16 de junho de 2009

Greve de bondes inspira o gremista Lupicínio

Em 1953, uma greve de bondes paralisou Porto Alegre. Operários faltaram ao trabalho, casais deixaram de se ver e torcedores não puderam acompanhar as equipes no estádio. Entre eles, um gremista chamado Lupicínio Rodrigues. Desconsolado, sentou-se à mesa de um bar, sacou a caneta e lá mesmo compôs o que viria a ser um dos mais emblemáticos hinos de time de futebol: Até a pé nós iremos / Para o que der e vier / Mas o certo é que nós estaremos / Com o Grêmio onde o Grêmio estiver…

9 de junho de 2009

Música e futebol

Toda a semana, colocarei uma história sobre músicas que falam de futebol. Nada melhor que começar com Wilson Batista, um sambista "levemente" apaixonado pelo Flamengo.

O sambista Wilson Batista era fanático pelo Flamengo. Num certo domingo, foi assistir a uma partida entre o time do coração e o Botafogo, no estádio de General Severiano. O Flamengo foi derrotado. Wilson se revoltou, saiu xingando todo mundo e até se recusou a pagar a passagem do bonde. O amigo Antônio Almeida tentou acalmá-lo, mas recebeu uma resposta de bate-pronto: “Pô, eu tiro o domingo para descansar e vejo meu time perder?”.

Com o mote, ali mesmo compuseram E o Juiz Apitou: Eu tiro o domingo para descansar / Mas não descansei / Que louco fui eu / Regressei do futebol / Todo queimado de sol / O Flamengo perdeu pro Botafogo / Amanhã vou trabalhar / Meu patrão é vascaíno e de mim vai zombar.

Wilson também compôs, em parceria com Jorge de Castro, Samba Rubro-Negro. Era uma exaltação aos jogadores da época: O mais querido tem Rubens, Dequinha e Pavão / Eu já rezei pra são Jorge pro Mengo ser campeão. Nos anos 1980, João Nogueira atualizou os craques: O mais querido tem Zico, Adílio e Adão… Recentemente, foi a vez de Diogo Nogueira, com alguma boa vontade na rima (e nos “craques”): O mais querido tem Souza, Obina e Juan / Eu já rezei pra são Jorge pro Mengo ser campeão…

Bonde São Januário

Como já contado neste blog, o malandro passou a fazer sambas de exaltação ao trabalho na década de 1930. Uma forma de agradar ao governo de Getúlio Vargas. Como é o caso de Bonde São Januário: Quem trabalha é que tem razão / Eu digo e não tenho medo de errar / O Bonde São Januário / Leva mais um operário / Sou eu que vou trabalhar...

Dizem, porém, que nas rodas informais da Lapa ele cantava uma outra versão: O bonde São Januário / Leva um portuga otário / Pra ver o Vasco apanhar.

Exigência a Nássara

Wilson produziu o disco Polêmica, uma compilação dos sambas compostos a partir da briga com Noel Rosa. Fez uma única exigência a Nássara, que ilustraria a capa. "Me desenhe com a camisa do Flamengo".

2 de junho de 2009

Dinheiro que é bom...

Vida de sambista não é fácil até hoje. Que dirá nos anos 1960. Cartola já havia se consagrado como fundador da Mangueira e um dos mais importantes compositores da escola. Era respeitado por gente como Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Villa-Lobos. Mas toda essa credibilidade não se revertia em conforto na vida econômica. A foto ao lado mostra Cartola, já perto dos 60 anos, trabalhando como contínuo no Ministério da Indústria e Comércio. A principal função de um dos mais extraordinários nomes da música brasileira: servir cafezinho.

Cartola estreou a bordo de um navio. Sem pagamento.

E o artista também não viu a cor do dinheiro em sua estreia fonográfica, 30 anos antes. Como parte da Política de Boa-Vizinhança norte-americana, o inglês radicado nos Estados Unidos Leopold Stokowski atracou o seu navio no Rio de Janeiro em 1940. A missão: registrar a mais legítima música brasileira.

Para tal, pediu ao maestro Villa-Lobos que reunisse artista de samba, batucada, marchas de rancho, macumba e embolada.

.E assim fez Villa-Lobos. A gravação foi feita a bordo do próprio navio. E até o capitão foi espiar. Não era para menos: durante oito horas consecutivas passaram pelos microfones Donga, Pixinguinha, Dona Neuma, Zé da Zilda, Jararaca e Ratinho, João da Baiana. Além de Cartola, que mandou Quem me Vê Sorrindo: Quem me vê sorrindo / Pensa que estou alegre / O meu sorriso é por consolação / Porque sei conter para ninguém ver / O pranto do meu coração...

