“Chega de bossa nova. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é a expressão do povo.” Desse modo Nara Leão marcou o rompimento com a bossa numa entrevista à revista Fatos & Fotos, em 1964. A ex-musa do movimento passou a se aproximar dos sambistas de morro, ou “dos artistas populares genuínos”, como definia. Esse encontro está registrado no disco Opinião de Nara e na foto acima, enquanto aprendia os sambas de Zé Keti e Nelson Cavaquinho em seu famoso apartamento de Copacabana.18 de fevereiro de 2010
Nara foi atrás dos "artistas populares genuínos"
“Chega de bossa nova. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é a expressão do povo.” Desse modo Nara Leão marcou o rompimento com a bossa numa entrevista à revista Fatos & Fotos, em 1964. A ex-musa do movimento passou a se aproximar dos sambistas de morro, ou “dos artistas populares genuínos”, como definia. Esse encontro está registrado no disco Opinião de Nara e na foto acima, enquanto aprendia os sambas de Zé Keti e Nelson Cavaquinho em seu famoso apartamento de Copacabana.26 de janeiro de 2010
(quase) Exclusivo! João Gilberto na casa de Chico Pereira
Pouco antes da gravação do antológico Chega de Saudade (1958), disco que começaria a consagrar João Gilberto, o baiano gravou 36 canções na casa de Chico Pereira - que viria a ser o fotógrafo das melhores capas de discos da bossa nova.
Em clima descontraído, quase de sarau, João Gilberto entoa músicas como O Pato, Lá Vem a Baiana e Doralice. Além de clássicos nunca gravados em disco. João Valentão é um exemplo. A cantoria por vezes é interrompidas para rápidos bate-papos, que demonstram o caráter informal do encontro.
Abaixo, quatro registros desse documento histórico:
Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
Chão de Estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa)
João Valentão (Dorival Caymmi)
Lá Vem a Baiana (Dorival Caymmi)
21 de janeiro de 2010
O cantor das despedidas
Após décadas de sucesso nacional, nos anos 1960 Sílvio Caldas resolveu se afastar da música. Anunciava: “Esta é a minha última apresentação”, e fãs às lágrimas exigiam que mudasse de ideia. E mudava. De tanto a situação se repetir, ganhou a alcunha de “cantor das despedidas”.11 de janeiro de 2010
Samba e amor
8 de janeiro de 2010
Um compositor de ouro
Ele escreveu a última linha da canção e, sentindo que tinha feito algo fora de série, entrou em êxtase. Caprichou na harmonização e mostrou a novidade ao parceiro Benedito Lacerda. A reação foi decepcionante. “Olha, meu compadre, tá muito bonito, viu, muito bonito. Essa é uma música ótima pra você cantar na igreja. Nunca vai tocar no rádio.” A despeito da previsão, Ave Maria no Morro, lançada em 1942, é um dos maiores sucessos da música brasileira. Inaugurou até um estilo musical, o samba-canção: Barracão de zinco / Sem telhado, sem pintura / Lá no morro / Barracão é bangalô / Lá não existe felicidade de arranha-céu / Pois quem mora lá no morro / Já vive pertinho do céu…Herivelto Martins nasceu em 30 de janeiro de 1912 no distrito de Rodeio, atual Engenheiro Paulo de Frontin, no interior Fluminense. Estimulado pelo pai, agitava a cidade com grupos teatrais e musicais. Mas a família mudou para São Paulo. Com a maioridade recém-completa, o rapaz partiu para o Rio. Queria ser artista.
Preto e Branco
O começo na Cidade Maravilhosa não foi fácil. Teve que dividir um quarto minúsculo com sete companheiros. “Só melhorou com a Revolução de 1932: morreram quatro”, brincava. Fazia bicos aqui e acolá quando recebeu um convite para ser gerente de uma barbearia no morro de São Carlos. Aceitou com uma condição: “Tenho que sair de vez em quando, pois sou artista”.
Com o novo emprego, poderia estar perto do pessoal do Estácio, os malandros cariocas que faziam os melhores sambas da cidade. Era um dos poucos compositores brancos a pintar por lá. Numa dessas andanças pelo bairro, foi convidado a assistir a um ensaio. Quando surgiu uma brecha, apresentou Da Cor do Meu Violão. Um produtor que estava por lá ouviu, gostou e mandou gravar. Era sua primeira música em disco.
