9 de março de 2009

O que o baiano tem?

Seu estilo único, surgido não-sei-de-onde, impressionou desde as primeiras canções. Com composições originalíssimas, colocou a Bahia no imaginário coletivo dos brasileiros. Esteve nos dois momentos de internacionalização da música nacional. Era famoso pela "preguiça", pela vida devagar, sem aceitar a pressão da indústria fonográfica. Fez apenas 100 canções, mas tornou-se um mito em vida.

É um mistério da música brasileira: de onde surgiu o estilo singular de Dorival Caymmi? Desde as primeiras composições a questão perdura, sem ser devidamente elucidada. Ao ser perguntado se era influenciado pelo baiano, o compositor Chico Buarque respondeu: “Caymmi para mim é um caso à parte na música nacional. Ele é de tal modo despojado que é difícil imitá-lo, copiá-lo, fazer uma música a la Caymmi”.

Nascido a 30 de abril de 1914 em Salvador, Dorival passou a infância de olho no violão do pai, um músico amador. Aprendeu a tocar o instrumento sozinho, e com apenas 15 anos já tinha as primeiras composições. Logo passaria a se apresentar em programas da Rádio Clube da Bahia. Para descolar uns trocados, trabalhava no jornal O Imparcial.

Em 1937 embarcou em um ita rumo ao Rio de Janeiro, onde assumiu uma vaga de jornalista nos Diários Associados e se inscreveu num curso preparatório para a faculdade de Direito. Sem esquecer a música, que continuava compondo para enfrentar os programas de calouro.

Precisou de apenas um ano para conhecer o sucesso. A equipe de Banana da Terra já havia rodado as cenas iniciais do filme quando chegou a notícia. Por razões financeiras, Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, não poderia ser usada. A produção tinha que providenciar nova música para Carmen Miranda.

Envolvido com o musical, o radialista Almirante lembrou do rapaz recém-chegado da Bahia. Dias depois o compositor de 24 anos apresentou O Que É Que a Baiana Tem? para Carmen. E ainda sugeriu que a Pequena Notável imitasse os trejeitos das baianas, gesto que se tornaria sua marca registrada.

O que a Baiana Tem, com Carmen Miranda

Com o sucesso, passou a atuar na Rádio Nacional. Na emissora conheceu a cantora Stella Maris, com que se casaria. A companheira estaria ao seu lado por toda a vida.

Baianos em seu caminho

A partir de 1939, Caymmi constrói uma longa lista de músicas tendo o mar como inspiração. Os ouvintes se impressionavam com a naturalidade com a qual os versos entravam na melodia. Alguns exemplos são Rainha do Mar, Promessa de Pescador, A Jangada Voltou Só. Os temas praieiros não se limitavam à música. Passou a se dedicar à pintura e ao desenho. Os cenários baianos eram a inspiração: pescadores, comunidades a beira-mar, as tradições populares.

A Jangada Voltou Só

Compõe também sambas-canção. Marina (...morena / Marina, você se pintou...) foi uma das mais famosas. Durante os anos 1940, torna-se grande amigo do conterrâneo Jorge Amado. Inspirado em sua obra literária, cria Modinha para Gabriela e É Doce Morrer no Mar.

Marina

Carmen havia sido responsável por levar a música de Caymmi para o mundo. A partir de 1959, um baiano toma esse papel: João Gilberto. Fã confesso de Caymmi, João grava Rosa Morena logo em seu disco de estreia. Era apenas o começo. Na fileira vieram Doralice, Você Não Sabe Amar, Acontece que Eu Sou Baiano... Parecia que as canções de Dorival haviam nascido sob o signo da bossa nova. A definição é de Caetano Veloso: "O grande esforço de modernização de João se apoiou na modernização sem esforço de Caymmi".

Doralice, com João Gilberto

Tornou-se também amigo de Tom Jobim, que exaltava sua inventividade. Para ele, Caymmi usava soluções harmônicas poucas vezes vistas antes da bossa. Ambos lançaram um disco nos anos 1960: Caymmi Visita Tom. Com direito a um magistral dueto em Saudade da Bahia: Ai, que saudade eu tenho da Bahia / Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia...

Saudade da Bahia

Queria ser um preguiçoso assim”

“Ao longo da carreira, Caymmi gravou cerca de 100 canções - pouco para tantos anos dedicados à música. Resultado: ganhou fama de preguiçoso. Negava-se a escrever sob pressão de gravadoras. Só uma vez assinou contrato, com a Odeon, em 1939. Pelo acordo, deveria gravar seis discos em dois anos. Não cumpriu. "É verdade que Caymmy compôs pouco mais de 100 músicas, mas todas são obras-primas. Quem é o compositor que pode se dar a esse luxo? Eu queira ser um preguiçoso assim”, defendeu Caetano.