Estavam prontos os dois álbuns de Native Brazilian Music. O pagamento dos artistas? Estusiasmados cumprimentos... Muitos sequer ouviram a gravação. O disco nunca foi lançado no Brasil.

12 de maio de 2009

Um homem de moral

Numa sessão reservada à imprensa, assisti ao documentário Um Homem de Moral, de Ricardo Dias, sobre a vida e as canções de Paulo Vanzolini. É o melhor documentário / filme sobre um compositor desta década. E olha que houve sobre Cartola, Noel, Vinicius, Paulinho da Viola. Talvez eu faça a afirmação ainda pelo calor do acontecimento, por ser completamente apaixonado pela obra de Vanzolini. Mas o documentário é realmente bom. E emocionante.
O modo como o compositor explica suas canções, sem firulas, sem frescuras, sem exaltação ou modéstias à toa é muito bonito. Não foi contaminado por uma das maiores pragas do mundo moderno: o politicamente correto. Evidencia essa verve logo nas cenas iniciais: "O povo de cada um eu não gosto. Mas do povo em geral eu gosto muito" (como se pode ver no trailer abaixo).
Ele começa a repassar sobre a vida, o trabalho científico e, principalmente, os sambas. Entre uma canção e outra, cenas de São Paulo, tão retratadas pelo compositor. Ele desnuda a cidade não de uma forma romantizada, mas desnuda a fraqueza e a incoerência dos habitantes. Como em Ronda. Parece que a personagem quer fazer as pazes com o amado. Mas, na verdade, apenas pretende descarregar o pente no canalha: Porém, com perfeita paciência / Sigo a te buscar / Hei de encontrar / Bebendo com outras mulheres / Rolando um dadinho / Jogando bilhar / E neste dia, então / Vai dar na primeira edição / Cena de sangue num bar da avenida São João.
Tornou-se um hino de São Paulo. Motivo de orgulho para Vanzolini, certo? Nada disso. Ele considera o samba-canção fraco, piegas. Como explica: "Eu tenho muita dívida com São Paulo. É um absurdo como gostam de Ronda. Mas gostam. Até japonês com dor de corno a canta em karaokês".
Mas o melhor está por vir. Parte do documentário foi gravado durante a feitura de Acerto de Contas, um projeto com a gravação de seus sambas. Cenas de importantes artistas não faltam: Paulinho da Viola, João Macacão, Inezita Barroso, Virgínia Rosa, Martinho da Vila e Chico Buarque, numa definitiva gravação de Praça Clóvis: Na Praça Clóvis minha carteira batida / Tinha 25 cruzeiros e o seu retrato...
Há ainda uma bela participação de Adoniran Barbosa. Em gravação dos anos 1970, ao lado dos Demônios da Garoa, fala de maneira carinhosa sobre o amigo. “Nosso samba é parecido, entende? Só que o Vanzolini é muito mais inteligente que eu. Meus temas são mais bobos, os dele, mais intelectuais. Ele é um cara estudado”. E finaliza: “Ele é um zoológico” (querendo dizer “zoólogo”).
No fim, gente do povo canta Volta por Cima. Aí surge Vanzolini para proferir a frase síntese da sua visão sobre a vida: "Todo mundo presta atenção no verso volta por cima. Mas tem outra coisa que para mim é mais importante: reconhece a queda". Nada mais é necessário. Apenas subir os letreiros.
A previsão de estreia é 29 de maio nos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Trailer de Um Homem de Moral

9 de março de 2009

O que o baiano tem?

Seu estilo único, surgido não-sei-de-onde, impressionou desde as primeiras canções. Com composições originalíssimas, colocou a Bahia no imaginário coletivo dos brasileiros. Esteve nos dois momentos de internacionalização da música nacional. Era famoso pela "preguiça", pela vida devagar, sem aceitar a pressão da indústria fonográfica. Fez apenas 100 canções, mas tornou-se um mito em vida.

É um mistério da música brasileira: de onde surgiu o estilo singular de Dorival Caymmi? Desde as primeiras composições a questão perdura, sem ser devidamente elucidada. Ao ser perguntado se era influenciado pelo baiano, o compositor Chico Buarque respondeu: “Caymmi para mim é um caso à parte na música nacional. Ele é de tal modo despojado que é difícil imitá-lo, copiá-lo, fazer uma música a la Caymmi”.