Herivelto passou a compor sem parar: tangos, marchas, sambas. Mostrava-se um compositor eclético. E frenético: “A rapidez com que componho às vezes surpreende a mim mesmo”. Após um ensaio, fez um coro informal com o cantor Francisco Sena. Outro produtor viu e adorou. Procurava uma atração para apresentações no Cine Odeon. Nascia a dupla Preto e Branco. Mas o parceiro morreu prematuramente. Herivelto seguiu sozinho até conhecer Nilo Chagas, com quem reviveu a dupla. Nessa época conheceu também alguém que mudaria a sua trajetória.
Trio de Ouro
Herivelto ficou maravilhado ao ouvir o canto técnico e poderoso de Dalva de Oliveira. Logo se tornaram parceiros nos palcos e na vida. Casaram-se em 1938, e o grupo ganhou uma nova integrante. Um radialista anunciou: “Vamos ouvir agora Dalva de Oliveira e a dupla Preto e Branco, um trio de ouro”. Surgia o nome do primeiro – e melhor – trio vocal brasileiro.
Em quase 10 anos de sucesso, o Trio de Ouro lotou cassinos, teatros e auditórios de rádio. As músicas de Herivelto tornaram-se clássicos: Praça Onze, Lá em Mangueira, Calado Venci.
Além, claro, de Ave Maria no Morro – apesar das reclamações de um cardeal, que dizia que a canção era uma heresia e exigia que fosse censurada.
Em 1942, Herivelto assumiu a função de assistente do diretor Orson Welles, que viera ao País produzir o filme É Tudo Verdade. Para organizar os músicos, deu-lhe na cabeça usar um apito. Benedito Lacerda novamente fez um muxoxo: “Parece guarda-civil”. Dali nascia o uso do apito como elemento rítmico, principalmente nas escolas de samba.
“Seu mal é comentar o passado”
Enquanto o Trio de Ouro fazia sucesso Brasil afora, as brigas conjugais chegavam a níveis insuportáveis. Em 1947 viria a dolorosa separação. Os jornais se deliciavam com a briga pública do casal mais famoso do País. “Boa cantora, péssima esposa”, dizia Herivelto a um jornal. “Meu lar era um botequim”, devolvia Dalva.
A coisa esquentou quando a briga invadiu as músicas. Enquanto Dalva cantava Errei, sim/ Manchei o teu nome / Mas foste tu mesmo o culpado / Deixavas-me em casa / Me trocando pela orgia / Faltando sempre / Com a tua companhia (Errei, Sim, de Ataulfo Alves), Herivelto respondia: Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois… O público adorava.
O Trio de Ouro continuaria com novas formações. Durante a existência, gravou 99 discos com quase 200 músicas.
Homenagens
A chegada dos anos 1960 foi quase uma sentença de morte para Herivelto. O afã por mudanças que assolava a música brasileira o colocou num segundo plano. Os convites para apresentações rareavam. “O rock matou a música popular”, lamentava.
Em 1987, recebeu o Prêmio Shell pelo conjunto da obra. A grande homenagem viria em 1992. A Mangueira – que Herivelto tanto homenageou em canções – preparou, de surpresa, uma apresentação na frente de sua casa: surdos, tamborins, cuícas… Herivelto não hesitou. Pegou um apito e, completamente emocionado, marcou o ritmo da festa.
Em setembro daquele mesmo ano sentiu-se mal. No leito do hospital, teve tempo ainda de anunciar: “Estou morrendo”. E seus olhos azuis fecharam-se para sempre.
3 de dezembro de 2009
"Você vai se quiser..."
Ao saber do casamento de um primo, Noel Rosa mandou o recado: “Meu querido primo Jacy, um abraço! Quero com ele dar os meus pêsamos pelo seu casamento”. Amante da liberdade e da vida boêmia, contrair núpcias não figurava entre as prioridades do jovem sambista. Chegou até a compor Capricho de Rapaz Solteiro, na qual ensina: A mulher é um achado / Que nos perde e nos atrasa / Não há malandro casado / Pois malandro não se casa.Aos 23 anos, porém, ele teve um rápido relacionamento com Lindaura, então menor de idade. Não esperava que a mãe da moça fosse reclamar com o delegado: “Noel raptou minha filha!”. A condição para não abrir o inquérito era que ele se casasse com Lindaura. Noel chegou a dizer que preferia a cadeia mas, depois de muito bafafá, acabou cedendo. Na foto, tirada em 1º de dezembro de 1934, demonstra toda a satisfação por entrar no time dos casados.
