25 de setembro de 2007

Surpreendentemente comum

Quando soube, de manhã, quem seria o entrevistado do programa Roda Viva (da Cultura), fiquei empolgado. Era Mano Brown, líder de um grupo que é uma ilha de autenticidade entre o marasmo artístico. Genial, corajoso, diferenciado em diversos aspectos. Tinha certeza de que seria uma noite histórica. Pois bem, assisti ao programa. E me decepcionei.

A decepção maior foi com os entrevistadores. Perguntas genéricas e preguiçosas. Ecoavam de duas formas: ou demonstravam mal conhecer o entrevistado, com perguntas vazias como “qual é a solução para a violência?”, ou queriam agradar o rapper. Ao ponto de Mano Brown mostrar surpresa: “Já assisti várias vezes ao programa e sempre ‘batiam’ forte no entrevistado. Hoje estão pegando muito leve”.

Mas o entrevistado também não estava bem. Não se mostrava nem o radical de antigamente e tampouco tinha uma atitude serena. Soou comum. E, ao se tratar de Mano Brown, soar comum é bem surpreendente.

O que salvou a entrevista – por mandar pra muito longe o lugar-comum- foi uma resposta sobre como o rapper lida com seus filhos. Ele estava falando que não conheceu o pai. O jornalista Paulo Markun, mediador do programa, então perguntou: “Você tenta compensar essa falta sendo um pai presente pros seus filhos, né?! Você é um pai presente?”. Até por estímulo, a tendência era receber uma resposta positiva. Com olhar e voz firmes, Brown respondeu: “Não, sou ausente”. Houve dois segundos de silêncio no estúdio.
Excetuando essa resposta, infelizmente, foi uma noite comum. Inacreditavelmente comum.

21 de setembro de 2007

Dia histórico

Pausa musical momentânea.
Hoje, 21 de setembro de 2007, foi dada a notícia de que há um ditador a menos no poder.

Dia de festa. E de alívio.

20 de setembro de 2007

Os 10 mais (continuação)

5º - Nelson Cavaquinho



Quando aquela voz característica começa a ecoar, é impossível não saber de quem se trata. O canto rascante, rouco e amargurado é o retrato fiel da obra de Nelson Cavaquinho. Dadas a desilusões amorosas e desesperança na vida, suas canções são sem paralelo na história da música popular. De uma simplicidade musical – e de vida – impressionante. Nelson era craque da boêmia. Do desapego material. Do medo e da alegria. Dos sentimentos nobres e baixos. Para ser sincero, é difícil falar sobre o compositor. Possivelmente é o personagem mais complexo da nossa música. Há muito de desconhecido no subterrâneo daquele olhar profundo e carismático.

Medo da velhice e, conseqüentemente, da morte, é constante em suas músicas. Os versos que registram essa temática são vastos: “Quando o tempo avisar/ Que eu não posso mais cantar/ Sei que vou sentir saudade/ Ao lado do meu violão/ Da minha mocidade” (Folhas Secas); "Sei que estou/ No último degrau da vida, meu amor/ Já estou envelhecido, acabado/ Por isso muito eu tenho chorado" (Degraus da Vida); "Sempre só/ E a vida vai seguindo assim/ Não tenho quem tem dó de mim/ Estou chegando ao fim" (Luz Negra); "O meu pecado foi querer na minha mocidade/ Amar muitas mulheres/ O tempo já passou/ Eu sinto saudade" (O Meu Pecado).

Teve seu momento de criação mais intensa quando se juntou a Guilherme de Brito. Um tipo totalmente contrário a Nelson. Casado com uma única mulher a vida inteira, fiel, pouco dado a boêmias. Desta parceria inusitada, nasceu o verso mais bonito da história musical, feita pelo Guilherme. A famosa “Tire seu sorriso do caminho que quero passar com a minha dor”, de A Flor e o Espinho.

Mas há um outro verso, impressionantemente irônico, triste e exato, que sintetiza sua vida: “Feliz daquele que sabe sofrer”, da música Rugas. Por estas linhas, podemos suspeitar que Nelson, afinal, era uma pessoa feliz. À sua maneira.

