O sambista Noel Rosa costumava varar noites e noites em rodas boêmias no centro do Rio. No comecinho dos anos 1930, conheceu por lá um taxista (ou chofer, como se dizia à época) chamado Malhado, que também era metido a músico. Malhado gostava de cantar no estilo operístico, com letras rebuscadas, quase parnasianas, que muitas vezes não sabia o que queriam dizer.
Depois de muitas viagens com Malhado, tendo que suportar seus dós de peito, Noel resolveu pregar uma peça no chofer. Escreveu uma música para que Malhado pudesse mostrar seus dotes a duas moças lindas, filhas de um coronel de Vila Isabel. No dia marcado, e depois de algum ensaio, os dois se encontraram para a serenata. Noel disse que tocaria violão do outro lado da rua, para dar o destaque que a voz de Malhado merecia. Ao som das primeiras dedilhadas, Malhado soltou a voz, lendo num papel a letra escrita pelo companheiro: Saí da tua alcova com o prepúcio dolorido / Deixando seu clitóris gotejante / De volúpia emurchecido / Porém, o gonococos da paixão / Aumentou minha tensão...
O coronel, claro, não gostou nada da letra pornográfica dedicada a suas filhas. Surgiu na janela já de arma em punho. Malhado correu em disparada. Depois de algumas quadras, encontrou o Poeta da Vila. Esbaforido e assustadíssimo, exclamou: “Não entendi nada, o coronel saiu atirando”. E Noel, sem perder a pose: “Isso é pra você ver o que é a falta de sensibilidade dessa gente...”.
Quando Caetano Veloso e Gilberto Gil ouviram pela primeira vez o disco Sgt. Pepper's LonelyHearts Club Band, do Beatles, em 1967, ficaram estupefatos. Perceberam definitivamente que o rock era mais que mero iê-iê-iê. Que poderia ser uma música mais profunda. A dupla tratou de pôr guitarras elétricas nos arranjos de suas novas composições. . Mas esse não era o sentimento de parte dos músicos brasileiros, que via na guitarra o símbolo da dominação cultural norte-americana. Chegou-se a organizar marchas contra a guitarra elétrica e pela valorização da tradicional música brasileira. Na foto, Jair Rodrigues, Elis Regina, Gilberto Gil e Edu Lobo encabeçam uma dessas marchas - Magro, do MPB4, é o de barba logo atrás. . Gilberto Gil? Pois é. O baiano – que poucos depois subiria aos palcos do Festival da Record de 1967 ao lado dos Mutantes para defender Domingo no Parque – não soube dizer não a Elis Regina. Da janela de um prédio, Caetano Veloso e Nara Leão assistiam a tudo. Caetano disse: “Acho isso muito esquisito”. Nara respondeu: “Esquisito? Isso aí é um horror! Parece manifestação do Partido Integralista. É fascismo mesmo”.
Um amor evitável, mas irresistível. É assim que soa Tipo Um Baião, a melhor música (ao lado de Sinhá) do novo disco de Chico Buarque. Não tenho pretensão de destrinchar os critérios técnicos do baião-canção. Só dar pitacos sobre os aspectos emocionais. Que é o que importa.
Sabe as músicas que na primeira audição soam familiares, como se você já as conhecessem? Tipo Um Baião é um desses casos raros. A melodia, arranjo e harmonia já nasceram clássicos. Tudo isso com uma letra cheia de signos.
A música é uma confissão do amor entre um sujeito mais velho e uma menina cheia de vitalidade que surge quando não há muitos motivos para mais uma “história de amor a essa hora”. É mais provável que seja inspirado em Thais Gulin, a namorada 36 anos mais jovem do compositor. Mas, se não for, pouco importa.
Para começar, acho graça quando Chico arrisca falar as “gírias da juventude”. Ele já havia feito isso no último disco, ao dizer em Leve: Sei que seu caminho será tudo de bom / Mas não me leve. Agora, manda o tal Tipo me adora mesmo assim, meio mané, por fora. E lamenta-se que a moça só surgiu somente agora, ora para “enfeitar" a sua vida ora para “embaralhar” os seus dias.
Só quem amou entende o drama de ver o vulto da amada sumir entre mil abadás na ladeira num dia de carnaval. Só quem amou sabe como é irresistível estar ao lado de alguém que faz pouco caso das coisas que para você são importantes. A tal da moça, afinal, ignora o baião. Só quem amou acredita mais uma vez que desta vez será uma festa sem fim.