É bom lembrar: Ceci foi a inspiradora de muitos sambas geniais de Noel. Já Lindaura é a “musa-inspiradora” de apenas esse: Você vai se quiser / Pois a mulher não se deve obrigar a trabalhar / Mas não vai dizer depois / Que você não tem vestido / Que o jantar não dá pra dois...
26 de novembro de 2009
27 de outubro de 2009
Um sambista de calçada
samba”. Poucos, com a sua ginga e carioquismo, foram tão a cara dos subúrbios cariocas, dos sambas feitos em mesas de lata. Ele mesmo se definia: “Não sou nem do morro e nem do asfalto. Sou um sambista de calçada”.Foi assim desde pequeno. João Batista Nogueira Júnior nasceu em 12 de novembro de 1941 no Méier, subúrbio da zona norte do Rio. O menino vivia solto pelas ruas, sempre pronto para aprontar uma molecagem com os vizinhos. Mas bastava um olhar de desaprovação do pai para ficar quietinho. O homem sério, severo, mas nunca agressivo, era o grande ídolo do pequeno João. “Quando eu acordava e o via, era como se estivesse vendo Deus”, diria, décadas mais tarde.
Foi com o pai, violonista dos bons, que João começou a pegar gosto pela música. As visitas que a casa recebia ajudavam o projeto: Pixinguinha, Donga, João da Baiana. Mas quando tinha apenas 10 anos, o pai morre. Um baque para o menino, que teve que sair para trabalhar: office-boy, vitrinista, bancário.
A diversões eram as rodas de música nos botecos do bairro – já compunha, mas sem pretensão profissional. Os blocos carnavalescos também o animavam, em especial o Labaredas do Méier, do qual começou a se aproximar aos 17 anos. João ganhava todos os concursos para a escolha de sambas – a disputa até perdia a graça. Nessa época, gravou o primeiro disco, um compacto que não rendeu repercussão alguma.
Um dos que perceberam que o menino era bom de fato foi Paulo Valdez, filho da cantora Elizeth Cardoso. Ao ouvir mais um belo samba, sugeriu que fosse falar com Elizeth – afinal, ela estava pra gravar um disco. João não levou muito a sério: “Eu achei que fosse papo de quem tá de porre e promete tudo. Imagina, ter uma música gravada pela Divina...”. Não era, e por sorte o encontro foi marcado. No elepê Falou e Disse, ela soltava a voz em Corrente de Aço. Logo depois, João conseguiu entrar para a ala de compositores da Portela. A carreira começava a deslanchar.
Sendo samba, João entendia
A partir dos anos 1970, começou a lançar um disco atrás do outro, nos quais se destacava seu estilo original, sincopado, difícil de classificar. Os sambas de João tudo continham (às vezes ao mesmo tempo): partido alto, bossa, samba tradicional, de exaltação, seresteiros, afro-sambas. As letras também eram dos mais diferentes tipos. Começou a se aproximar de novos parceiros. O mais contante seria Paulo César Pinheiro. Com ele gravou, em 1975, o maior sucesso da música brasileira daquele ano: Mineira, em homenagem à cantora Clara Nunes, que era casada com Paulo.
Outra canção com o parceiro preferido tornaria-se a mais emblemática da carreira: Espelho, na qual relembra com extrema beleza a infância suburbana e a figura do pai: Num dia de tristeza me faltou o velho / E falta lhe confesso que ainda hoje faz... Em 1983, com a morte de Clara , ainda faria em parceria com Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte a canção Um Ser de Luz. “Éramos os maiores parceiros dela. Cada vez que a gente se encontrava para terminar a música era um derramar de lágrimas”.
Clube do Samba
“Em 1979 não se ouvia música brasileira no Brasil”, dizia João Nogueira. No fim daquela década, as rádios estavam infestadas pela música de discoteca, influenciada pelo filme Embalos de Sábado À Noite e pela novela global Dancing Days. Os sambistas passavam um perrengue danado pela falta de lugar para gravar e se apresentar. Engajado, João decidiu criar um local onde os artistas poderiam discutir sobre música e mostrar obras novas – e antigas também. Surgia o Clube do Samba.