É célebre a história da obra-prima João Valentão, que levou nove anos para concluir. O desfecho beira o sublime: E assim adormece este homem/ Que nunca precisa dormir pra sonhar /Porque não há sonho mais lindo / Do que sua terra, não há.

João Valentão, com Caetano Veloso

Outro caso que ilustra o ritmo de sua produção é o da música Adalgisa. Sempre mostrava a um amigo os primeiros versos (Que a Bahia tá viva ainda lá / Que a Bahia tá viva ainda lá). Ao ser questionado quando iria gravar, respondia: “Quando ficar pronta, quando ficar pronta...”. E assim foi durante anos. Até que um dia anunciou: “Terminei!”. Pegou o violão, empostou a voz e apresentou a obra completa: Com a graça de Deus, inda lá / Que a Bahia tá viva ainda lá / Que a Bahia tá viva ainda lá...

As canções rareavam ainda mais com o passar dos anos. Mas os filhos Dori, Nana e Danilo – além dos inúmeros amigos e admiradores – mantiveram a divulgação de sua obra. Em agosto do ano passado, seu coração baiano parou de bater. Homenagens em todo o País. O Brasil percebeu que perdia um compositor inigualável. E inimitável. Alguns anos antes, diante da pergunta a que creditava ter participado dos dois grandes momentos internacionais da música brasileira – a era Carmen Miranda e a bossa nova –, respondeu: “É questão de ser baiano”.

26 de janeiro de 2009

Esperando a felicidade...

Era fim da tarde de 11 de março de 1958. Mergulhado em dramas pessoais e com um enorme sentimento de solidão, o baiano de 50 anos escreveu, com sofreguidão, uma longa e detalhada carta na qual explicara a bobagem que viria a fazer. “Morro por minha vontade. Estou sentindo apenas a cruel saudade de tudo e de todos”. Assinou o papel e, sentado num banco em frente à Praia do Russel, no Rio de Janeiro, bebeu guaraná com formicida. Morreu minutos depois. E a música brasileira, no mesmo ano do nascimento da bossa nova, perdia o compositor Assis Valente.

Levara uma vida de abandono, amargura, vaidade e raro talento. São se conformava com o ostracismo que a carreira havia lhe imposto. Mas não era apenas isso. Para entender o que lhe fez chegar ao suicídio – a derradeira de três tentativas -, é necessário voltar ao começo de tudo.

O menino José de Assis Valente nasceu em 19 de março de 1908 na Bahia. A cidade natal é confusa para os biógrafos. Uns dizem que foi entre Bom Jardim e Patioba. Ele, numa entrevista ao Cine Rádio Jornal, afirmou ser de Campo da Pólvora (“por isso tenho essa pele queimada”).

O certo é que teve uma infância atribulada. Foi sequestrado ainda pequeno de casa e criado por outro casal. Eles se mudaram para Salvador e, pouco depois, para o Rio. Com um detalhe: sem ele, que ficou sozinho na capital baiana.

Virou-se como podia. Profissionalizou-se ainda jovem como especialista em prótese dentária. Mas o que queria é ser artista, se sentir pertencente a algo, receber aplausos. As primeiras atividades foram como orador de circo e desenhista de uma revista soteropolitana. Mas ainda era pouco.

Entre próteses, desenhos e sambas

Decidiu se mudar para o Rio em 1928. Logo empregou-se no gabinete de um protético. Mas gostava mesmo de desenhar, atividade que tomava suas noites, e os vendia para revistas da cidade.

Em 1932, conheceu o compositor Heitor dos Prazeres, e a história começaria a mudar. Ele se impressionou com a facilidade do baiano para compor versos, sempre intuitivos. Com o decisivo incentivo de Heitor, conseguiu no mesmo ano ter o primeiro samba gravado: Tem Francesa no Morro, pela voz de Araci Cortes.
Ouça:

Logo depois faria o que considerava a sua melhor canção, criada na noite de Natal de 1932. Era Boas Festas, o maior sucesso do gênero natalino da história da música nacional. Estava sozinho em casa, triste, quando viu uma imagem de uma menina com os sapatinhos sobre a cama para esperar o presente de Papai Noel. Foi o suficiente para a canção amargurada nascer ali mesmo: Anoiteceu, o sino gemeu / E a gente ficou feliz a rezar / Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar / Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...
Ouça:

A paixão platônica por Carmen Miranda

No mesmo ano assistiu a uma apresentação de Carmen Miranda, jovem cantora que o encantou instantaneamente. Fez de tudo para se aproximar e, após se conhecerem de fato, passou a compor canções exclusivamente para ela. Foram 24 gravações e quase todas se tornaram sucesso, como E o Mundo Não se Acabou, Recenseamento e a genial Camisa Listrada: Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí / Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu Parati...