24 de agosto de 2007

Os 10 mais

Rankings são bacanas. Ajudam a organizar o pensamento e dar reforço visual ao que se quer expor. Portanto, crio o ranking dos melhores – ou dos que mais me emocionam, pelo menos - músicos brasileiros da história. Eis a lista definitiva:

1º - Chico Buarque

Millôr Fernandes disse no fim dos anos 1960: “Chico é a única unanimidade nacional”. E, contrariando Nélson Rodrigues, proferiu a frase de forma positiva. E é o caso. É raro encontrar alguém que, categoricamente, afirme não gostar do compositor carioca. E conquistou essa popularidade sem nunca cair no popularesco. Sem abrir concessões à sua arte. Escreve sobre situações comuns com um talento sobre-humano. Há um lirismo absurdamente forte, sarcasmo impressionante, junção de palavras sem paralelo. Todos esses elementos vêm com ausência de afetação ou demagogia. Simplicidade genial. Além de ser a única personalidade que nunca falou uma besteira grande em público (na verdade, nem pequena).

2º - Noel Rosa

O compositor é a figura mais importante para a popularização da forma urbana de se fazer samba. Viveu apenas 27 anos e, neste período, criou sambas antológicos nos quais se agrupavam vários temas. Sarcasmo, ironia, protesto, dramas amorosos. As músicas compostas para a briga com Wilson Batista (Rapaz Folgado, Palpite Infeliz, Feitiço da Vila, João Ninguém) são antológicas. Mas as minhas preferidas são as feitas para Céci, seu maior amor. A menina era, para usar um eufemismo, uma “mulher de cabaré”. E para ela compôs músicas de forte apelo, sem cair no lirismo bobo tão comum naquela época. As letras são extremamente diretas e cruas, como Dama do Cabaré, Pra que Mentir, Ilustre Visita e Último Desejo. Inigualáveis.

3º - João Gilberto

O baiano é o maior exemplo de coerência musical que se tem notícia no Brasil. Desde 1958, quando gravou o elepê Chega de Saudade e popularizou seu estilo revolucionário de cantar e tocar violão, Joãozinho (como Tom Jobim o chamava) se mantém na sua busca esquizofrênica pela batida perfeita. Canta com extrema delicadeza e precisão. Ajudou a matar a breguice musical daquela época. Influenciou decisivamente diversas gerações de músicos de primeira linha (como Chico Buarque, Edu Lobo, Baden Powell). Ao mesmo tempo, jamais se preocupou com notoriedade que não seja ligada à música. Deu menos de uma dezena de entrevistas na vida. Ficou recluso por um longo período até encontrar a batida e a forma de cantar que considerava ideais. Retira-se do palco quando as coisas não estão conforme o desejado. Pede para desligar o ar-condicionado e não gosta que a platéia cante. Ele não se preocupa com o público. Preocupa-se com a música. E isto basta.

4º - Geraldo Pereira

Pixinguinha ficou impressionado quando ouviu pela primeira vez uma música do Geraldo Pereira. Era Se Você Sair Chorando, apresentada a ele por Roberto Paiva, em 1939. O consagrado compositor, que produziu os arranjos para a canção, se disse entusiasmado com a originalidade da melodia. Mais tarde, seus sambas sincopados (uma característica harmoniosa) também chamou a atenção de outros músicos, como João Gilberto. Mas o que mais salta aos olhos (ou aos ouvidos) são as letras. Ele não era dado a romantismo lírico. Preferia a “forma cronista” de compor. Em sua obra, não há espaço pro amor romântico, pras belezas da natureza ou pro brilho da lua. Ele é objetivo, preciso e mordaz. Vide Bolinha de Papel, Escurinho, Você Está Sumindo, Falsa Baiana. Mas a música do coração é Sem Compromisso. Para mim, o maior samba da história. Une harmonia fantástica, machismo e humor sem cair no escracho. Ah, não, não. Sem Compromisso não é do Chico Buarque. Pode confiar.
No próximo capítulo: Nélson Cavaquinho e Paulo Vanzolini.

