entre os envolvidos, pra dar um ar casual (é muito importante parecer improvisado, uma boa reunião na casa de amigos). Os homens usam umas camisas meio Faustão fashion descolada. Um deles empunha um contrabaixo acústico, como se fosse a coisa mais natural do mundo ter um instrumento maior do que a pessoa num encontro de amigos. O outro tira som de um tecladinho de assoprar – acho que o nome é escaleta. A cantora está sentada num jardim com árvores singelas, janelas pintadas de azul e muros baixos – apesar de ter aparência de ter nascido num desses edifícios com seguranças de terno preto na porta. Ela ainda usa um vestido azul bem Brasil e um lenço vermelho na cabeça. Eu acho que azul e vermelho não combinam, aliás, mas essa é outra discussão.

Num outro clipe de Barbara, chamado Por Aí, há a mesma conversa informal antes dela surgir na janela de um sobrado, estilo fofoqueiras da Mooca ou meninas sofridas que esperam o amor passar. E cantarola, olhando pro nada: Por que você não passa por aqui / Pra gente fumar mil cigarros / Pra gente beber Coca Cola / Pra gente papear um pouco? Tudo com direito a ela bater um pauzinho no outro, que faz um som tão engraçadinho quanto inócuo. Essas bandas são apenas exemplos. Há muitas outras.

Há quem diga que a mesma crítica foi feita ao pessoal da bossa nova no fim dos anos 1950, quando rapazes bem-nascidos da zona sul carioca começaram a fazer letras de amor feliz. Há semelhanças, claro. Tanto que Nara Leão disse numa entrevista, quando decidiu romper com a bossa para se aproximar do samba tradicional: “Estou cansada de bossa. Estou cansada de fazer para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que a expressão do nosso povo”.

Mas a diferença entre a música de apartamento citada por Nara e a música de casas da vovó feita hoje é que a bossa trazia em si elementos revolucionários. Um jeito de romper com a era boleral que tanto infestava as rádios pré-1958. Havia novidades harmônicas, melódicas e conceituais. Além de um gênio, João Gilberto. E um gênio valida tudo.

Como boa parte das fórmulas, essas bandas tendem a sumir antes de alçar voos mais altos. Não porque torça pelo insucesso. Os músicos devem ter seu público e ganhar dinheiro honestamente fazendo música, tanto falando de amores que não caibam na dispensa quanto sobre o melhor jeito de segurar o tchan. Só se deve fazer justiça. Não há invenção, criatividade ou originalidade nessa nova moda. Há repetições de clichês. É fácil falar mal do Restart, mas essa onda fofa perde de 10 a zero quando um fã do Restart faz um coraçãozinho com a mão. Há muito mais espontaneidade e verdade em seus fãs do que nessa rapaziada na casa da matriarca italiana, pelo menos.

 

11 de maio de 2011

Aprenda com João Gilberto como tratar a elite de São Paulo

Como Joãozinho respondeu à elite paulistana
Os moradores de Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo, se mobilizaram para impedir a construção de uma estação de metrô no lugar. Um dos argumentos é que o metrô atrai "uma gente diferenciada". Ou seja, pobres. O pior: o governo de São Paulo aceitou a justificativa. Só me restou lembrar de João Gilberto. 
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Era setembro de 1999. Inauguração da maior casa de espetáculos de São Paulo. Para o grande evento, dois grandes nomes: João Gilberto e Caetano Veloso. A high society paulistana - essa mesma que impediu a construção do metrô - lotava o auditório, em parte mais preocupada com os espumantes e canapés do que com a apresentação. 
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João não pareceu gostar nada daquele teatro suntuoso, e nem daquela gente. Logo no começo do show, fez um muxoxo e reclamou do eco e do ar-condicionado. Após tocar o clássico O Pato, disparou, irritado: “O pato sou eu!”. O público endinheirado começou a vaiar. João não se fez de rogado. Como se mostra na foto acima, mostrou a língua para a plateia e cantarolou: “Vaia de bêbado não vale, vaia de bêbado não vale...”.

10 de abril de 2011

"Desculpa, Marina morena, mas eu tô de mal..."

Uma das mais comoventes músicas de Dorival Caymmi é o samba-canção Marina. A letra – meio machista, é verdade – narra a história de uma mulher que abusou da maquiagem a contragosto do amado. O companheiro então passa um sermão (quem dera todo sermão de marido ciumento fosse igual a esse), e termina com uma sentença fascinante: Desculpa, Marina morena, mas eu tô de mal.

