10 de junho de 2010

Cabo Laurindo, um herói inexistente da música brasileira

Ouça as músicas enquanto lê o texto. Vai ajudar a entender a saga desse misterioso personagem da música brasileira. A gravação é dos irmãos Chico e Cristina Buarque.

Um personagem inusitado surgiu na música brasileira em 1943. Era Laurindo, protagonista da canção homônima de Herivelto Martins composta para o carnaval daquele ano. A música era uma continuação de Praça Onze, esta primeira sobre a destruição da praça onde as escolas de samba cariocas desfilavam.

No novo samba, o personagem subia o morro comemorando: Não acabou, a Praça Onze não acabou / Vamos esquentar nossos tamborins. O nome “Laurindo” também tinha sido usado num samba de Noel Rosa na década anterior, mas a foi a partir da canção de Herivelto que começaria a inspirar outros compositores da cidade.

Afinal, quem era Laurindo? Ninguém. Ele nunca existiu, mas caiu nas graças dos sambistas da época (até hoje não se sabe por quê). O mais notório continuador da saga de Laurindo foi o sambista Wilson Batista. Com uma diferença. O compositor transformou-o num diretor de bateria da Mangueira, mas que parou as atividades carnavalescas para lutar na Segunda Guerra Mundial. Como conta a letra de Lá Vem Mangueira: Lá vem Mangueira / Sem Laurindo na frente da bateria/ Perguntei: Conceição, o que aconteceu? / Laurindo foi pro front, este ano não desceu.

Só que Wilson tratou de dar um final feliz para o soldado. Em Cabo Laurindo, em parceria com Haroldo Lobo, o pracinha voltava intacto do campo de batalha, “coberto de glória, trazendo garboso no peito a cruz da vitória”.

A história não pararia por aí. Haveria ainda uma terceira canção, Comício Em Mangueira, desta vez numa parceria com Germano Caetano. A letra e a melodia são emocionantes.

A música conta sobre um discurso do soldado logo após a volta triunfante: Houve um comício em Mangueira / O cabo Laurindo falou / Toda escola de samba aplaudiu / Toda escola de samba de samba chorou/ “Eu não sou herói” / Era comovente a sua voz / “Heróis são aqueles que tombaram por nós”.

Não faltou gente que acreditasse que Laurindo existisse de fato. Menos o compositor Zé da Zilda, que tratou de desmascarar o impostor num samba. Na letra, afirma que o sujeito é tratado como herói, porém “nem saiu de Niterói”. E que sua única participação na guerra foi a de ficar “na retaguarda aplaudindo a nossa gente”.

Depois de tantas músicas, chegou a um ponto de Wilson Batista não suportar mais ouvir sobre o herói fictício. O compositor chegou a planejar matá-lo num crime passional. Laurindo seria encontrado assassinado numa viela do morro da Mangueira, mas a canção nunca saiu.

A cantora Cristina Buarque diverte-se com a história. Cristina, que gravou parte das músicas sobre Laurindo, ainda tem dificuldade de entender por que o inexistente veterano da Segunda Guerra caiu nas graças de sambistas da década de 1940. Numa entrevista, a cantora disse, entre risos: “Comício Em Mangueira é um negócio emocionante. A volta de Laurindo, o discurso, as pessoas chorando. E é tudo mentira!”.

27 de maio de 2010

O dia que Chico Buarque saiu esbravejando do Pacaembu

No próximo domingo haverá Corinthians e Santos no Pacaembu. Num domingo de 1985 o estádio também recebeu o clássico, só que com uma preliminar especial. Em homenagem à criação do jornal Retratos do Brasil, ocorreria um show com importantes músicos no Palace. Antes, os artistas fariam uma partida na preliminar do jogo entre músicos cariocas e paulistas. Por que a ideia? “Só com futebol conseguimos atrair o Chico Buarque pro show”, explica, às gargalhadas, o artista gráfico Elifas Andreato, responsável por convidar todo o pessoal pro espetáculo.

Do lado dos cariocas, Chico, Fagner, a turma do MPB4 e dos Novos Baianos. Já entre os paulistas, Elifas, Toquinho, Fernando Faro, Raul Leite (produtor musical) e Branca de Neve, que, além de cantor, era bom de bola. Antes da partida, Branca de Neve começou a conversar com Chico. Papo vai, papo vem, e Chico conseguiu convencê-lo a jogar no time dos cariocas.