20 de agosto de 2007

"O menino que fugiu da peça" em SP

Durante este e o próximo mês (veja cartaz inilegível acima), rolará no Espaço Parlapatões, no centro, O Menino que Fugiu da Peça. Oficialmente, é uma peça de teatro voltada ao público infantil. Mas tem um humor irônico (e, às vezes, sarcástico) que agrada todo mundo. É só R$ 10. E, depois, ainda dá pra ir no sambão da Praça Roosevelt, que é do lado.
Veja resenha publicada no Guia da Semana:
O Menino que Fugiu da Peça
Espetáculo inova e foge da obviedade
A fábula escolar O Menino que Fugiu da Peça reestréia no Espaço Parlapatões e fica em cartaz até o dia 16 de setembro. Com canções ao vivo, cenários e figurinos pitorescos e derrubada completa da "quarta parede", o espetáculo procura levantar questões, tanto para os pequenos quanto para seus pais, acerca das noções de autoridade, criatividade e liberdade. O texto de Felipe Sant´Angelo, metalingüístico e provocador, leva todos os espectadores, tanto crianças quanto adultos a encontrarem identificação e questionamento nas situações vividas pelas personagens.
A peça conta a história de Denis, um menino comum, pestinha e bagunceiro, como tantos que encontramos em qualquer escola. Mas quando ele foge da peça de final de ano, seus colegas e professores entram em polvorosa e inicia-se uma divertida e emocionante busca pra descobrir como é que funcionam as complicadas relações entre professores e alunos. O grupo traz para o palco a experiência de rua que desenvolveu ao longo dos últimos anos, sempre buscando o encontro direto com o espectador, tornando-o componente ativo na realização da peça.
Onde: Espaço Parlapatões
Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 158 - República
Quando: 18/08 a 16/09 de 2007 (sábados e domingos), às 17h
Quanto: R$ 10

18 de agosto de 2007

Conservadorismo pop

Para começar, agradeçamos a incompetência inicial do Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, ou Cansei, como preferem seus criadores. Essa versão século 21 da Tradição, Família e Propriedade escolheu como suas garotas-propaganda as popstars Ana Maria Braga, Ivete Sangalo Hebe Camargo e Regina Duarte (esta última é a mesma que disse, em 2001, que tinha “medo do Lula”). Com essas mulheres, digamos, tão defensoras de um status-quo perigoso, o Cansei perde credibilidade antes de ganhar fôlego.
O movimento sugere um envolvimento nacional contra alguns problemas. Crise aérea, violência e outros itens que ainda não ficaram claros. Apesar de obscuro em alguns pontos, é límpida sua intenção maior: criar uma oposição popular e organizada contra o Governo Federal.
Porém, é um movimento excludente e elitista. Não ouvi que se cansaram da miséria, da desigualdade econômica, do salário mínimo, das condições das favelas ou das penitenciárias parecidas com calabouços da Idade Média. Alguns dirão: “Eu ganho dois salários mínimos por mês e apoio o Cansei”. Eis o ponto. Boa parte da classe média e classe média baixa da população tem o mesmo pensamento de quase toda a elite econômica: defesa da propriedade privada, conservadorismo, tolerância à exclusão social, ao preconceito racial e ansiedade por uma “limpeza social tão necessária a este País”.
Mas, a pergunta fica: por que só se cansaram agora? O Brasil tem um Governo Federal que, se não foi escolhido uma das novas sete maravilhas do mundo, ao menos é melhor - ao se levar em conta os índices costumeiros - em décadas. Estamos fortalecidos economicamente. A miséria diminuiu. O emprego aumentou. A educação está mais democrática (mas ainda ruim, é verdade). Temos relevância externa sem paralelo na história. Ah, será que se cansaram por termos um presidente “nordestino, analfabeto e bebum”?
Em 1964, a contra-revolução que levou os militares ao poder também tinha apoio popular. Também estava cansada de sei-lá-o-quê. Também ansiava por um governo de “pulso mais firme”. Conseguiram. Espero que desta vez continuem sendo incompetentes.

5 de agosto de 2007

Escurinho

“Você só dança com ele, diz que é sem compromisso”. Alguns dizem que o samba deste verso acima é do Chico Buarque. Outros, do Noel Rosa. Há ainda os que juram ser do João Gilberto – apesar de o baiano ter feito menos de uma dezena de música na vida. Na verdade, Sem Compromisso é do genial Geraldo Pereira, autor desta e de outras músicas preciosas, como Bolinha de Papel, Cabritada Mal-Sucedida, Na Subida do Morro, Pisei num Despacho, Escurinho e por aí vai.