Esse trecho sempre me chamou a atenção pela originalidade e pela docilidade, coisa rara em outros sambas. Outro dia descobri de onde veio a ideia. E não tem nada a ver com mulher. Numa tarde, Dorival estava indo para a rádio, e, por qualquer motivo, um dos filhos (talvez Dori) estava bravo com ele. O compositor mesmo assim seguiu para a rádio, quando o menino disparou: “Estou de mal”. A frase com cara aborrecida do filho ficou em sua cabeça.

À caminho da emissora, Dorival não pensava em outra coisa. É ele mesmo que narra: “Na rua, essa frase ficou martelando na minha cabeça: ‘Estou de mal, estou de mal, estou de mal…’. Enquanto ia à rádio, comprava umas coisas, andava nas ruas, a melodia e a letra foram se compondo em minha cabeça”. Ao fim do dia o clássico – que pode ser conferido no vídeo abaixo – estava pronto.

Marina - Dorival Caymmi (ao vivo)

1 de março de 2011

Sarro de Chico Buarque tornou-se hino contra a ditadura

Havia um ano que Chico estava auto-exilado na Itália. Soube por um amigo que a situação por estas terras havia melhorado. Não foi o que viu quando desembarcou no Rio em 1970. O cenário era de censura, tortura e arbitrariedades promovidas pelo governo. A situação o inspirou a criar Apesar de Você, que sairia em compacto, com Desalento do outro lado. Era uma mensagem quase direta ao governo militar (e, não se sabe se disfarçando ou não, Chico diz que essa é uma de suas poucas músicas direcionadas à ditadura).

O compositor enviou a canção à censura sem muita esperança que fosse aprovada. Não se sabe como, mas a música voltou liberada e sem cortes. O compacto vendeu mais de 100 mil cópias em menos de um mês. Quando o governo se tocou que o “você” da letra poderia ser o presidente militar Emílio Garrastazú Médici, o refrão já estava na boca do povo: Apesar de você / Amanhã há de ser outro dia...

A polícia invadiu a gravadora. As cópias foram destruídas. O censor que liberou a letra foi punido. O compositor foi chamado para explicar quem era o “você” da canção. Chico saiu-se com essa: “É uma mulher muito mandona”. A partir daí, as composições do ex símbolo do bom-mocismo começariam a ser recebidas com má vontade especial pelos censores.

A canção tornou-se uma espécie de hino contra a ditadura militar. Numa carta a Vinicius de Moraes, Chico explicava com despojamento a experiência de gravar uma de suas primeiras músicas contra a ditadura.“Deu bolo como o Apesar de Você, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro”.

18 de fevereiro de 2011

Noel só precisou de seis palavras para traduzir a nossa língua

Por Natália Pesciotta
Foi o cinema falado chegar no Brasil, no começo dos anos 1930, para os termos norte-americanos entrarem no vocabulário brasileiro. Atento à invasão de hellos e byebyes da nova potência mundial, Noel Rosa criou uma de suas obras-primas: O cinema falado é o grande culpado da transformação / Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez / (…) Amor lá no morro é amor pra chuchu / As rimas do samba não são I love you / E esse negócio de alô boy, alô Johnny / Só pode ser conversa de telefone.

O samba Não Tem Tradução criticava os estrangeirismos em nossa língua, e acabou atingindo o compositor Jurandyr Santos. Autor de Alô John e Bon Soir, o músico publicou carta aberta para Noel no jornal: “Você foi impiedoso. Não pôde, sequer, sopitar a revolta do seu espírito erudito, amigo das expressões castiças puras, e compôs Sem Tradução para esmagar seu pobre amigo”.

Se desagradou Jurandyr, entusiasmou Orestes Barbosa, um xenófobo de primeira. Ele vivia a escrever na imprensa contra  a falta de preocupação do povo com a cultura nacional e a invasão estrangeira na língua portuguesa. Entendia por estrangeirismo até o português de Portugal.

Referindo-se ao verso “É brasileiro, já passou de português”, exclamou: “Esse sem-queixo é demais. Um gênio! A gente aqui escrevendo, escrevendo, e ele resume tudo em meia dúzia de palavras. Exatamente meia dúzia!” E completou, emocionado: “Eu trocaria toda a minha obra por um só verso deste samba”.

