7 de janeiro de 2006

Agora Falando Sério X Paratodos

A música sempre me deu alento pra maioria dos meus momentos importantes. Terminei o namoro? Não tem problema, afinal “o amor não tem pressa, ele pode esperar”. E já ficava mais calmo. Muitas brigas antes de terminar? Era só ouvir “Prometo te querer até o amor cair doente, doente. Prefiro então partir, a tempo de poder, a gente se desvencilhar da gente” e tudo se amenizava. Me achava todo errado? Então “Quando eu nasci veio um anjo safado, o chato do querubim” e ficava tudo uma beleza.

Pois bem. Há uns dois anos ouvi uma música do Chico Buarque, o maior fornecedor de alentos que conheço, chamada Agora Falando Sério (1969). Nela, Chico renega as próprias letras que escrevera. E afirma, categoricamente, que as letras de músicas são ‘uma mentira’ e não afastam mal algum. Ó a música aí embaixo (com notinhas entre parênteses):

Agora falando sério (como se tudo que havia escrito antes fosse brincadeira ou 'sacanagem')
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá (em referência a Sabiá, a música que ele fez com Tom Jobim)
Dou um fora no violino
Faço a mala e corroPra não ver a banda passar (A Banda!)

Agora falando sério
Eu queria não mentir (humpf!)
Não queria enganar
Driblar, iludirTanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal?
O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal
Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu prédio
Pedindo pra eu cantar
Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério
Agora falando sério
Preferia não falar
Falando sério

Primeiro fiquei triste. Pensando... “Porra, ele faz pouco caso do que ele próprio escreveu, por que eu vou gostar?”. Depois quis mais que se f#¨%#@ e continuei tomando posse das letras buarquianas pra mim (como quase todo mundo que o ouve, acredito).


Dois anos depois, enfim prestei atenção numa música e tive minha ‘vingança’. Fornecida pelo próprio compositor. Precisou de 24 anos, mas ele fez o favor de se contradizer (ou de se corrigir) ao escrever Paratodos (do disco homônimo, 1993).

Lá ele exalta a todos que usem a música contra todos os males. 'Creia, ilustre, cavalheiro. Contra fel, moléstia, crime. Use Dorival Caymmi, vá de Jackson do Pandeiro'.

Pra aumentar minha satisfação, ele continua com os imperativos: 'Fume Ari, cheire Vinícius,beba Nelson Cavaquinho'.

O arrependimento inconsciente (vindo dele, pode até ter sido consciente) deve ter sido grande, porque a exaltação à importância da música segue: 'Para um coração mesquinho contra a solidão agreste, Luiz Gonzaga é tiro certo, Pixinguinha é inconteste'.

Pronto! Agora tudo se ajeitou. Tudo bem que, em 1969, devia ser insuportável tocar pela enésima vez A Banda e manter aquela imagem de bom-moço. Foi um ato de rebeldia. Mas, agora falando sério, sou mais o Chico paratodos (por que eu sempre termino meus textos com um trocadilho ridículo?).

5 comentários:

Liginha disse...
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Liginha disse...

Nao só isso! Vc sempre termina seus textos de uma forma genial, mas nunca com o mesmo que eu usei no meu, pô!!
Agora 'falando sério', seu texto está sensacional, lindo!
Li

GaBi disse...

vê se pode, tem censura nos comentários? tudo bem, eu tomo cuidado.
Bruninho, essa música também me chamou atenção, já notou a agressividade na voz dele e o tom de faroeste que tem a música? parece que a qualquer momento ele vai sair dando tiros nos seus fãs mais incondicionais.
acho que nesse caso seríamos um dos primeiros, hein?
hehehehe
concordo com você, essa música deve ser mais um desabafo para aquelas pessoas que acham que ele é assumidade em tudo que faz. não é bem assim, sempre existe uma "Banda" ou uma "Carolina"... :)
que bom esse blog.
vou frequentar!
beijo beijo beijo

GaBi disse...

my díar, só pra constar que a empolgação do momento me fez cometer uma injustiça, não foi você quem apagou o comentário, foi o autor... isso quer dizer que: ou você tem uma admiradora platônica, ou o cara ia meter a boca no Chico e desistiu (para seu próprio bem)!
isso aqui vai ser divertido... hahaha. um beijo!

Anônimo disse...

Cara....achei essa postagem depois de dois anos e meio q vc a publicou...mas parabéns pelo comentário. A sua viagem em Chico é a mesma q a minha, eu piro nas letras...a cada dia eu me aprofundo mais.
Agora aos comentários: concordo q "Agora falando sério" foi um desabafo, mas "Paratodos" acho q foi uma homenagem e talvez uma coincidência oposta, mas se tratando de Chico ñ da pra duvidar de nada...o q passa na cabeça do cara é absurdo! Mas foi ótimo seu paralelo.
Outra coisa, na letra q vc colocou tem um erro, q é numa das principais partes da música, acho q na parte mais genial dela...vc colocou "...e o síndico do meu prédio...", ñ é isso, é: "...e o síndico do meu tédio...". Mas tudo bem, ñ tem problema...rsrs
É legal saber q tem gente q viaja nas mesmas coisas (vi nos comentários de seus amigos tb). Vocês são de São Paulo? Bom, vocês devem conhecer o Roda Viva Bar né, enfim, só pra constar...rs

abraço,
Lincoln
(lincueda@hotmail.com)