12 de fevereiro de 2008

De Pedro Pedreiro a Subúrbio: evolução sem atropelos

O primeiro sucesso popular de Chico Buarque foi Pedro Pedreiro, do compacto lançado em 1965 que também continha Sonho de um Carnaval. Segundo afirmação de Paulo Vanzolini à época, “este é um samba perfeito, sob qualquer ângulo. E impressiona ter sido feito por um garoto de apenas 23 anos”. E, desde então, Chico se mantém numa coerência musical ora louvável, ora alvo de críticas pela “pouca inventividade” de sua obra.

Há exemplos de críticas ao Chico por esta conduta. Tom Zé disse sobre o compositor, sarcasticamente, no final dos anos 1960: “Temos de respeitá-lo. Afinal, ele é nosso pai”. Já nos anos 1990, Fernando Henrique Cardoso, o criticou de forma parecida, após ter lançado o Paratodos: “Lá vem o Chico com os mesmos sambinhas de sempre”.

Mas “vir com os mesmos sambinhas de sempre”, mesmo se fosse verdade, não é necessariamente um demérito. Grosso modo, artistas precisam de ao menos uma das duas coisas a seguir pra serem valiosos: ser inovador, como Caetano Veloso, por exemplo, ou ter extremo talento. Estando no segundo caso, se pode dar o caminho que desejar à obra (até ser “sempre a mesma coisa”), que será interessante.

Basta citar João Gilberto. Há 50 anos veste um terno escuro, se agarra ao violão como se fosse a si próprio e toca um repertório bem parecido, com sutis variações harmônicas. E é genial.

E neste grupo está Chico Buarque. Muito mais parecido a João Gilberto do que a Caetano Veloso. A coerência e naturalidade artística são postas acima de invenções que soariam artificiais.

Ao ouvir seu último disco, Carioca, percebe-se que há muito daquele Chico de 40 anos atrás. Há uma linha que une o semi-adolescente ao senhor que já passou dos 60. Claro, em Carioca há mais esmero na escolha das harmonias e arranjos. As letras são menos pulsantes e mais exatas. É um projeto mais intelectual do que emocional.

Mas há o mesmo Chico, de qualquer época, em suas faixas. A música Subúrbio ilustra muito bem essa conduta. Ao ouvir, há algo que puxa as sensações para Pedro Pedreiro. Talvez pelo tema, pois esse tal Pedro provavelmente vive “de costas para o Cristo”. Ao mesmo tempo, a música é mais madura. É densa. É exata. É uma evolução sem atropelos do “mesmo Chico de sempre”. E assim está ótimo. Porque gênios não precisam se propor a revolucionar a cada cinco minutos. Gênios já são uma revolução em si.

2 comentários:

Canto da Urze disse...

Excelente observação! Chico Buarque só tem um...
Ei, ouvi um cd da História do Samba Paulista, organizado pelo Osvaldinho da Cuíca. Muito bacana! Vi tb que um pessoal da USP fez um extenso doc sobre o tema... foi exibido na Cultura. Conhece? beijo,

Carolina disse...

gostei do blog... samba é sempre bom.