7 de fevereiro de 2011

Com duas músicas, João Gilberto uniu a bossa nova

Festa na casa da família Menescal, Rio de Janeiro, 1957. Champanhe e rodas de bate-papo rolam na sala quando se ouve a campainha. Pensando tratar-se de mais um convidado, o jovem Roberto Menescal, então com 19 anos, atende a porta. Depara-se com um completo desconhecido: “Você tem um violão aí? Podíamos tocar alguma coisa.” O rapaz ficou sem reação, e o sujeito completou: “Eu sou João Gilberto. Quem me deu seu endereço foi seu professor de violão.”

Menescal, então um violonista promissor, já tinha ouvido falar do baiano “meio louco, genial, afinadíssimo”. Convidou-o para o quarto do fundo. Postado num canto, João empunhou o instrumento e fez soar os primeiros acordes. Até que soltou a voz: É amor / hô-bá-lá-lá...

O dono da casa ficou em estado de êxtase. Achou espetacular a maneira como a mão direita passeava pelas cordas. E a capacidade vocal, então? A voz soava como instrumento de alta precisão, ao mesmo tempo em que o canto surgia suave, natural, quase falado. Sem os pais perceberem, pegou João pelo braço e levou-o para conhecer Ronaldo Bôscoli, um de seus parceiros musicais. Mais apresentações, agora com a inclusão de Bim-Bom. Outro jovem boquiaberto. Segundo Ruy Castro em Chega de Saudade, o grupo varou a madrugada - inclusive no famoso apartamento de Nara Leão - e parte do dia seguinte de casa em casa. Ninguém dormiu.

Naquele momento começava a se formar o que seria conhecida como “a turma bossa nova”, todos seguidores desse novo mestre. Um ano depois, com a gravação do LPChega de Saudade, era a vez de o mundo todo conhecer a genialidade de João Gilberto.

31 de janeiro de 2011

Cristo mendigo agitou o Carnaval de 1989



"Quem gosta de miséria é intelectual. Pobre gosta de luxo.” A célebre frase de Joãosinho Trinta foi a forma de responder aos críticos, que reclamavam dos gastos excessivos para promover os desfiles da Beija-Flor. No Carnaval de 1989, porém, o carnavalesco resolveu surpreender. Sob o enredo Ratos e Urubus, Larguem a minha Fantasia, a intenção era denunciar a hipocrisia reinante e a miséria da população brasileira.

As alas seriam formadas por gente da rua: mendigos, prostitutas, desvalidos de toda espécie. As fantasias deveriam ser feitas com materiais encontrados nos lixos. O carnavalesco conclamou: “Este enredo é um protesto. Protesto a esta grande maldade que estão fazendo com a nossa terra, com a nossa gente, com o nosso Brasil. Nós sabemos fazer carnaval: é o nosso ofício. E que seja através dele que a gente proteste”.

O carro abre-alas traria uma grande imagem do Cristo Redentor. Com um detalhe: vestido apenas com trapos, como se fosse um mendigo. Só que o arcebispo dom Eugênio Sales não gostou nada da história. O religioso entrou na Justiça e conseguiu a proibição do uso da imagem. Decepção e nervosismo na escola. Até que, na véspera do desfile, alguém deu uma sugestão melhor do que a ideia original:  cobrir a estátua com rústicas lonas pretas. E a inscrição: “Mesmo proibido, olhai por nós”.

A entrada da Beija-Flor na avenida foi considerada um dos momentos mais impactantes do Carnaval carioca. Burburinho do público, espanto com o enorme saco preto que escondia a imagem do Cristo. Ladeando o carro abre-alas, mendigos com roupas esfarrapadas. Até que a plateia, deslumbrada, começou a entoar o cântico vindo do intérprete: Sai do lixo a nobreza / Euforia que consome / Se ficar o rato pega / Se cair urubu come. A cada ala, críticas sociais: da Igreja Católica às guerras, do desperdício de comida aos políticos. Tudo sem luxo. Só lixo e talento, criando um momento único e apoteótico da história dos desfiles carnavalescos.

Joãosinho Trinta tornou-se assunto no País todo. Ninguém tinha dúvidas de que a escola de samba se sagraria campeã. No dia da apuração, porém, a Beija-Flor terminou empatada com a Imperatriz Leopoldinense. Por três notas de desempate, teve de amargar a segunda colocação.

No desfile das campeãs, uma semana depois, Joãosinho fez questão de levar ainda mais mendigos para as alas. Sobrou provocação. O carnavalesco levou bonecos de três judas, representando os jurados que concederam notas baixas ao desfile da escola de Nilópolis. E, a pedido do público, os componentes retiraram – por conta própria – a lona preta que cobria o Cristo mendigo.