Percebendo a sacanagem, Toquinho – que era tão competitivo quanto o compositor de A Banda - resolveu fazer uma sacanagem maior ainda. O violonista convidou dois jogadores profissionais para reforçar o time. Um era Pita, que já tinha brilhado na Portuguesa, e um jovem jogador do São Paulo. “Quem são esses?”, perguntou Chico. “Ah, são músicos da noite paulistana”, respondeu Toquinho, na maior cara de pau.

Os times subiram a campo. As arquibancadas estavam com 30 mil pessoas e haveria transmissão ao vivo pela tevê, comandada por Juarez Soares com comentários de Falcão. O time paulista, como era de se esperar, deu show. Os atletas profissionais sobravam em campo diante de tantos boêmios. Resultado final: Paulistas 5 x 1 Cariocas.

No ônibus, de volta ao hotel, Chico estava de cara amarrada. Sentiu que tinha passado uma baita vergonha diante de tantos espectadores. Futebol é coisa séria pra ele. Só conseguiu olhar para o Elifas e, irritadíssimo, esbravejar: “Chama seu time de profissionais pra subir no palco hoje à noite, tá?”. O artista, a contragosto, cantou no espetáculo, mas ficou sem conversar com Elifas e Toquinho durante meses.

20 de maio de 2010

Adoniran se sentia um palhaço triste

Um erro é confundir a obra de Adoniran Barbosa como algo alegre. Boa parte de suas canções é melancólica. Mas essa melancolia era disfarçada pelo humor que só ele tinha. Adoniran era um "palhaço triste", como alguns o definem. Ou há coisa mais amargurante (mas engraçada) que Saudosa Maloca? Ouça com atenção no vídeo abaixo trecho do samba no programa MPB Especial, atual Ensaio.
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Isto posto, vamos a uma história contada pelo artista plástico Elifas Andreato, o melhor autor de capas de disco do Brasil. Era finzinho dos anos 1970. O diretor de uma gravadora pediu um desenho para a capa do novo elepê de Adoniran. Elifas, com sensibilidade, o desenhou como um palhaço triste, com lágrimas aos olhos (imagem acima; clique para ampliá-la).
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O diretor reclamou: "Olha, Elifas, acho que o Adoniran não vai gostar nada de ser retratado desse jeito. Faça uma outra". O desenho foi refeito de um jeito tradicional, até careta.
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Poucos meses depois Adoniran viu a imagem original. E, realmente, não gostou nada... De não ter sido usada na capa do disco. Ligou para o artista plástico: "Eu sou este palhaço triste, não aquele alemão que você pôs no elepê". Acatar a opinião do diretor da gravadora se tornou um dos maiores arrependimentos da carreira de Elifas.

Adoniran Barbosa no MPB Especial

13 de maio de 2010

Nike não é bem-vindo no baile da saudade

Lá fui eu - de Nike... - num baile da União Fraterna, um dos últimos bailes da saudade de São Paulo. O texto foi publicado na edição de maio do Almanaque Brasil.

Abril de 2010. Noite fria em São Paulo. O repórter do Almanaque começa a subir a escadaria coberta por um tapete vermelho. A senhora da recepção adverte, de forma educada: “Você é o Bruno da revista, né? Seja bem-vindo. Só esqueci de avisar que não pode entrar de tênis”. A ondinha do Nike cinza chama mais atenção do que diamante naquele ambiente repleto de sapatos pretos, clássicos e engraxadíssimos. O cenário é o salão do União Fraterna, na zona oeste de São Paulo, um dos últimos redutos da pauliceia onde ocorre um autêntico baile da saudade.

A recepcionista abre exceção ao incauto e o coloca numa mesinha perto da entrada. O amplo salão impressiona: lustres extravagantes, florões decorando as paredes e o teto. O prédio, construído em 1934, é tombado desde 1994. Serviu de cenário para o filme Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, lançado em 2008. A banda comanda a festa com boleros, valsas e músicas italianas. Todo mundo ali tem de 60 anos pra cima. O repórter, com seus 30 e poucos, é disparadamente o mais jovem. E certamente o mais mal-vestido.