Nascido a 30 de abril de 1914 em Salvador, Dorival passou a infância de olho no violão do pai, um músico amador. Aprendeu a tocar o instrumento sozinho, e com apenas 15 anos já tinha as primeiras composições. Logo passaria a se apresentar em programas da Rádio Clube da Bahia. Para descolar uns trocados, trabalhava no jornal O Imparcial.

Em 1937 embarcou em um ita rumo ao Rio de Janeiro, onde assumiu uma vaga de jornalista nos Diários Associados e se inscreveu num curso preparatório para a faculdade de Direito. Sem esquecer a música, que continuava compondo para enfrentar os programas de calouro.

Precisou de apenas um ano para conhecer o sucesso. A equipe de Banana da Terra já havia rodado as cenas iniciais do filme quando chegou a notícia. Por razões financeiras, Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, não poderia ser usada. A produção tinha que providenciar nova música para Carmen Miranda.

Envolvido com o musical, o radialista Almirante lembrou do rapaz recém-chegado da Bahia. Dias depois o compositor de 24 anos apresentou O Que É Que a Baiana Tem? para Carmen. E ainda sugeriu que a Pequena Notável imitasse os trejeitos das baianas, gesto que se tornaria sua marca registrada.

O que a Baiana Tem, com Carmen Miranda

Com o sucesso, passou a atuar na Rádio Nacional. Na emissora conheceu a cantora Stella Maris, com que se casaria. A companheira estaria ao seu lado por toda a vida.

Baianos em seu caminho

A partir de 1939, Caymmi constrói uma longa lista de músicas tendo o mar como inspiração. Os ouvintes se impressionavam com a naturalidade com a qual os versos entravam na melodia. Alguns exemplos são Rainha do Mar, Promessa de Pescador, A Jangada Voltou Só. Os temas praieiros não se limitavam à música. Passou a se dedicar à pintura e ao desenho. Os cenários baianos eram a inspiração: pescadores, comunidades a beira-mar, as tradições populares.

A Jangada Voltou Só

Compõe também sambas-canção. Marina (...morena / Marina, você se pintou...) foi uma das mais famosas. Durante os anos 1940, torna-se grande amigo do conterrâneo Jorge Amado. Inspirado em sua obra literária, cria Modinha para Gabriela e É Doce Morrer no Mar.

Marina

Carmen havia sido responsável por levar a música de Caymmi para o mundo. A partir de 1959, um baiano toma esse papel: João Gilberto. Fã confesso de Caymmi, João grava Rosa Morena logo em seu disco de estreia. Era apenas o começo. Na fileira vieram Doralice, Você Não Sabe Amar, Acontece que Eu Sou Baiano... Parecia que as canções de Dorival haviam nascido sob o signo da bossa nova. A definição é de Caetano Veloso: "O grande esforço de modernização de João se apoiou na modernização sem esforço de Caymmi".

Doralice, com João Gilberto

Tornou-se também amigo de Tom Jobim, que exaltava sua inventividade. Para ele, Caymmi usava soluções harmônicas poucas vezes vistas antes da bossa. Ambos lançaram um disco nos anos 1960: Caymmi Visita Tom. Com direito a um magistral dueto em Saudade da Bahia: Ai, que saudade eu tenho da Bahia / Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia...

Saudade da Bahia

“Queria ser um preguiçoso assim”

“Ao longo da carreira, Caymmi gravou cerca de 100 canções - pouco para tantos anos dedicados à música. Resultado: ganhou fama de preguiçoso. Negava-se a escrever sob pressão de gravadoras. Só uma vez assinou contrato, com a Odeon, em 1939. Pelo acordo, deveria gravar seis discos em dois anos. Não cumpriu. "É verdade que Caymmy compôs pouco mais de 100 músicas, mas todas são obras-primas. Quem é o compositor que pode se dar a esse luxo? Eu queira ser um preguiçoso assim”, defendeu Caetano.

É célebre a história da obra-prima João Valentão, que levou nove anos para concluir. O desfecho beira o sublime: E assim adormece este homem/ Que nunca precisa dormir pra sonhar /Porque não há sonho mais lindo / Do que sua terra, não há.

João Valentão, com Caetano Veloso

Outro caso que ilustra o ritmo de sua produção é o da música Adalgisa. Sempre mostrava a um amigo os primeiros versos (Que a Bahia tá viva ainda lá / Que a Bahia tá viva ainda lá). Ao ser questionado quando iria gravar, respondia: “Quando ficar pronta, quando ficar pronta...”. E assim foi durante anos. Até que um dia anunciou: “Terminei!”. Pegou o violão, empostou a voz e apresentou a obra completa: Com a graça de Deus, inda lá / Que a Bahia tá viva ainda lá / Que a Bahia tá viva ainda lá...