A primeira reunião ocorreu no quintal da própria casa. Mais de 100 artistas marcaram presença. Entre eles, Martinho da Vila, Clementina de Jesus e Nelson Sargento. Um verdadeiro quartel-general em defesa da cultura brasileira. A primeira música tocada pelo presentes não poderia ser mais precisa: Samba, agoniza mas não morre / Alguém sempre me socorre / Antes do suspiro derradeiro... O Clube do Samba existe até hoje, e desfila durante o carnaval pela avenida Rio Branco.
Na avenida
Em 1984, houve um movimento de dissidência da Portela motivado por diferenças de alguns integrantes com o presidente Carlinhos Maracanã. Um grupo criou a escola de samba Tradição. João Nogueira e Paulo César Pinheiro foram chamados para ser os compositores dos sambas-enredos. Melhor impossível. Em apenas três anos, numa subida meteórica, a escola saiu do grupo II-B (algo como a quarta divisão) para o Grupo Especial.
Durante os anos subsequentes, João não pararia de lançar discos e de viajar pelo País em apresentações concorridas. Quando estava prestes a lançar o 19º elepê, sofreu um enfarte em casa. Seu samba emudecia. Com ele morria um estilo único.
Na marcha pelas alamedas do cemitério, a pequena multidão soltou, em uníssono, um derradeiro e comovente canto de despedida, lembrando-se da música que João havia feito para Clara 17 anos antes: Sabiá / Que falta faz sua alegria / Sem você / Meu canto agora é só melancolia / Canta, meu sabiá / Voa, meu sabiá / Adeus, meu sabiá / Até um dia...
12 de setembro de 2009
Noel e o Bando de Tangarás
Eis o único registro audiovisual de Noel Rosa. Ele apresenta, ao violão, o ótimo lundu Vamos Falá do Norte, como integrante do Bando de Tangarás.
O grupo era formado por Noel, Henrique Brito, Alvinho e dois dos grandes nomes da música popular: Almirante (no vocal) e Braguinha.
Na época ninguém era famoso. O Bando de Tangarás fazia questão de se manter no amadorismo. Mesmo assim, em quatro anos de existência, gravou 34 discos com 63 músicas ao total.
Destaque para Na Pavuna, de 1930. É a primeira canção da música brasileira a ser gravada com instrumentos de percussão.
4 de agosto de 2009
O vulcão Tim Maia
Capaz de gestos nobres e de brigas homéricas, Tim Maia não era um sujeito fácil de lidar. É o pai da soul music brasileira, e apresentou ao País uma sonoridade jamais ouvida por estas terras. Era perfeccionista, e levava à loucura os músicos e os técnicos de som, que não conseguiam acompanhar a sua genialidade musical. Faltava a shows, xingava a plateia, entrava em seitas malucas. O Brasil, em resposta, só conseguiu amá-lo. Com razão. Ele mesmo se definia: “Sou o gordinho mais simpático da Tijuca”. E, para muitos, tornaria-se o gordinho mais simpático do Brasil. E ia além: o mais talentoso, o mais generoso, mas também o mais briguento, o mais explosivo, o mais corrosivo, o mais auto-destrutivo. O senso-comum não seria capaz de compreender o vulcão Tim Maia.
Sebastião Rodrigues Maia nasceu em 28 de setembro de 1942 numa numerosa e religiosa família de 12 filhos do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro – chegou a ser, a contragosto, coroinha da paróquia local. Caçula, era o mais paparicado de todos. Foi o único a ganhar uma bicicleta quando completou 12 anos.
Mas o que lhe interessava desde cedo era a música, inspirado no rock norte-americano que ouvia no rádio: Elvis Presley, Little Richard, Chuck Berry. Criou bandas, e todas acabaram por brigas durante os ensaios. Não era fácil acompanhar o temperamento e o perfeccionismo de Tião.
Em 1957 formou um quarteto, O Sputnik. Chamou dois amigos próximos. Para completar, um dos amigos lhe apresentou um capixaba que, diziam, cantava bem: Roberto Carlos.
O grupo conseguiu se apresentar no programa Clube do Rock, da TV Tupi, comandado por Carlos Imperial. Não passaria daí. Nos bastidores, Roberto disse a Imperial que sabia imitar Elvis, e Tião – numa mistura de raiva e boa dose de ciúme – não gostou nada daquilo. E O Sputinik acabava antes de alçar voo. Ainda conseguiu receber um conselho de Imperial: “Mude seu nome para Tim”.