O clube é antigo. Foi fundado em 1925, a partir da união de duas associações, uma delas de imigrantes italianos. A história é contada por Henrique Zanferice, um dos diretores. Ele também explica sobre os trajes: “Até um tempo atrás, era só homem de terno ou smoking e mulheres de vestidos longos. Mas muita gente morreu e era uma dificuldade atrair novos frequentadores. Passamos a ser mais liberais, deixar entrar de esporte fino. Mas, pode olhar: é raro ver uma de dama de calça”.

Em algumas mesas, destacam-se senhoras vestidas com coroas e faixas transversais sobre o peito, com os dizeres: “Rainha do Baile União Fraterna”. Elas são eleitas anualmente, e hoje é dia de homenageá-las. Sete estão presentes, com seus “reis” à tiracolo.

A ocasião também serve para coroar a rainha das rainhas, dona Ester, de 100 anos. Ela faz questão de corrigir: “100 anos e dois meses”. “Frequento o baile desde que tenho 10 anos. Venho porque gosto de dançar”, explica, da forma mais objetiva possível.

Depois é hora de danças coreografadas ao somde músicas espanholas. Oito casais se põem no centro do salão. Os homens se armam com lenços brancos à mão direita. “É uma forma elegante de não colocar a mão diretamente nas costas da dama”, explica um dos frequentadores, mais experimentado. Ao fim da música, cada cavalheiro acompanha a parceira até a mesa. “Seria uma grosseria deixar a dama voltar sozinha”, esclarece o dançarino.

A volta da banda garante novo ânimo aos cerca de 100 presentes. As canções se tornam mais modernas: baiões, sertanejos, sambas invocados. Rodas se abrem. Casais se dão as mãos e giram pelo ambiente. O cantor, para agradar, lança a clássica pergunta: “Tem corintiano aí?”, e a casa quase vem a baixo.

Já está perto de uma da manhã, hora do encerramento. “Você acha que acabou? A turma toda ainda vai tomar um caldinho por aí”, ressalta uma animada dançarina, que completa: “Hoje, a noite só termina altas da madrugada”.

22 de abril de 2010

Na cadência do samba

O ano era 1941 quando Ataulfo Alves gravou pela primeira vez uma canção de sua autoria: Leva, meu samba / Meu mensageiro / Este recado / Para o meu amor primeiro... A partir de então, sua voz invadiria as rádios e se tornaria sinônimo de samba. E que sambas...

Nascido numa pequena cidade mineira em 2 de maio de 1909, era filho de um conhecido violeiro da região. Ainda jovem se mudou para o Rio de Janeiro, tornando-se ajudante de farmácia. Nada que o impedisse de, após o batente, ficar horas em rodas de samba no bairro do Rio Comprido, onde morava.

Aos poucos começou a levar as composições a sério. Até que chamou a atenção de Almirante e de Carmen Miranda, que gravaram algumas de suas músicas. Definitivamente entrava no mundo artístico. Havia quem o comparasse a Noel Rosa.

Homem charmoso e educado, levava elegância às suas músicas. Os sucessos surgiam: Laranja Madura, Oh! Seu Oscar, Atire a Primeira Pedra. Uma outra, composta com Mário Lago, deixa as feministas de cabelo em pé até hoje: Amélia. Sob críticas, justificava: “Amélia é compreensão, é ternura, é vida. Ela simboliza a companheira ideal, que luta ao lado do marido, sem exigir o que ele não pode lhe dar”.

No início dos anos 1950 uniu-se a cantoras – que chamava de pastoras – e percorreu o País em apresentações. As composições não parariam. Seriam 320 na carreira. Só interromperia as atividades após descobrir um grave problema de saúde, decorrente de uma úlcera. Morreu em 1969, pouco antes de completar 60 anos. Sem cumprir um desejo expresso em outro retumbante sucesso: Quero morrer numa batucada de bamba / Na cadência bonita do samba.

24 de março de 2010

Só quando virou Milton, Bituca pôde entrar no clube da cidade

Por Natália Pesciotta

No fim do ginásio, Bituca foi o melhor aluno da turma e representou a classe como orador da formatura (na foto ao lado, o quarto da direita para a esquerda). Terminada a cerimônia, correram os formandos, alvoroçados, a se preparar para o baile de gala. Bituca, porém, pegou o diploma, a medalha, rumou para casa e fechou-se no quarto. O Clube Literário Recreativo Trespontano, da mineira Três Pontas, não permitia a entrada de negros em suas dependências.