As canções rareavam ainda mais com o passar dos anos. Mas os filhos Dori, Nana e Danilo – além dos inúmeros amigos e admiradores – mantiveram a divulgação de sua obra. Em agosto do ano passado, seu coração baiano parou de bater. Homenagens em todo o País. O Brasil percebeu que perdia um compositor inigualável. E inimitável. Alguns anos antes, diante da pergunta a que creditava ter participado dos dois grandes momentos internacionais da música brasileira – a era Carmen Miranda e a bossa nova –, respondeu: “É questão de ser baiano”.

26 de janeiro de 2009

Esperando a felicidade...

Era fim da tarde de 11 de março de 1958. Mergulhado em dramas pessoais e com um enorme sentimento de solidão, o baiano de 50 anos escreveu, com sofreguidão, uma longa e detalhada carta na qual explicara a bobagem que viria a fazer. “Morro por minha vontade. Estou sentindo apenas a cruel saudade de tudo e de todos”. Assinou o papel e, sentado num banco em frente à Praia do Russel, no Rio de Janeiro, bebeu guaraná com formicida. Morreu minutos depois. E a música brasileira, no mesmo ano do nascimento da bossa nova, perdia o compositor Assis Valente.

Levara uma vida de abandono, amargura, vaidade e raro talento. São se conformava com o ostracismo que a carreira havia lhe imposto. Mas não era apenas isso. Para entender o que lhe fez chegar ao suicídio – a derradeira de três tentativas -, é necessário voltar ao começo de tudo.

O menino José de Assis Valente nasceu em 19 de março de 1908 na Bahia. A cidade natal é confusa para os biógrafos. Uns dizem que foi entre Bom Jardim e Patioba. Ele, numa entrevista ao Cine Rádio Jornal, afirmou ser de Campo da Pólvora (“por isso tenho essa pele queimada”).

O certo é que teve uma infância atribulada. Foi sequestrado ainda pequeno de casa e criado por outro casal. Eles se mudaram para Salvador e, pouco depois, para o Rio. Com um detalhe: sem ele, que ficou sozinho na capital baiana.

Virou-se como podia. Profissionalizou-se ainda jovem como especialista em prótese dentária. Mas o que queria é ser artista, se sentir pertencente a algo, receber aplausos. As primeiras atividades foram como orador de circo e desenhista de uma revista soteropolitana. Mas ainda era pouco.

Entre próteses, desenhos e sambas

Decidiu se mudar para o Rio em 1928. Logo empregou-se no gabinete de um protético. Mas gostava mesmo de desenhar, atividade que tomava suas noites, e os vendia para revistas da cidade.

Em 1932, conheceu o compositor Heitor dos Prazeres, e a história começaria a mudar. Ele se impressionou com a facilidade do baiano para compor versos, sempre intuitivos. Com o decisivo incentivo de Heitor, conseguiu no mesmo ano ter o primeiro samba gravado: Tem Francesa no Morro, pela voz de Araci Cortes.
Ouça:

Logo depois faria o que considerava a sua melhor canção, criada na noite de Natal de 1932. Era Boas Festas, o maior sucesso do gênero natalino da história da música nacional. Estava sozinho em casa, triste, quando viu uma imagem de uma menina com os sapatinhos sobre a cama para esperar o presente de Papai Noel. Foi o suficiente para a canção amargurada nascer ali mesmo: Anoiteceu, o sino gemeu / E a gente ficou feliz a rezar / Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar / Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...
Ouça:

A paixão platônica por Carmen Miranda

No mesmo ano assistiu a uma apresentação de Carmen Miranda, jovem cantora que o encantou instantaneamente. Fez de tudo para se aproximar e, após se conhecerem de fato, passou a compor canções exclusivamente para ela. Foram 24 gravações e quase todas se tornaram sucesso, como E o Mundo Não se Acabou, Recenseamento e a genial Camisa Listrada: Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí / Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu Parati...


E o Mundo Não se Acabou

Recenseamento

Camisa Listrada, por Carmen Miranda


Estava no auge da fama, sentindo-se importante e amado pelo público, quando Carmen, em 1939, decidiu se mudar para os Estados Unidos. Foi um baque. Assis sentiu-se traído, abandonado. E, pior: tinha dificuldade de compor para outras cantoras.