Adorado por quem entende de samba, desconhecido para iniciantes, Geraldo está entre os maiores nomes da música brasileira. E, só pra variar, sem o devido reconhecimento ao seu talento singular. Por esta razão, criei um blog novo só para se falar sobre este sensacional sambista mineiro-carioca:

http://geraldopereira.zip.net/

Não esperem (falo no plural como se este blog tivesse muitas visitas...) apenas análises científicas sobre sua obra. Haverá espaço para simples relatos sensoriais acerca da sua música e da sua vida. Certamente, assunto não faltará. Apareçam (...) por lá!

21 de julho de 2007

Ataque histérico coletivo

Há alguns meses se iniciou uma campanha para a escolha das sete novas maravilhas do mundo. Não entendi direito sobre o que se tratava, qual instituição estava organizando a disputa e quais eram os outros concorrentes. Esqueci o assunto. De repente – “e não mais que de repente”, como diria o poeta – houve uma semi-comoção nacional para a escolha do Cristo Redentor. Um daqueles ataques de ufanismo burro e sem propósito tão comum por estas terras. Colocaram a bonita estátua acima do Corcovado, inclusive, a frente de verdadeiras obras para a humanidade, como o Taj Mahal e Macchu Picchu. E, logo depois, começaram os jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. E este é o tema desta postagem.

Mal assisti às disputas pela tevê. Mas, o pouco que vi, foi irritante. Aquele povo que pouco conhece esportes, mulheres de classe média que não sabem o que acontece além dos seus quintais, homens jovens a beira de um ataque histérico. Todos nas arquibancadas “mostrando sua brasilidade” e torcendo como loucos (“loucos” é eufemismo) para esportes tão populares como o badminton, a esgrima e o pólo aquático.

“Brasil, Brasil, Brasil”, brada a torcida. Choram, se emocionam, idolatram atletas os quais nunca ouviram falar na vida e que só vão saber que ainda existem se estiverem nas Olimpíadas de Pequim.

O fato é: brasileiro não sabe ser torcedor – como os argentinos sabem, por exemplo. Vivem apenas de emoções artificiais e pontuais, quando vêem uma camisa amarela na quadra ou no campo. Não se importam com a falta de estrutura esportiva do País, com o indício de roubalheira de boa parte das confederações esportivas, com mais nada que esteja alheia àquela disputa. Eles amam os atletas brasileiros, apenas isto.

A mesma coisa aconteceu quando a seleção mais chata da história conquistou a Copa América, na Venezuela. Um técnico inexperiente e prepotente ao mesmo tempo, quatro volantes no lugar que deveria haver ao menos dois craques e um tal de Robinho que joga menos do que o Galvão Bueno pensa. Ganhou? Ganhou. Mas e daí? Uma vitória com esses ingredientes indigestos não trazem alegria alguma. Mas é a chance de muitos voltarem a gritar, como acontece comumente neste Pan-Americano: “Ahhhhh, sou brasileirooooooooooooooo”. Apesar do “muito orgulho" e o "muito amor” serem completamente efêmeros.

19 de abril de 2007

Tá chegando, tá chegando!

"Noel - Poeta da Vila", dia 25 de abril, às 20h, no Sesc Pinheiros.

Aeeeeeeeeê!

24 de março de 2007

Excluída do clube

Toca a cuíca, toca a cuíca: ............. Faz-se silêncio no papel, pois como se reproduzir em tipos o som duma cuíca? Enquanto o cavaquinho, o violão – de seis ou sete cordas -, o tamborim e o tão exaltado pandeiro continuam dançando, a cuíca fica lá, sozinha, chorando na contramão.

De tão dispensável, se torna gloriosa quando aparece. Revoluciona o já esperado, com carradas de razão. Olhada por cima, ela entra pelo paralelo e se torna inatingível. Está blindada, mas nunca entra no clube.

É o retrato de dois terços desta civilização encruzilhada. É considerada ingênua e excluída. Quando aparece e faz bonito aplausos ecoam, depois a esquecem num canto e a vida continua. Sem se lembrar do seu lamento.