Mas o êxtase da canção é quando surge uma das melhores analogias da história da música brasileira sobre as emoções de amar. Comparar o sentimento com o movimento do acordeão é monumental: Meu coração / Que você sem pensar / Ora brinca de inflar / Ora esmaga / Igual que nem / Fole de acordeão / Tipo assim num baião / Do Gonzaga. É um tratado sobre o amor em exatos 140 caracteres. O Chico, tipo sem querer, mostrou-se antenado com as novidades dos tempos modernos. Assim como goleiro bom tem de ter sorte, gênios também produzem genialidade sem querer.
Morreu hoje a cantora Amy Winehouse em Londres. Ela tinha apenas 27 anos e, pelo que se especula, morreu em virtude dos anos de uso exagerado de drogas e bebidas.
Pela idade, pelo talento e pela existência sem muitas regras, lembrou-se da vida e morte de Noel Rosa. Ele morreu em 1937, poucos meses antes de completar 27 anos. O Filósofo do Samba era dado a viver sob o sereno e consumir doses imensuráveis de bebidas e cigarros (chegava a fumar três maços por dia). Certa vez, já muito doente, pediu uma cerveja num boteco. Alguém o reprimiu: "Noel, você está muito mal, não pode tomar gelado". "Tem razão", retrucou Noel. E disparou: "Garçom, me traga uma cerveja quente". Essa receita suicida, segundo o escritor Ruy Castro, “levou-o à tuberculose e à morte aos 26 anos. Levou-o também a ser Noel Rosa”. O mesmo cabe para Amy.
Há mais coincidências. A saúde de Noel também nunca foi lá essas coisas e, como se alimentava mal (tinha vergonha de comer em público devido a seu defeito no queixo), era magérrimo. E assim como Amy, Noel também fez suas melhores músicas para o grande e mais conturbado amor de sua vida, a dançarina de cabaré Ceci. Destaque para Último Desejo, uma comovente despedida sem retrato, sem bilhete, sem luar sem violão à amada.
Os puritanos do samba podem achar um sacrilégio a comparação. Mas as coincidências são irrefutáveis. Em homenagem, segue o samba que Noel escreveu sobre sua própria morte. Afinal, acredito que Amy também preteria choro e velha em seu velório. Iria preferir uma fita amarela gravada com o nome dele.
Recentemente, houve polêmica alardeada pela imprensa por causa da decisão do MEC de aprovar livros com “erros de português”. Na verdade, não havia erro algum. As publicações destacavam a importância do português padrão, mas diziam também que não é inapropriado falar com naturalidade, comendo algumas letras, plurais etc. Que a comunicação espontânea é mais importante que correr para um dicionário antes de abrir a boca.
É o que todos fazemos diariamente. Um exemplo é “pra” em vez de “para”. Ninguém acredita ser incorreto. Agora, se o sujeito falar “arvre” no lugar de “árvore”, é considerado um semianalfabeto. Mas o fenômeno é exatamente o mesmo: o sumiço de uma vogal no meio da palavra. Mas por burrice ou má-fé, a imprensa nacional prefere manter o idioma como um símbolo perverso de exclusão social.
No campo cultural, muito se falou sobre isso. Oswald de Andrade defende em Pronominais:
Dê-me um cigarro
Diz a gramática Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Já Manuel Bandeira sentencia na comovente Evocação do Recife:
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
Em Macunaíma, o personagem criado por Mário de Andrade ironiza os paulistanos:
Ora sabereis que sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra.
Mas o maior defensor da língua brasileira – provavelmente sem essa pretensão – foi Noel Rosa. Em várias músicas o Filósofo do Samba mostra seu desdém em “macaquear a sintaxe lusíada”. Noel abusava de gírias e coloquialismos. E às vezes ia direto ao ponto.
É o caso do samba Mulata Fuzarqueira. Em dado momento, a letra diz: “"Meu amô não tem R / mas é amô debaixo d'água". Isso é bonito demais. E é sintético demais. Resumia como só Noel sabia resumir suas ideias tão espertas.
Mas o maior exemplo é Não Tem Tradução. Se um dia a língua portuguesa do Brasil se tornar oficialmente a língua brasileira, o hino ao idioma mãe terá de ser esse samba.
Há gente importante que concorda comigo. Um deles é Orestes Barbosa, contemporâneo de Noel e ardoroso defensor do jeito brasileiro de falar. Ao ouvir pela primeira vez o verso É brasileiro, já passou de português, exclamou, espantado: “Esse sem-queixo é demais. Um gênio! A gente aqui escrevendo, escrevendo, e ele resume tudo em meia dúzia de palavras. Exatamente meia dúzia!” E completou, emocionado: “Eu trocaria toda a minha obra por um só verso deste samba”.