Foi nesse dia que a proibição mais lhe doeu. Apesar de não ser a primeira vez que lhe atrapalhava a vida. Bem menino, lá pelos 14 anos, já tocava como profissional no conjunto Luar de Prata, mas não podia assistir às grandes bandas que passavam pela cidade. Ele e Dida, também músico e também negro, tentavam ouvir o som de cada instrumento sentados no banco da praça.

Bituca seguiu em frente. Fez colégio técnico em Comércio, já fora da cidade, e nunca abandonou a música. No 2° Festival Internacional da Canção, em 1967, consagrou-se Milton Nascimento. Travessia era a segunda colocada e ele, o melhor intérprete, recebia propostas de várias gravadoras. A Prefeitura de Três Pontas mandou um ônibus a São Paulo para buscar o cidadão ilustre, seu parceiro Fernando Brant e quem mais quisesse ir.

Chegando à cidade, Milton foi ovacionado pelas ruas. Para a noite, fina ironia, a Prefeitura organizara uma homenagem no tal Clube Literário Recreativo Trespontano. Por insistência da mãe, Bituca compareceu. Em tapete vermelho, passou pela porta que sempre lhe fora fechada.

8 de março de 2010

Olha o Arnesto!


Há um tempinho encontrei, numa casa de samba de São Paulo, o lendário Ernesto Paulelli (registrado na foto), cidadão que entrou para a história da música popular por inspirar Adoniran Barbosa a criar o Samba do Arnesto. Aos 94 anos, conta orgulhoso sobre a história da canção. Mesmo tendo ficado sobre si a penca de furão.

Em sua defesa, Arnesto garante que não convidou ninguém pra samba algum. Tornou-se amigo do compositor em 1939. O sambista lhe prometeu um samba, pois havia gostado da sonoridade do nome.

Anos depois, a novidade corria as emissoras de rádio: O Arnesto nos convidô / Prum samba ele mora no Brás / Nóis fumo e não encontrêmo ninguém. Emocionou-se: "Olha lá, mulher, este samba é pra mim!".

Tempos depois encontrou Adoniran. Agradeceu a homenagem, mas comentou que já estava meio cansado de ouvir piadinhas sobre sua fama de quem marca e não aparece. Adoniran justificou: “Pô, Arnesto, segura essa aí. Se não tem mancada não tem samba".

18 de fevereiro de 2010

Nara foi atrás dos "artistas populares genuínos"

“Chega de bossa nova. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é a expressão do povo.” Desse modo Nara Leão marcou o rompimento com a bossa numa entrevista à revista Fatos & Fotos, em 1964. A ex-musa do movimento passou a se aproximar dos sambistas de morro, ou “dos artistas populares genuínos”, como definia. Esse encontro está registrado no disco Opinião de Nara e na foto acima, enquanto aprendia os sambas de Zé Keti e Nelson Cavaquinho em seu famoso apartamento de Copacabana.

26 de janeiro de 2010

(quase) Exclusivo! João Gilberto na casa de Chico Pereira

Pouco antes da gravação do antológico Chega de Saudade (1958), disco que começaria a consagrar João Gilberto, o baiano gravou 36 canções na casa de Chico Pereira - que viria a ser o fotógrafo das melhores capas de discos da bossa nova.

Em clima descontraído, quase de sarau, João Gilberto entoa músicas como O Pato, Lá Vem a Baiana e Doralice. Além de clássicos nunca gravados em disco. João Valentão é um exemplo. A cantoria por vezes é interrompidas para rápidos bate-papos, que demonstram o caráter informal do encontro.

Abaixo, quatro registros desse documento histórico:

Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)

Chão de Estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa)

João Valentão (Dorival Caymmi)

Lá Vem a Baiana (Dorival Caymmi)






21 de janeiro de 2010

O cantor das despedidas

Após décadas de sucesso nacional, nos anos 1960 Sílvio Caldas resolveu se afastar da música. Anunciava: “Esta é a minha última apresentação”, e fãs às lágrimas exigiam que mudasse de ideia. E mudava. De tanto a situação se repetir, ganhou a alcunha de “cantor das despedidas”.
Não era o único apelido que lhe acompanharia na carreira. Nos anos 1930, começou a emplacar nas rádios suas serestas. Ficou conhecido como “o seresteiro do Brasil”. A voz forte, porém claríssima e despojada, também seguia por outros ritmos. Em samba poucos chegaram em seu nível.