Daí em diante a carreira começou a decair. Novos ritmos tocavam nas rádios e sua música passava a ser considerada obsoleta. Ele não conseguia – e muitas vezes não queria - acompanhar as novidades. Emplacou alguns sucessos, como o clássico Fez Bobagem, de 1942, gravado por Araci de Almeida. Mas sem a mesma repercussão de antes. Também não teve sucesso no casamento com Nadyle da Silva Santos, que durou menos de três anos. Com ela teve sua única filha, Nara Nadyle.

Vendo a fama de longe e com dívidas quase impagáveis, tenta o suicídio duas vezes. Não para de compor, mas boa parte apenas lota a gaveta. Pouca gente quer gravar um compositor que estampa as manchetes dos jornais apenas por tentar se matar. Cada vez se afasta mais das pessoas. E aí chegou a fatídica data de 1958.

O sucesso que sempre perseguiu viria pouco depois. Não mais na voz de Carmen Miranda, mas pelas sucessivas regravações a partir dos anos 1960. Com destaque para os Novos Baianos, que transformaram Brasil Pandeiro num estrondoso sucesso nacional.

Uma das mais regravadas é o samba Alegria, um marco na carreira e, sobretudo, uma das mais elaboradas sínteses da sua existência. Uma vida na qual a dor e o prazer coexistiram numa eterna busca por um sentimento que nunca alcançaria: Esperando a felicidade / Para ver se eu vou melhorar / Vou cantando, fingindo alegria / Para a humanidade não me ver chorar.
Ouça:

11 de novembro de 2008

A alma do povo

Há poucos meses de completar um século de existência, morre em 24 de dezembro de 2006 o compositor Braguinha. Sobre o caixão, a bandeira verde-e-rosa da Mangueira. Num cartaz, os netos escrevem “Pela estrada afora costumávamos ir juntinhos. Agora teremos que seguir sozinhos”, em alusão à canção Chapeuzinho Vermelho, adaptada décadas antes pelo artista. Prestes a iniciar o enterro, os presentes começam a entoar: Meu coração / Não sei por quê / Bate feliz / Quando te vê... Foi a derradeira retribuição popular à personalidade que soube retratar o povo em sambas, marchinhas e choros clássicos, que teimam em não morrer no imaginário dos brasileiros.

Carlos Alberto Ferreira Braga nasceu em março de 1907 numa família carioca de classe média. Pouco depois, se muda para o bairro de Vila Isabel, onde passa a adolescência acerca de um tal Noel Rosa. Começa a esboçar as primeiras composições aos 16 anos. O pai – que era gerente da fábrica de tecidos Confiança – não tinha confiança alguma em o filho se tornar músico. Achava coisa de desocupado, vagabundo. Só fica todo orgulho quando Carlinhos, como a família o chamava, ingressa na faculdade de arquitetura.

Mal sabia que o garoto largaria o estudo pouco tempo depois para se dedicar exclusivamente à carreira artística, mesmo sem conhecimento formal algum. Compunha no instinto, quase pelo assobio. Ao lado de Noel Rosa, Almirante, Henrique Brito e Alvinho, forma o Bando de Tangarás. Para despistar o pai, adota um pseudônimo: João de Barro. Ironicamente, o pássaro arquiteto. Faz pequenas apresentações com o grupo, enquanto ensaia alçar vôos próprios.

Passa a compor marchinhas carnavalescas. Uma das primeiras a se tornar popular é Linda Lourinha, feita para o carnaval de 1934. Era uma espécie de resposta à Linda Morena, de Lamartine Babo. O sucesso inicial o empolga e Braguinha começa a produzir quase em escala industrial. São dessa década As Pastorinhas (com Noel Rosa), Yes, Nós Temos Banana (com Alberto Ribeiro) e muitas outras.

A criação mais notória, porém, é um choro-canção feito em 1937. A cantora Heloísa Helena pergunta se Braguinha pode pôr letra num choro de Pixinguinha. O compositor aceita o desafio e, em apenas um dia, entrega a encomenda. A música? Carinhoso, considerada um clássico definitivo da música nacional.

Na mesma época se torna diretor artístico da gravadora Columbia. Durante a carreira ajuda a projetar nomes como Radamés Gnatalli, Tom Jobim, Lúcio Alves, Dick Farney, Doris Monteiro, Tito Madi e Jamelão.