22 de janeiro de 2007

Acertei no milhar

Espero que ninguém se irrite e nem me ache falso. Ultimamente ouvi muito a conversa de “o que faria se ganhasse os R$ 50 milhões da Mega Sena”, e sorri – e até mesmo entrei no papo – na maioria das vezes. Mas esse assunto é mais insuportável do que uva passa no arroz. “Colocaria tudo no banco e viveria de rendimentos”, dizem com ar sábio, de quem teve uma sacada genial, 94% das pessoas. E depois emendam: “Renderiam R$ 130 mil por mês” (na verdade, esse número varia de pessoa pra pessoa. Mas a média é essa).
Vivemos de frisons temáticos contagiosos. E até as obras do Metrô de São Paulo ruírem, esse era o assunto da moda. Todos queriam apostar para concorrer à bolada. “Tenho de jogar. São R$ 50 milhões”, e filas intermináveis se formaram nas lotéricas de todo o País. Não faz sentido algum. Por que não há filas quando o prêmio é de R$ 30 milhões, por exemplo? Realmente é uma psicologia complexa. “Ah, R$ 30 milhões, não. Vou esperar chegar aos cinqüentinha”.
Parece que não querem ser ricos. Mas, sim, os mais ricos. Mas, além de “colocar na poupança e viver de rendimentos", as pretensões não são altas. Os desejos mais comuns são viajar pra Paris, ter um carrão, comprar uma fazenda e até andar de táxi diariamente. Coisas que um milhãozinho resolveria fácil, e ainda sobraria troco pra dar um pulinho na Bahia. Também gostaria de ganhar, claro. Entretanto ainda não foi dessa vez que apostei. Ah, e o que eu faria caso acertasse os seis números? Como diria Moreira da Silva no clássico Acertei no Milhar (de Geraldo Pereira e Wilson Batista), “compraria um avião azul para percorrer a América do Sul”.

3 de novembro de 2006

Testando, testando...

Hoje estava lendo outros blogs, e vi uma coisa bem legal no de uma menina: um vídeo do Youtube. Perguntei como fazia pra colocar no meu blog também, e ela me explicou meio por cima. Tô aqui, fazendo um teste. Se não der certo, passe na bilheteria e pegue seu dinheiro de volta. Mas, se tudo estiver OK, vai ser possível assistir a um vídeo fantástico, com Chico Buarque, Edu Lobo e um outro cara estranho (e mal vestido) cantando Ciranda da Bailarina. Atente-se pra cara do Chico Buarque no final da música, com vergonha alheia pelo sujeito da barba. Enfim, espero ter tido capacidade de colocar esse vídeo no ar.

2 de novembro de 2006

Clichê: a melhor arma para falta de assunto

Andando pela Paulista, de repente aparece vindo em sua direção aquele conhecido do tempo da faculdade, que não se conversa há três anos. E agoraaa? O desespero bate, não dá mais tempo para atravessar a avenida (a não ser que queira morrer atropelado). O jeito é, em três milésimos de segundo, colocar no modo “clichê: on” e se preparar para o embate:

- Ooooô, Roberto! Quanto tempo?
- E aí, Bruno?! Tudo bem?
- Tudo perfeito. E essa força aí, como é que ta?
- Tudo ótimo, mas to procurando emprego.
- Ah, é, né?! Esse mercado de jornalismo não ta fácil pra ninguém. E o Coringão?
- Nossa, ta mal! Mas vamos virar nesse campeonato!
- Claro! Mas faz o seguinte: me liga aí pra gente marcar umas brejas.

Não importa que ele não tenha seu telefone. Esse é o momento de dar três tapinhas nas costas do sujeito, fazer aquele sinalzinho de “me liga” (vide foto) e sumir como se estivesse disputando marcha olímpica.

A conclusão é: clichês são saudáveis e essenciais para a vida em sociedade. Nos fazem parecer simpáticos e atenciosos. E, acima de tudo, minimizam o constrangimento em encontros não-programados. Afinal, como diria a sabedoria popular, “o que não mata, engorda” (vide foto novamente).

25 de outubro de 2006

Cotas, sim!

Aviso de antemão que este texto estará repleto de obviedades, clichès e parca apuração de fatos históricos. Totalmente opinativo e emocional. Mas, ainda assim, a expressão da verdade.