Escolhia compositores a dedo: Ary Barroso, Noel Rosa, Braguinha, Wilson Batista. Com Orestes Barbosa, o mais constante parceiro, compôs Chão de Estrelas. Ainda que com letra difícil, a canção caiu no gosto do público: Tu pisavas nos astros distraída / Sem saber que a ventura desta vida / É a cabrocha, o luar e o violão. Manuel Bandeira considerava este o verso mais belo da língua portuguesa.

Durante anos, a dúvida pairou. Afinal, quem era melhor: ele, Chico Alves, Orlando Silva ou Carlos Galhardo? Até hoje, com a distância devida, é difícil responder. O fato é que, entre os quatro, foi o que teve carreira mais longa. Foram 65 anos como profissional, marca nunca alcançada por cantor algum do País.

Em 1965, mudou-se para um sítio em Atibaia, interior paulista. De lá só saía quando sentia saudade do microfone – e não foram poucas vezes. A última apresentação ocorreu em São Paulo, em 1997. Morreria no ano seguinte, ao 90 anos. Quase todos dedicados à música.

11 de janeiro de 2010

Samba e amor

Este blogueiro metido a sambista é um dos entrevistados da reportagem "O que pode fazer um coração machucado" , da revista Continuum, do Itaú Cultural. Está ao lado de gente boa, como Teresa Cristina, Douglas Germano, Fabiana Cozza, Moisés da Rocha, João Cavalcanti, entre outros. Na matéria assinada pelo jornalista Thiago Rosenberg, todos tentam explicar (ou entender) a relação entre o amor e o samba. Assunto difícil, mas cada um deu seu pitaco.
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Melhor: a edição é toda dedicada ao nosso estilo musical do coração.
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Para ler a matéria completa, clique aqui.

8 de janeiro de 2010

Um compositor de ouro

Ele escreveu a última linha da canção e, sentindo que tinha feito algo fora de série, entrou em êxtase. Caprichou na harmonização e mostrou a novidade ao parceiro Benedito Lacerda. A reação foi decepcionante. “Olha, meu compadre, tá muito bonito, viu, muito bonito. Essa é uma música ótima pra você cantar na igreja. Nunca vai tocar no rádio.” A despeito da previsão, Ave Maria no Morro, lançada em 1942, é um dos maiores sucessos da música brasileira. Inaugurou até um estilo musical, o samba-canção: Barracão de zinco / Sem telhado, sem pintura / Lá no morro / Barracão é bangalô / Lá não existe felicidade de arranha-céu / Pois quem mora lá no morro / Já vive pertinho do céu…

Herivelto Martins nasceu em 30 de janeiro de 1912 no distrito de Rodeio, atual Engenheiro Paulo de Frontin, no interior Fluminense. Estimulado pelo pai, agitava a cidade com grupos teatrais e musicais. Mas a família mudou para São Paulo. Com a maioridade recém-completa, o rapaz partiu para o Rio. Queria ser artista.

Preto e Branco

O começo na Cidade Maravilhosa não foi fácil. Teve que dividir um quarto minúsculo com sete companheiros. “Só melhorou com a Revolução de 1932: morreram quatro”, brincava. Fazia bicos aqui e acolá quando recebeu um convite para ser gerente de uma barbearia no morro de São Carlos. Aceitou com uma condição: “Tenho que sair de vez em quando, pois sou artista”.

Com o novo emprego, poderia estar perto do pessoal do Estácio, os malandros cariocas que faziam os melhores sambas da cidade. Era um dos poucos compositores brancos a pintar por lá. Numa dessas andanças pelo bairro, foi convidado a assistir a um ensaio. Quando surgiu uma brecha, apresentou Da Cor do Meu Violão. Um produtor que estava por lá ouviu, gostou e mandou gravar. Era sua primeira música em disco.

Herivelto passou a compor sem parar: tangos, marchas, sambas. Mostrava-se um compositor eclético. E frenético: “A rapidez com que componho às vezes surpreende a mim mesmo”. Após um ensaio, fez um coro informal com o cantor Francisco Sena. Outro produtor viu e adorou. Procurava uma atração para apresentações no Cine Odeon. Nascia a dupla Preto e Branco. Mas o parceiro morreu prematuramente. Herivelto seguiu sozinho até conhecer Nilo Chagas, com quem reviveu a dupla. Nessa época conheceu também alguém que mudaria a sua trajetória.