O pai do soul brasileiro
Em 1959, com 12 dólares no bolso, decidiu se mandar para os Estados Unidos. Lá ganhou intimidade com a música negra americana, formou a banda The Ideals, trabalhou até como babá e experimentou maconha pela primeira vez. Também foi preso por roubar um carro para viajar pelo país. Voltou em 1964, já com as ideias bem definidas sobre a soul music.
Em terras brasileiras, gravou um compacto com músicas em inglês, e a repercussão foi parecida com nada. Os ouvidos ainda não estavam preparados para a novidade. Numa apresentação, se juntou à turma da Jovem Guarda. As garotas, acostumadas com as baladinhas dos rapazes brancos de boa-família, se assustaram com a figura mal-encarada que surgia no palco. Ainda mais cantando em inglês. Aplausos xoxos, que seriam substituídos por gritos histéricos ao ser anunciada a próxima atração, Erasmo Carlos. Tim, sabedor do seu talento, chorou no banheiro.
Ele também tinha grande complexo pela sua aparência física. Em 1968 hospedou-se na casa de dois amigos, um músico, outro empresário. Eles eram boa-pinta, e os brotos não saiam de lá. Todas para eles, nenhuma para Tim, que ouvia, triste, a diversão alheia pela parede do quarto. Numa ocasião, quase chorando, compos a sua melhor música: Ah! Se o mundo inteiro / Me pudesse ouvir / Tenho muito pra contar / Dizer que aprendi / E na vida a gente / Tem que entender / Que um nasce pra sofrer / Enquanto o outro ri. “Mermão! Tu acabou de fazer a música da tua vida”, comemorou um desses amigos.
As coisas começariam a mudar quando Roberto lhe pediu uma música mais cafajeste, mais soul, sem se assemelhar às baladinhas da Jovem Guarda. E nasceu Não Vou Ficar: Há muito tempo eu ouvi calado / Mas agora resolvi falar / Não tem mais jeito, tudo está desfeito / E com você não posso mais ficar, não. Na mosca.
Também entrou em estúdios com Elis Regina. E, em 1970, lançou o primeiro elepê solo. A música João Coragem entrou na novela homônima, da TV Globo. E o soul começava a cair no gosto popular.
Na esteira vieram mais três discos, com sucessos como Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar) e Gostava Tanto de Você. Até que uma seita cruzou o seu caminho.
Universo em desencanto
Em 1975 Tim folheou, à toa, um livro que estava sobre a mesa de um amigo. Ficou maluco sobre as coisas que estavam escritas. Anunciou que tinha descoberto toda a verdade sobre a existência. “Nós somos originários de um planeta distante e perfeitos e estamos na Terra exilados”. Era parte da doutrina do Universo em Desencanto.
A seita, comandada por seu Manoel Jacintho, pregava que os adeptos não podiam beber, usar drogas, comer carne vermelha e fazer sexo sem ser para procriação. Também tinham que se vestir apenas de branco. De preferência com uma camiseta que trazia o logotipo da seita, que representa uma porta aberta para o infinito. Tim mandou que até os instrumentos fossem pintados de branco. Só se salvaram as teclas pretas do piano.
Nessa viagem, surgiram dois discos que propagavam o ideal racional. E dá-lhe exortar os ouvintes a ler o tal livro da seita. Na música Bom Senso, explica: Já senti saudade / Já fiz muita coisa errada / Já dormi na rua / Já pedi ajuda / Mas lendo atingi bom senso / A imunização racional. Numa certa manhã, cansou-se de tudo aquilo e espalhou para todos que Jacintho era um picareta. Tim voltava ao normal. Ao seu normal.
O amável encrenqueiro
Durante os anos 1980 e 1990 surgiram vários sucessos, como Descobridor dos Sete Mares, Me Dê Motivos e Do Leme ao Pontal. Ao mesmo tempo reforçava a fama de temperamental, de faltar a shows e de brigar com gravadoras, músicos e desesperados técnicos de som. Não poupava nem a plateia, e vez ou outra soltava impropérios aos fãs que o vaiavam por demorar a começar algum show. Nada que fizesse ser menos admirado. Em 1993, reuniu o maior público da história do Circo Voador.
Ao mesmo tempo era capaz de gestos de extrema sensibilidade. Ele, de tempos em tempos, costumava abrir sua casa para receber dezenas de meninos residentes em orfanatos. E brincava mais do que as crianças.
