Há poucos anos, Caetano Veloso causou uma certa polêmica ao afirmar que Feitiço da Vila, de Noel Rosa e Vadico, era uma canção racista. Me dou a mesma liberdade do compositor baiano para sugerir que outro grande nome da música brasileira, Vinicius de Moraes, também deixou a desejar algumas vezes sobre o tema racial. Veja: não estou dizendo que Vinicius era racista. Mas, por mais estranho que a afirmação soe inicialmente, me parece ser alguém bastante lugar-comum sobre o tema. E ser lugar-comum na questão por estas terras é ser racista.
A minha “prova” é uma entrevista que o Pasquim fez com Paulinho da Viola em agosto de 1970. Em dado momento, bem no começo da entrevista, o escritor Luiz Carlos Maciel pergunta a Paulinho, lembrando-se de uma entrevista recente com o poeta e compositor Capinam:
Maciel - Na entrevista com Capinam, ele disse que o Gilberto Gil era o primeiro cara que fazia música negra no Brasil. O que é que você acha dessa opinião?
Paulinho - Eu acho que a Clementina de Jesus faz música negra.
Eis que Vinicius intervém. Um dos inventores da bossa nova - estilo conhecido por ser dos brancos da zona sul do Rio de Janeiro - sentencia que falar sobre música negra se trata de “racismo musical”. E que Gilberto Gil teria uma "natureza racista". Já Paulinho tenta contemporizar, mas não deixa de afirmar a importância da valorização da cultura negra. A entrevista se desenrola assim:
Vinicius - O jazz branco é caudatário [simpatizante] da música negra, mas depois se misturou tudo, não há uma separação de música branca e música negra. Isso é racismo musical. O que eu quero dizer é o seguinte: eu acho o Gil um tremendo compositor, mas ele tem esse racismo, então isso se manifesta através da música dele. Eu acho que é um problema da natureza dele.
Paulinho - Você vê alguma conotação de racismo no momento em que se levantam certos problemas de uma estética negra, por exemplo?
Vinicius - Não vejo desde que não seja levantado nos termos dos Panteras Negras americanos, aí é racismo negro mesmo.
Paulinho - Você não acha que esse negócio dos Panteras Negras tem um peso que coloca em segundo plano esse problema do racismo?
Vinicius - Nunca houve um ser mais humilhado que mulher e nem por isso elas são racistas.
Paulinho - Eu acho que aí há um negócio diferente. No momento em que você tenta fazer certas afirmações em termos de uma cultura negra, de certos valores negros, e tenta afirmar isso como valores absolutos, como uma coisa que tem que ser porque não foi, eu acho que é racismo. Mas no momento em que ele tenta afirmar seus valores, o negócio do racismo fica em segundo plano.
Vinicius - Eu acho que quanto mais o negro se aproximar de uma cultura, menos racista ele deve ser. É a cultura que aproxima as pessoas e resolve os problemas. Até agora não tem resolvido nada, mas nossa esperança é que resolva.
Paulinho - Essa afirmação desses valores que você entende como uma posição racista, ela é racista até certo ponto. Dependendo das proposições, das coisas que estão acontecendo, ela até pode ser uma posição válida e importante, ela pode não ser uma posição racista.
Eis que Vinicius encerra a discussão com “chave de ouro”:
Vinicius - Eu acho que o grande problema do racismo se resolve na cama, sabe?
A partir desse ponto a conversa toma outro rumo, sem explicitar o que Vinicius quis dizer com “resolver o racismo na cama”.
Mas as evidências não param por aí. A minha amiga e pesquisadora sobre relações raciais Lia Vainer Schucman recentemente me chamou atenção, indignada, sobre os versos finais de Samba da Bênção, em que o poeta versa sobre o samba: Se hoje ele é branco na poesia / Ele é negro demais no coração. Ou seja, a poesia, a parte intelectual, reclamou Lia, para Vinicius ficava sob responsabilidade dos brancos. Já aos negros cabiam apenas o lado emocional.
Não é pouca gente que conheço que afirma ver no poeta não um exaltador da cultura negra, mas sim um folclorizador. Se essas frases da entrevista viessem da boca de qualquer outro sujeito do Pasquim, seria mais fácil entender. Falar essas coisas eram de certo modo naturais na década de 1970. Mas é difícil aceitar vindo do “branco mais negro do Brasil”.