Trio de Ouro

Herivelto ficou maravilhado ao ouvir o canto técnico e poderoso de Dalva de Oliveira. Logo se tornaram parceiros nos palcos e na vida. Casaram-se em 1938, e o grupo ganhou uma nova integrante. Um radialista anunciou: “Vamos ouvir agora Dalva de Oliveira e a dupla Preto e Branco, um trio de ouro”. Surgia o nome do primeiro – e melhor – trio vocal brasileiro.

Em quase 10 anos de sucesso, o Trio de Ouro lotou cassinos, teatros e auditórios de rádio. As músicas de Herivelto tornaram-se clássicos: Praça Onze, Lá em Mangueira, Calado Venci.
Além, claro, de Ave Maria no Morro – apesar das reclamações de um cardeal, que dizia que a canção era uma heresia e exigia que fosse censurada.

Em 1942, Herivelto assumiu a função de assistente do diretor Orson Welles, que viera ao País produzir o filme É Tudo Verdade. Para organizar os músicos, deu-lhe na cabeça usar um apito. Benedito Lacerda novamente fez um muxoxo: “Parece guarda-civil”. Dali nascia o uso do apito como elemento rítmico, principalmente nas escolas de samba.

“Seu mal é comentar o passado”

Enquanto o Trio de Ouro fazia sucesso Brasil afora, as brigas conjugais chegavam a níveis insuportáveis. Em 1947 viria a dolorosa separação. Os jornais se deliciavam com a briga pública do casal mais famoso do País. “Boa cantora, péssima esposa”, dizia Herivelto a um jornal. “Meu lar era um botequim”, devolvia Dalva.

A coisa esquentou quando a briga invadiu as músicas. Enquanto Dalva cantava Errei, sim/ Manchei o teu nome / Mas foste tu mesmo o culpado / Deixavas-me em casa / Me trocando pela orgia / Faltando sempre / Com a tua companhia (Errei, Sim, de Ataulfo Alves), Herivelto respondia: Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois… O público adorava.

O Trio de Ouro continuaria com novas formações. Durante a existência, gravou 99 discos com quase 200 músicas.

Homenagens

A chegada dos anos 1960 foi quase uma sentença de morte para Herivelto. O afã por mudanças que assolava a música brasileira o colocou num segundo plano. Os convites para apresentações rareavam. “O rock matou a música popular”, lamentava.

Em 1987, recebeu o Prêmio Shell pelo conjunto da obra. A grande homenagem viria em 1992. A Mangueira – que Herivelto tanto homenageou em canções – preparou, de surpresa, uma apresentação na frente de sua casa: surdos, tamborins, cuícas… Herivelto não hesitou. Pegou um apito e, completamente emocionado, marcou o ritmo da festa.

Em setembro daquele mesmo ano sentiu-se mal. No leito do hospital, teve tempo ainda de anunciar: “Estou morrendo”. E seus olhos azuis fecharam-se para sempre.

3 de dezembro de 2009

"Você vai se quiser..."

Ao saber do casamento de um primo, Noel Rosa mandou o recado: “Meu querido primo Jacy, um abraço! Quero com ele dar os meus pêsamos pelo seu casamento”. Amante da liberdade e da vida boêmia, contrair núpcias não figurava entre as prioridades do jovem sambista. Chegou até a compor Capricho de Rapaz Solteiro, na qual ensina: A mulher é um achado / Que nos perde e nos atrasa / Não há malandro casado / Pois malandro não se casa.

Aos 23 anos, porém, ele teve um rápido relacionamento com Lindaura, então menor de idade. Não esperava que a mãe da moça fosse reclamar com o delegado: “Noel raptou minha filha!”. A condição para não abrir o inquérito era que ele se casasse com Lindaura. Noel chegou a dizer que preferia a cadeia mas, depois de muito bafafá, acabou cedendo. Na foto, tirada em 1º de dezembro de 1934, demonstra toda a satisfação por entrar no time dos casados.

É bom lembrar: Ceci foi a inspiradora de muitos sambas geniais de Noel. Já Lindaura é a “musa-inspiradora” de apenas esse: Você vai se quiser / Pois a mulher não se deve obrigar a trabalhar / Mas não vai dizer depois / Que você não tem vestido / Que o jantar não dá pra dois...