Era respeitado por craques da música. Só de Caetano Veloso há duas canções que fazem referência a Tim: Podres Poderes e Eclipse Oculto: Quero ser seu amor / Quero ser seu amigo / Quero que tudo saia / Como som de Tim Maia... Já para Jorge Ben, o artista era “o síndico” do Brasil.
Em 8 de março de 1998 subiu ao palco do Teatro Municipal de Niterói para mais uma apresentação. Tentou cantar, mas não conseguiu sair dos primeiros versos de Não Quero Dinheiro, e se retirou do palco. O público achou que era mais uma malcriação, e começou a vair. Não era. Minutos depois verificou-se que ele tinha sofrido uma crise de hipertensão, uma embolia pulmonar e uma parada cardiorespiratória. Foi internado no Hospital Antônio Pedro. Não resistiria. E, em 15 de março de 1998, o pulsante coração de Tim parou de pulsar.
30 de julho de 2009
O Ouro e a Madeira
Segundo uma amiga, o samba O Ouro e a Madeira, de Ederaldo Gentil e Edil Pacheco, é um dos mais bonitos do mundo.
Ederaldo Gentil é um sambista baiano - assim como Batatinha, Riachão, Nelson Rufino e outros - que não conseguiu visibilidade nacional. Boa parte pelo vício midático de fechar a produção cultural brasileiro no Rio e em São Paulo. E hoje ele é um nome quase em extinção.
Mas, ela tem razão, O Ouro e Madeira é um dos melhores sambas do mundo. Acima, Ederaldo apresenta a canção no programa MPB Especial, atual Ensaio, da TV Cultura.
29 de julho de 2009
Ai, Corinthians...
Corintiá (Gilberto Gil): Ser corinthiano é decidir que todo ano a gente vai sofrer / Se enrolar no pano da bandeira e reclamar se o time não vencer.
Amor Branco e Preto (Rita Lee e Arnaldo Baptista): Meu amor branco e preto / Às vezes me deixou na mão / Mas eu gosto de você / Já não me importa a sua ingratidão.
Bandeira do Timão (Elzo Augusto, conhecida pela voz de Germano Mathias): É que na hora /Que eu peguei aquele pano / Como bom corinthiano / Não tive coragem de rasgar.
Gol de Baltazar (pela voz de Elza Laranjeira): Gol de Baltazar, gol de Baltazar / Sobe o cabecinha: um a zero no placar.
Corinthians do Meu Coração (Toquinho): Ser corinthiano é ir além / De ser ou não ser o primeiro / Ser corinthiano é ser também / Um pouco mais brasileiro.
Moda do Corinthiano (Rolando Boldrin): Deus me deu a minha terra / Meu Brasil, meu ganha pão / E me fez corinthiano / Com muita satisfação.
Corintía, Meu Amor é o Timão (Adoniran Barbosa e Juvenal Fernandes): Como é bom ser alvinegro / Ontem, hoje e amanhã / Respirar o ar mistura / Do Tietê e Tatuapé.
Joga Corinthians (Jorge Ben, conhecida pela voz de Wilson Simonal): Não desanima, não / Pois está chegando o dia da libertação / Do grito / Ser campeão.
Quebra de Tabu (Tião Carreiro e Pardinho, sobre a quebra do tabu sem vitórias sobre o Santos): Até hoje tem um rei / Querendo encontrar a bola / Mas aceitou a escola / Do nosso grande Timão.
Ouça as canções clicando aqui. E Meus 20 Anos no vídeo abaixo.
7 de julho de 2009
30 de junho de 2009
Garrincha amargura o País durante o carnaval
Carnaval de 1980. A Mangueira desfilou sob o enredo Coisas Nossas. Em um carro alegórico, a eterna alegria do povo, Mané Garrincha, era o destaque principal. Mas, debilitado pela sequência de internações por alcoolismo e dopado pelos medicamentos, o anjo das pernas tortas estava irreconhecível.Não conseguiu sequer desfilar em pé. Sem esboçar expressões faciais, apenas fazia acenos chochos para um público perplexo. Os 90 minutos de desfile – o mesmo tempo de uma partida de futebol – entrou para história como um espetáculo deprimente do eterno camisa 7. Ao fim, sem perceber o que tinha acontecido, apenas perguntou: “E aí, o pessoal gostou?”.