Tourada no Maracanã

A década de 1940 também é profissionalmente frutífera – e em diversas áreas. Torna-se roteirista e assistente de direção em filmes da Cinédia. Dubla temas musicais para a Disney, em filmes como Pinóquio, Dumbo, Bambi e Branca de Neve e os Sete Anões. Escreve, adapta e compõe histórias infantis, entre as quais Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos. Faz Copacabana, um hino de amor ao bairro carioca. Passa a ser conhecido internacionalmente pela voz de Carmen Miranda. As marchinhas carnavalescas também não param: Pirata da Perna de Pau, Tem Gato na Tumba, A Mulata é a Tal, Chiquita Bacana...

Um dos momentos mais emocionantes da vida se dá em 1950, quando o Brasil enfrenta a Espanha pela Copa do Mundo. A seleção goleia os europeus por 6 a 1 no Maracanã e, ao fim do jogo, os torcedores formam um dos coros mais impressionantes já vistos num estádio de futebol. Os 200 mil presentes entoam, a plenos pulmões, a marchinha Tourada em Madri (Braguinha e Alberto Ribeiro): Eu fui às touradas em Madri / E quase não volto mais aqui / Pra ver Peri / Beijar Ceci... Só uma pessoa não cantou: o próprio Braguinha. “Vendo aquilo, a única coisa que consegui foi chorar”, contou pouco depois.

Yes, Nós Temos Braguinha

No começo dos anos 1960 a marchinha carnavalesca entra em declínio no mercado fonográfico. Mesmo assim, lança Garota de Saint-Tropez, com Jota Júnior, alcançando relativo sucesso. Volta à cena em 1979, quando Gal Costa grava uma canção de quatro décadas atrás, Balancê: Ô, balancê, balancê / Quero dançar com você / Entra na roda, morena pra ver / Ô balancê, balancê...

Uma das últimas consagrações públicas ocorre em 1984, na inauguração do Sambódromo do Rio. A Mangueira desfila sob o tema “Yes, Nós Temos Braguinha” e torna-se campeã do carnaval. O artista passa os anos subseqüentes recebendo homenagens, tanto pela obra quanto pelo seu jeito leve e bem-humorado. “A vida só gosta de quem gosta dela”, como o autor de quase 500 canções sempre gostou de ensinar.

* Texto publicado na edição de dezembro de 2008 da revista Almanaque Brasil.

22 de outubro de 2008

Sambistas “aposentam a navalha” em canções trabalhistas

O compositor Wilson Batista era um assíduo freqüentador da Lapa, reduto da nata da malandragem carioca na primeira metade do século passado. Tanto que num de seus principais sucessos, Lenço no Pescoço, se cita como um típico personagem do local: De chapéu do lado / Tamanco arrastando / Lenço no Pescoço / Navalha no bolso / Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho em ser tão vadio...

Mas, com a instituição do Estado Novo pelo presidente Getúlio Vargas, em 1937, passou a haver intensa valorização do trabalhismo. Músicas como as de Wilson eram censuradas pelo Governo ou pela própria população, que via nas letras temas que denegriam as causas nacionais.

O malandro não teve dúvidas. Compôs Bonde de São Januário, um hino de exaltação ao trabalho, e ficou bem com todo mundo: Quem trabalha é quem tem razão / Eu digo e não tenho medo de errar / O Bonde São Januário / Leva mais um operário / Sou eu que vou trabalhar.

Ouça a música:



Não foi o único a lançar mão do artifício. O sambista Geraldo Pereira, outro notório malandro, compôs a bela Pedro do Pedregulho, na qual canta sobre um sujeito barra-pesada, que quebrava barracos, brigava com a polícia e só vivia do jogo. Para alívio dos trabalhistas, Pedro se regenera no fim: E ele trocou o revólver que usava, fingindo embrulho / Por uma marmita, e sobe o Pedregulho / De noite, cansado do seu batedor.

Ouça a música, cantada pelo próprio Geraldo:


6 de outubro de 2008

Chico versus 1968

Radicais de direita e de esquerda que encheram a paciência de Chico Buarque em 1968.

Bom-mocismo às favas

Garotas de classe média – e de cabelos impecáveis – lotaram o auditório do Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro. Afinal, era a estréia da peça Roda Viva, escrita pelo “genro ideal” de seus pais, Chico Buarque. As meninas suspiravam ao imaginar o que o “cantor dos olhos de ardósia” e símbolo do bom-mocismo havia criado.

Quando as cortinas se abriram, entretanto, todas ficaram espantadas. A peça era extremamente provocativa, quase violenta. Tratava-se uma encenação revolucionária comandada pelo diretor Zé Celso Martinez Côrrea. O texto de Chico também não ficava atrás: era uma ironia deslavada ao mundo do show business, ao qual ele fazia parte. Muitos saíram antes de terminar, ofendidos. O ator Antônio Pedro, que fazia o papel do Anjo da Guarda, foi ameaçado por um espectador ao começar mais uma provocação: “Olha aqui, ó, Anjo, se você não parar vou te dar uma porrada”.