Em março de 1980, convidado por sua gravadora, Bob Marley desembarcou no Brasil. Logo na chegada, teve problemas com a polícia federal, que não lhe concedeu o visto de trabalho, acabando com as chances de qualquer apresentação em palcos brasileiros. O rei do reggae se hospedou no Copacabana Palace, assistiu a um show de Moraes Moreira e visitou a Rocinha, que achou muito parecida com os guetos de Kingston.
Um dos momentos mais divertidos foi um jogo de futebol no campo de Chico Buarque. Como se vê na foto, o time do jamaicano contava, entre outros, com Chico, Toquinho e o jogador vascaíno Paulo César Caju. A turma venceu a equipe de Alceu Valença por 3 a 0. E Bob Marley tratou de guardar o seu.
Helô Pinheiro em Ipanema. Tom, de olho, não aparece nas fotos
Garota de Ipanema estava recém-composta e Tom Jobim continuava encantado com a moça cujo balançado era mais que um poema. O maestro estava apaixonado pra valer por Helô Pinheiro, a musa inspiradora de um dos maiores sucessos da música mundial. Mas a menina de 20 anos – filha de militar e 16 anos mais jovem que Tom – não dava mole. Ainda mais porque o pretendente era casado. O músico chegou a se declarar, mas o máximo que conseguiu foi arrancar-lhe um breve beijo. Tom apelou até para um convite-poema com o intuito de que se encontrassem novamente:Oh, minha eterna Heloísa / Sou teu constante Abelardo / Tu és a musa perfeita / E eu teu constante bardo / Venha depressa Heloisinha / Quem te chama é o Tom Jobim / Te espero na mesma esquina / Já comprei o amendoim. Helô não apareceu ao encontro. E, um ano depois, para desalento de Tom, convidou-o para ser padrinho de seu casamento com um empresário que não entrou para a história.
Os moradores de Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo, se mobilizaram para impedir a construção de uma estação de metrô no lugar. Um dos argumentos é que o metrô atrai "uma gente diferenciada". Ou seja, pobres. O pior: o governo de São Paulo aceitou a justificativa. Só me restou lembrar de João Gilberto. . Era setembro de 1999. Inauguração da maior casa de espetáculos de São Paulo. Para o grande evento, dois grandes nomes: João Gilberto e Caetano Veloso. Ahigh societypaulistana - essa mesma que impediu a construção do metrô - lotava o auditório, em parte mais preocupada com os espumantes e canapés do que com a apresentação. . João não pareceu gostar nada daquele teatro suntuoso, e nem daquela gente. Logo no começo do show, fez um muxoxo e reclamou do eco e do ar-condicionado. Após tocar o clássico O Pato, disparou, irritado: “O pato sou eu!”. O público endinheirado começou a vaiar. João não se fez de rogado. Como se mostra na foto acima, mostrou a língua para a plateia e cantarolou: “Vaia de bêbado não vale, vaia de bêbado não vale...”.
Uma das mais comoventes músicas de Dorival Caymmi é o samba-canção Marina. A letra – meio machista, é verdade – narra a história de uma mulher que abusou da maquiagem a contragosto do amado. O companheiro então passa um sermão (quem dera todo sermão de marido ciumento fosse igual a esse), e termina com uma sentença fascinante: Desculpa, Marina morena, mas eu tô de mal.
Esse trecho sempre me chamou a atenção pela originalidade e pela docilidade, coisa rara em outros sambas. Outro dia descobri de onde veio a ideia. E não tem nada a ver com mulher. Numa tarde, Dorival estava indo para a rádio, e, por qualquer motivo, um dos filhos (talvez Dori) estava bravo com ele. O compositor mesmo assim seguiu para a rádio, quando o menino disparou: “Estou de mal”. A frase com cara aborrecida do filho ficou em sua cabeça.
À caminho da emissora, Dorival não pensava em outra coisa. É ele mesmo que narra: “Na rua, essa frase ficou martelando na minha cabeça: ‘Estou de mal, estou de mal, estou de mal…’. Enquanto ia à rádio, comprava umas coisas, andava nas ruas, a melodia e a letra foram se compondo em minha cabeça”. Ao fim do dia o clássico – que pode ser conferido no vídeo abaixo – estava pronto.