É sobre as cotas pra negros em universidades públicas. Há anos ouço tantas besteiras sobre o tema, contestando a justiça dessa ação afirmativa, que resolvi escrever sobre o assunto neste espaço. Não, as cotas não são injustas. Injustiça é trazer milhões de negros da África durante 300 anos, tratá-los da forma mais desumana e arbitrária possível, fazer o “favor” de libertá-los e, depois, largá-los à Deus-dará, sem o mínimo de estrutura, criando os enormes bolsões de pobreza, as favelas e os morros paupérrimos (e essa “libertação” ocorreu há pouco mais de 100 anos!).

Agora, dizem que os negros devem entrar na faculdade pelo próprio esforço. Como há 2% de negros em faculdades públicas neste País, ou se parte da premissa que os negros não têm força de vontade, ou algo está muito errado. E as frases imbecis não saem da boca do povo:

“Os negros têm preconceito contra eles mesmo”.

“Ah, quando um cara é escurinho a gente suspeita mesmo, né”.

“Tem uma amiga da tia da minha vizinha que é negra, e ela entrou na universidade por esforço próprio, após trabalhar 17 horas por dia e estudar mais cinco horas. Por que os outros negros não fazem o mesmo?”.

E a frase mais nojenta e preconceituosa: “Ué, se eles podem pôr uma camiseta escrito 100% negro, por que não posso colocar uma 100% branco?”. (Simplesmente porque isso é nazismo, pois a população branca no Brasil nunca sofreu preconceitos devido à sua cor. No caso dos negros, é uma atitude afirmativa, para mostrar que têm orgulho da cor, apesar de todo o preconceito que sofrem).

Outra coisa dita pelo povo, e essa mais inteligente, é de que não se deve ter cotas, mas investir na educação de base. Sim, é óbvio que as condições devem ser dadas no ensino fundamental. Só que não podemos falar prum negro de 17 anos: “Olha, vamos arrumar o ensino básico, mas não é pra sua geração, viu?! Daqui 20 anos teremos uma educação sensacional, e seus filhos – ou quem sabe seus netos – poderão usufruir disso”.

Esquecem que ele não pode esperar. Que essa ação deve existir já, para que seus descendentes sejam filhos de advogados, jornalistas, engenheiros. É questão de dar ao povo negro auto-estima. De colocar negros em grandes empresas. É de parar de apertá-los nas periferias, e depois reclamar que a cidade está muito violenta. O Brasil deve pensar no bem de toda a população, e não no de 20% que tem um nível educacional melhor, esquecendo da grande massa populacional.

Arrancamos sua auto-estima, sua história e seu orgulho. Eu, por exemplo, sei de quem descendo, o nome dos meus bisavôs e de quais cidades européias eles vieram. Mas a maioria dos negros não sabe nada sobre seus ascendentes, simplesmente porque eles não eram tratados como cidadãos, mas como gados. Chega! Um país justo é no qual toda a população tem acesso à educação, ao emprego e a uma vida justa. Mesmo que seja utópico, a obrigação é ao menos tentar. E parar de pôr empecilhos para o desenvolvimento social por achar que “o nível das faculdades vai cair”.

4 de outubro de 2006

"Sim, eu tenho medo"

A frase do título deste texto é da Regina “Tenho Torcicolo” Duarte, dita no programa eleitoral do então candidato à presidência (e agora governador de São Paulo) José Serra, em 2002. A sorridente atriz se dizia com medo do Lula, não se sabe bem por quê. Agora, com a licença da global, é a minha vez de dizer: eu tenho, muito, medo.

Medo do misto de ignorância, conservadorismo e preconceito dos paulistas; medo do Maluf, Campos Machado, Valdemar Costa Neto, Frank Aguiar, Collor e Clodovil, todos levados ao congresso pelos braços do povo; medo da onda anti-Lula, que beira o fascismo, qualificando-o apenas como “bêbado, ladrão e analfabeto” (assim como gostamos de adjetivar os pobres); medo por viver um dos períodos mais miseráveis em ideologias deste País.

O segundo turno se aproxima, e até lá terei que ouvir coisas parecidas como as que ouvi hoje num bar, de um “fazendeiro do Mato Grosso que acaba de voltar da Europa” (ele se apresentou assim!): “Lula é um vagabundo bebum. Assim como esse pessoal do MST, que quer terra sem trabalhar. Só mais uma coisa: por que você deu R$ 1 praquele pedinte? Essa cambada quer vida fácil; aposto que ta indo pro bar tomar cachaça”. É, vocês me assustam.