Mas porrada quem deu mesmo foram integrantes do Comando de Caça aos Comunistas, um grupo paramilitar de extrema direita, que espancaram integrantes da peça após uma apresentação em São Paulo e seqüestraram dois atores em Porto Alegre.

Festivaia

Tom Jobim suportou exatos 23 minutos de vaias durante a apresentação de Sabiá, na fase eliminatória do 3° Festival Internacional da Canção. O público de 20 mil pessoas, que lotava o Maracanãzinho, considerava a canção alienada. Quase todos torciam para Não Dizer que Não Falei de Flores, a politizada canção de Geraldo Vandré. O co-autor de Sabiá, Chico Buarque, escapou dos apupos por estar em turnê pela Europa.

Na finalíssima, entretanto, teve que encarar a multidão. E mais vaias, que calaram as intérpretes Cynara e Cybele. Os dois, que também estavam no palco, ficaram visivelmente constrangidos. No final da apresentação, Geraldo Vandré tomou as dores dos adversários e, ao microfone, proferiu uma das suas últimas frases em público. “A vida não se resume a festivais”, bradou à platéia.

Contrariando a preferência popular, Sabiá foi a vencedora. E logo seria adotada como uma espécie de hino da saudade dos exilados políticos: Vou voltar / Sei que ainda vou voltar / Para meu lugar.

25 de setembro de 2008

A malandragem de Donga

A casa da Tia Ciata era famosa no centro do Rio de Janeiro no início do século passado, principalmente pelas reuniões musicais. Entre os freqüentadores estavam Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Sinhô e um tal Donga, que entraria pra história como o autor do primeiro samba, Pelo Telefone. O chefe da polícia/ Pelo telefone / Mandou avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta / Para se jogar... Só que a autoria sempre foi contestada. De acordo com vários relatos, a música foi uma criação coletiva em um desses encontros, sem compositor definido. Mas Donga, espertamente, a registrou em novembro de 1916 no Departamento de Direitos Autorais como sendo dele e do jornalista Mauro de Almeida, conhecido como Peru dos Pés Frios. A música foi o maior sucesso do carnaval de 1917. Mas a ironia contra a polícia e a apologia à jogatina – que estava proibida no Rio – poderiam trazer problemas. Num ato de autocensura, os primeiros versos foram mudados para O chefe da folia/ Pelo telefone / Manda avisar / Que com alegria/ Não se questiona/ Para se brincar.

No vídeo abaixo, Donga canta, com Chico Buarque, a música na versão original. Foi transmitido em 1966 no programa da Hebe Camargo. Uma das pessoas que está no palco é o mítico Pixinguinha. Enfim, aperta o play aí.