Havia um ano que Chico estava auto-exilado na Itália. Soube por um amigo que a situação por estas terras havia melhorado. Não foi o que viu quando desembarcou no Rio em 1970. O cenário era de censura, tortura e arbitrariedades promovidas pelo governo. A situação o inspirou a criar Apesar de Você, que sairia em compacto, com Desalento do outro lado. Era uma mensagem quase direta ao governo militar (e, não se sabe se disfarçando ou não, Chico diz que essa é uma de suas poucas músicas direcionadas à ditadura).
O compositor enviou a canção à censura sem muita esperança que fosse aprovada. Não se sabe como, mas a música voltou liberada e sem cortes. O compacto vendeu mais de 100 mil cópias em menos de um mês. Quando o governo se tocou que o “você” da letra poderia ser o presidente militar Emílio Garrastazú Médici, o refrão já estava na boca do povo: Apesar de você / Amanhã há de ser outro dia...
A polícia invadiu a gravadora. As cópias foram destruídas. O censor que liberou a letra foi punido. O compositor foi chamado para explicar quem era o “você” da canção. Chico saiu-se com essa: “É uma mulher muito mandona”. A partir daí, as composições do ex símbolo do bom-mocismo começariam a ser recebidas com má vontade especial pelos censores.
A canção tornou-se uma espécie de hino contra a ditadura militar. Numa carta a Vinicius de Moraes, Chico explicava com despojamento a experiência de gravar uma de suas primeiras músicas contra a ditadura.“Deu bolo como o Apesar de Você, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro”.
Por Natália Pesciotta Foi o cinema falado chegar no Brasil, no começo dos anos 1930, para os termos norte-americanos entrarem no vocabulário brasileiro. Atento à invasão de hellos e byebyes da nova potência mundial, Noel Rosa criou uma de suas obras-primas:O cinema falado é o grande culpado da transformação / Dessa gente que sente que um barracão prende mais que o xadrez / (…) Amor lá no morro é amor pra chuchu / As rimas do samba não são I love you / E esse negócio de alô boy, alô Johnny / Só pode ser conversa de telefone. O samba Não Tem Tradução criticava os estrangeirismos em nossa língua, e acabou atingindo o compositor Jurandyr Santos. Autor de Alô John e Bon Soir, o músico publicou carta aberta para Noel no jornal: “Você foi impiedoso. Não pôde, sequer, sopitar a revolta do seu espírito erudito, amigo das expressões castiças puras, e compôs Sem Tradução para esmagar seu pobre amigo”. Se desagradou Jurandyr, entusiasmou Orestes Barbosa, um xenófobo de primeira. Ele vivia a escrever na imprensa contra a falta de preocupação do povo com a cultura nacional e a invasão estrangeira na língua portuguesa. Entendia por estrangeirismo até o português de Portugal. Referindo-se ao verso “É brasileiro, já passou de português”, exclamou: “Esse sem-queixo é demais. Um gênio! A gente aqui escrevendo, escrevendo, e ele resume tudo em meia dúzia de palavras. Exatamente meia dúzia!” E completou, emocionado: “Eu trocaria toda a minha obra por um só verso deste samba”.
Festa na casa da família Menescal, Rio de Janeiro, 1957. Champanhe e rodas de bate-papo rolam na sala quando se ouve a campainha. Pensando tratar-se de mais um convidado, o jovem Roberto Menescal, então com 19 anos, atende a porta. Depara-se com um completo desconhecido: “Você tem um violão aí? Podíamos tocar alguma coisa.” O rapaz ficou sem reação, e o sujeito completou: “Eu sou João Gilberto. Quem me deu seu endereço foi seu professor de violão.” Menescal, então um violonista promissor, já tinha ouvido falar do baiano “meio louco, genial, afinadíssimo”. Convidou-o para o quarto do fundo. Postado num canto, João empunhou o instrumento e fez soar os primeiros acordes. Até que soltou a voz: É amor / hô-bá-lá-lá... O dono da casa ficou em estado de êxtase. Achou espetacular a maneira como a mão direita passeava pelas cordas. E a capacidade vocal, então? A voz soava como instrumento de alta precisão, ao mesmo tempo em que o canto surgia suave, natural, quase falado. Sem os pais perceberem, pegou João pelo braço e levou-o para conhecer Ronaldo Bôscoli, um de seus parceiros musicais. Mais apresentações, agora com a inclusão de Bim-Bom. Outro jovem boquiaberto. Segundo Ruy Castro emChega de Saudade, o grupo varou a madrugada - inclusive no famoso apartamento de Nara Leão - e parte do dia seguinte de casa em casa. Ninguém dormiu. Naquele momento começava a se formar o que seria conhecida como “a turma bossa nova”, todos seguidores desse novo mestre. Um ano depois, com a gravação do LPChega de Saudade, era a vez de o mundo todo conhecer a genialidade de João Gilberto.
