17 de novembro de 2010

Música de preto e sobre preto (2): "Dona Ana fez de mim um homem, não uma puta"

O candidato Netinho de Paula (que levou meu voto) recebeu muitas críticas durante as eleições ao Senado em 2010. Algumas justas, como ter agredido sua mulher e acusações de não pagar direitos trabalhistas. Outras totalmente preconceituosas. Uma das que ouvi: "Netinho ficou rico e esqueceu a periferia. Aposto que se sente branco. Foi morar em Alphaville e pouco se importa com a quebrada".

É puro racismo. Enquanto os negros pobres que ascendem socialmente têm a "obrigação" de se preocupar a vida toda de onde vieram, aos brancos é propagado um mantra: "Suba na vida, suba na vida, suba na vida!". Ninguém acusa Silvio Santos de ter enriquecido e esquecido dos amigos camelôs. Pouca gente está preocupado se Samuel Rosa, Arnaldo Antunes, Dinho Ouro Preto, Tico Santa Cruz etc tinham origem pobre. Pior ainda quando já se é sabido que a pessoa era rica de infância. Sobre Luciano Huck, branco e rico desde pequeno, não se põe nenhum peso de ter de se preocupar com as questões sociais. Ele tem passe livre para a explorar a miséria humana até não poder mais em quadros como o Agora ou Nunca. O quadro é um caldeirão indigesto, numa humilhação sem fim para um pobre coitado levar 10 mil reais para casa. Huck pode morar em Alphaville à vontade. Tem todo o direito de ter quantos Audis quiser na garagem. Netinho, não. Ter nascido preto e periférico é uma marca que o cantor levará para o resto da vida.

Para que toda esta introdução? Para analisar um dos desabafos mais sinceros e fortes da música brasileira, vinda de um preto pobre que "subiu na vida": a música Jesus Chorou, escrita por Mano Brown, líder dos Racionais, principal grupo de rap do Brasil - e, para mim, o grupo contemporâneo mais talentoso e genial.

A música faz parte do disco Chora Agora, Ri Depois e o CD todo me soa como um desabafo contra os "zé povinho" (como Brown diz), que são as pessoas que o acusam de ter se tornado rico e desprezado a região de onde veio. Ao ganhar notoriedade e dinheiro, Brown parou de receber unicamente manifestações preconceituosas dos brancos de classe média, mas também pelos moradores da periferia. É como se um preto e pobre não tivesse para onde correr.

Jesus Chorou dá uma demonstração sem máscaras das inquietações, contradições e solidão de Brown. Por ser negro, por ter vindo da periferia, por ter se tornado um sujeito com dinheiro. O cantor, que sempre usou as questões raciais em suas músicas, agora se vê num paradoxo. Como uma frase que vez ou outra surge por aí: "Fala de pobreza mas tem Audi?".

Nos primeiros minutos da música é reproduzido um telefonema entre Brown e um amigo, que avisa ter encontrado um sujeito que diz: Esse Brown aí é cheio de querer ser / Deixe ele moscar e vir cantar na quebrada / Vamos ver se é isso tudo quando ver as quadradas / Periferia nada, só pensa nele mesmo / Montado no dinheiro, e cês aí no veneno. Num misto de indignação e preocupação, Mano Brown defende-se: Amo minha raça / Luto pela cor / O que quer que eu faça é por nós, por amor. Para depois disparar, num verso seco e irrefutável: Dinheiro é bom, eu quero sim / Se essa é a pergunta / Mas dona Ana fez de mim um homem, não uma puta.

A música segue com a mesma aflição e com grandes versos, como quando um sujeito dita a Brown como ele deve agir: Famoso pra caralho, durão, xi, truta / Faz seu mundo, não, jão / A vida é curta / Só modelo dando boi / Põe elas pra chupar e manda andar depois. Arrisco dizer que o último verso da música resume sua inquietação diante deste cenário opressor: Lágrimas...

Bem, é melhor ouvir Brown do que me ler. Segue no vídeo abaixo. Mas a pergunta que fica: já é possível a um negro ser rico em paz no Brasil? Já dá pro lugar natural deles não ser apenas a periferia, sem que haja nenhum ônus por isso? Jesus Chorou deixa dúvidas.

Ah, claro, não vale o Pelé...

2 comentários:

Douglas disse...

Poderia continuar a interpretação com a parte que a mãe lhe dá conselhos, desacreditando dos pretos:" - Paulo acorda, pensa no futuro que isso é ilusão,
os proprio preto não tá nem ai com isso não,
olha o tanto que eu sofri, que eu sou, o que eu fui,
a inveja mata um, tem muita gente ruim.
-Pô mãe não fala assim que eu nem durmo"

Carol disse...

Oi Bruno,

Bastante interessante a abordagem. Pobre do Netinho. Não acho que tenha sido bonito ele ter dado um sapeca iaiá na mulher, mas pegaram muito pesado com ele e não só por isso.

Sobre o Brown, o cara é gênio. E acho legal que o grupo tenha assumido que o dinheiro é muito bom, sim, como o fez nesse último disco. Aliás, acho que é o melhor da carreira deles. Romperam com a hipocrisia de dizer que dinheiro não presta.

É isso!

Bem bacana o blog.