Donga e Chico Buarque cantam Pelo Telefone

17 de setembro de 2008

O cachorrinho sambista de Adoniran

Em 1957 uma música começou a fazer sucesso nas rádios de São Paulo. Era a canção Deus Te Abençoe, gravada pela Dupla Ouro e Prata. Mas o público se confundia com o autor da música, um tal de Peteleco. Quem seria o desconhecido compositor, afinal? A dúvida foi desfeita na edição de julho daquele ano da Revista do Long-Playing. Peteleco era o cãozinho de estimação de Adoniran Barbosa. “Por que não teria o conhecido cômico usado seu próprio nome? Tem exclusividade com os Demônios da Garoa ou achou que o samba tão bonito não era digno de seu nome?”, questionou o jornalista Francisco D. Silva na revista.
Os motivos que levaram Adoniran a “lançar” seu fiel amigo na música permanecem obscuros. Mas a carreira do gracioso vira-lata continuaria em outras composições, por motivos mais claros. Em alguns casos, para fazer parceria com artistas de outros sindicatos e associações de recebimento autoral. Em outros, simplesmente porque não queria ver seu nome associado a determinado parceiro.
Contabiliza-se que Peteleco foi “autor” de cinco sambas. Além de Deus Te Abençoe, assinou sozinho as canções Pra Que Chorar e Onde Vai, Leão. Em parceria, está com o nome registrado em É da Banda de Lá (com Irvando Luiz), Nóis Não Usa as Bleque Tais (com Gianfrancesco Guarnieri) e Mãe, Eu Juro (com Marques Filho, como o cantor Noite Ilustrada assinava suas músicas à época).
O último caso é fruto de uma das mais importantes polêmicas da música brasileira. De acordo com entrevistas dadas por Noite, ele é o verdadeiro autor da melodia de Bom Dia, Tristeza, que foi creditada somente a Adoniran e Vinicius de Moraes. Adoniran teria pedido que fizesse a música e, na hora de registrar, excluiu seu nome. Há quem discorde. Segundo Ayrton Mugnaini Jr., autor da biografia de Adoniran, é discutível essa versão. “Com todo o respeito a Noite Ilustrada, não creio ter sido ele o autor da melodia”, explica. Mas o fato é que, logo após a polêmica, Noite - que estava em início de carreira - o convidou para terminar um samba intitulado Mãe, Eu Juro. Adoniran aceitou, mas registrou o nome de seu cãozinho. Noite ficou magoado e os dois nunca mais se falaram.
O amor de Adoniran por Peteleco, porém, permaneceu inabalável. Mais do que “parceiro musical”, era o seu grande companheiro. O cachorro vivia ao lado do cantor e também tinha jeito de artista. Ele próprio buscava os doces na padaria, numa prateleira mais baixa, para deslumbramento do padeiro. Nas constantes viagens a Santos, gostava de ficar sobre o peito do dono, enquanto boiava no mar. E foi na cidade que o cachorrinho morreu, após comer um alimento estragado. Acredita-se que o samba Não Quero Entrar, lançado em 1968, tenha sido composto em homenagem a Peteleco: "Eu voltei somente pra buscar/ Meu cachorrinho, meu cobertor e meu violão...".

16 de setembro de 2008

"Um minuto só, cavalheiro"

Nóis viemo aqui pra beber ou pra conversar?

10 de setembro de 2008

Um homem de moral

No fim de agosto entrevistei, para a revista Almanaque Brasil, o zoólogo e compositor Paulo Vanzolini (tem até foto pra provar o feito). Antes da entrevista, alguns me advertiram: "Cuidado. O Paulo não tem muita paciência pra besteira". Acho que não perguntei muita besteira, porque conheci uma pessoa leve e bem-humorada. Contou histórias, falou dos trabalhos científicos e, principalmente, de música com empolgação.
O que mais agrada é seu jeito objetivo, sem frescuras. Faz elogios e críticas a fatos e personalidades sem mudar a expressão ou o tom de voz. Ponho abaixo alguns trechos que foram publicados no Almanaque.

Ronda
Compus Ronda em 1945, quando estava servindo o Exército. Às vezes, dava patrulha no meretrício e, sabe como é, sambista sempre está atrás de temas. Eu via aquelas mulheres indo de bar em bar, como quem procurasse algo. A música é uma piada, uma brincadeira. Vou iludindo o ouvinte, que pensa que é uma música romântica, de uma mulher que pretende encontrar o amado. Aí, no fim, o que ela quer mesmo é descarregar o pente no pilantra. Na verdade, não acho essa canção grande coisa. É meio piegas.

Música era hobby
Música para mim sempre foi um hobby, uma diversão entre amigos. Também nunca compus para gravar. O mercado da música era uma droga, muito sujo. O primeiro sambista profissional que conheci foi o Ismael Silva. Eu perguntava: "Essa música não é sua, Ismael? Não foi você que fez?". Ele respondia: "Eu fiz, mas vendi pro Francisco Alves. Então é dele". Sambas maravilhosos eram vendidos por 20 mil réis, uma mixaria.

Chico Buarque
Desde pequeno era um menino fabuloso e superinteligente. Um dia, ainda bem jovem, ele me mostrou uma música que acabara de compor, Pedro Pedreiro. Fiquei impressionado como aquela canção era perfeita. Chico é a única unanimidade nacional. Pode-se discutir a respeito de qualquer um, menos de Chico.

Vinicius de Moraes
Uma das melhores pessoas que conheci na vida. Só tinha o defeito de fazer samba nas coxas, de uma noite para a outra, quase só com emoção. Em geral, o resultado era ruim. Vinicius foi um dos maiores poetas da língua portuguesa e um péssimo sambista.

Sem exageros

Sou absolutamente contra cantores excessivos, cheios de emoção e firula. Meus sambas já têm muita emoção. Se puser mais, lambuza tudo, fica uma coisa piegas.

Sem novos sambas

Meu último samba é Quando Eu For Eu Vou Sem Pena. Por volta dos 80 anos (ele tem 84), de uma hora para a outra, perdi completamente a vontade. Não voltarei a compor. Mas já fiz mais de 60 músicas. Está bom demais.