"Quem gosta de miséria é intelectual. Pobre gosta de luxo.” A célebre frase de Joãosinho Trinta foi a forma de responder aos críticos, que reclamavam dos gastos excessivos para promover os desfiles da Beija-Flor. No Carnaval de 1989, porém, o carnavalesco resolveu surpreender. Sob o enredo Ratos e Urubus, Larguem a minha Fantasia, a intenção era denunciar a hipocrisia reinante e a miséria da população brasileira.
As alas seriam formadas por gente da rua: mendigos, prostitutas, desvalidos de toda espécie. As fantasias deveriam ser feitas com materiais encontrados nos lixos. O carnavalesco conclamou: “Este enredo é um protesto. Protesto a esta grande maldade que estão fazendo com a nossa terra, com a nossa gente, com o nosso Brasil. Nós sabemos fazer carnaval: é o nosso ofício. E que seja através dele que a gente proteste”.
O carro abre-alas traria uma grande imagem do Cristo Redentor. Com um detalhe: vestido apenas com trapos, como se fosse um mendigo. Só que o arcebispo dom Eugênio Sales não gostou nada da história. O religioso entrou na Justiça e conseguiu a proibição do uso da imagem. Decepção e nervosismo na escola. Até que, na véspera do desfile, alguém deu uma sugestão melhor do que a ideia original: cobrir a estátua com rústicas lonas pretas. E a inscrição: “Mesmo proibido, olhai por nós”.
A entrada da Beija-Flor na avenida foi considerada um dos momentos mais impactantes do Carnaval carioca. Burburinho do público, espanto com o enorme saco preto que escondia a imagem do Cristo. Ladeando o carro abre-alas, mendigos com roupas esfarrapadas. Até que a plateia, deslumbrada, começou a entoar o cântico vindo do intérprete: Sai do lixo a nobreza / Euforia que consome / Se ficar o rato pega / Se cair urubu come. A cada ala, críticas sociais: da Igreja Católica às guerras, do desperdício de comida aos políticos. Tudo sem luxo. Só lixo e talento, criando um momento único e apoteótico da história dos desfiles carnavalescos.
Joãosinho Trinta tornou-se assunto no País todo. Ninguém tinha dúvidas de que a escola de samba se sagraria campeã. No dia da apuração, porém, a Beija-Flor terminou empatada com a Imperatriz Leopoldinense. Por três notas de desempate, teve de amargar a segunda colocação.
No desfile das campeãs, uma semana depois, Joãosinho fez questão de levar ainda mais mendigos para as alas. Sobrou provocação. O carnavalesco levou bonecos de três judas, representando os jurados que concederam notas baixas ao desfile da escola de Nilópolis. E, a pedido do público, os componentes retiraram – por conta própria – a lona preta que cobria o Cristo mendigo.
Um dos grandes amores da vida de Nelson Cavaquinho era Ligia, uma mulher sem-teto que dormia aos pés da estátua de dom Pedro 1º, na praça Tiradentes, centro do Rio. Os dois costumavam ficar horas conversando, tomando cachaça, ali, sentados à beira da escultura. Não raro adormeciam, só acordando com os raios do sol - ou sob a ordem de algum policial mal-humorado.
A fascinação de Nelson pela mulher chegou a tal ponto que o compositor resolveu tatuar o nome Ligia em seu ombro direito. Na mesma época o parceiro Guilherme de Brito havia feito o samba Tatuagem: O meu único fracasso / Está na tatuagem do meu braço... Ele fez a canção como uma forma de reclamar do preconceito que sofria da polícia e de muitas pessoas pela tatuagem que também levava no corpo, um índio em um dos braços. Um dia tentou até apagá-la esfregando castanha de caju no local. Só serviu para deixar o índio com uma cicatriz na testa.
Como os dois compositores tinham um acordo, Nelson entrou como parceiro da música, além de um tal Paulo Gesta. O compositor viu na letra uma forma de homenagear a amada, uma mulher que levava uma vida dura e sofria preconceito de tudo o que é lado. Já para Guilherme, era para reclamar da discriminação que ele próprio sofria. Não importa. O último verso cabe para os dois casos: Muita gente tem o corpo tão bonito / Mas tem a alma toda tatuada.