E o Mundo Não se Acabou

Recenseamento

Camisa Listrada, por Carmen Miranda


Estava no auge da fama, sentindo-se importante e amado pelo público, quando Carmen, em 1939, decidiu se mudar para os Estados Unidos. Foi um baque. Assis sentiu-se traído, abandonado. E, pior: tinha dificuldade de compor para outras cantoras.

Daí em diante a carreira começou a decair. Novos ritmos tocavam nas rádios e sua música passava a ser considerada obsoleta. Ele não conseguia – e muitas vezes não queria - acompanhar as novidades. Emplacou alguns sucessos, como o clássico Fez Bobagem, de 1942, gravado por Araci de Almeida. Mas sem a mesma repercussão de antes. Também não teve sucesso no casamento com Nadyle da Silva Santos, que durou menos de três anos. Com ela teve sua única filha, Nara Nadyle.

Vendo a fama de longe e com dívidas quase impagáveis, tenta o suicídio duas vezes. Não para de compor, mas boa parte apenas lota a gaveta. Pouca gente quer gravar um compositor que estampa as manchetes dos jornais apenas por tentar se matar. Cada vez se afasta mais das pessoas. E aí chegou a fatídica data de 1958.

O sucesso que sempre perseguiu viria pouco depois. Não mais na voz de Carmen Miranda, mas pelas sucessivas regravações a partir dos anos 1960. Com destaque para os Novos Baianos, que transformaram Brasil Pandeiro num estrondoso sucesso nacional.

Uma das mais regravadas é o samba Alegria, um marco na carreira e, sobretudo, uma das mais elaboradas sínteses da sua existência. Uma vida na qual a dor e o prazer coexistiram numa eterna busca por um sentimento que nunca alcançaria: Esperando a felicidade / Para ver se eu vou melhorar / Vou cantando, fingindo alegria / Para a humanidade não me ver chorar.
Ouça:

11 de novembro de 2008

A alma do povo

Há poucos meses de completar um século de existência, morre em 24 de dezembro de 2006 o compositor Braguinha. Sobre o caixão, a bandeira verde-e-rosa da Mangueira. Num cartaz, os netos escrevem “Pela estrada afora costumávamos ir juntinhos. Agora teremos que seguir sozinhos”, em alusão à canção Chapeuzinho Vermelho, adaptada décadas antes pelo artista. Prestes a iniciar o enterro, os presentes começam a entoar: Meu coração / Não sei por quê / Bate feliz / Quando te vê... Foi a derradeira retribuição popular à personalidade que soube retratar o povo em sambas, marchinhas e choros clássicos, que teimam em não morrer no imaginário dos brasileiros.

Carlos Alberto Ferreira Braga nasceu em março de 1907 numa família carioca de classe média. Pouco depois, se muda para o bairro de Vila Isabel, onde passa a adolescência acerca de um tal Noel Rosa. Começa a esboçar as primeiras composições aos 16 anos. O pai – que era gerente da fábrica de tecidos Confiança – não tinha confiança alguma em o filho se tornar músico. Achava coisa de desocupado, vagabundo. Só fica todo orgulho quando Carlinhos, como a família o chamava, ingressa na faculdade de arquitetura.

Mal sabia que o garoto largaria o estudo pouco tempo depois para se dedicar exclusivamente à carreira artística, mesmo sem conhecimento formal algum. Compunha no instinto, quase pelo assobio. Ao lado de Noel Rosa, Almirante, Henrique Brito e Alvinho, forma o Bando de Tangarás. Para despistar o pai, adota um pseudônimo: João de Barro. Ironicamente, o pássaro arquiteto. Faz pequenas apresentações com o grupo, enquanto ensaia alçar vôos próprios.

Passa a compor marchinhas carnavalescas. Uma das primeiras a se tornar popular é Linda Lourinha, feita para o carnaval de 1934. Era uma espécie de resposta à Linda Morena, de Lamartine Babo. O sucesso inicial o empolga e Braguinha começa a produzir quase em escala industrial. São dessa década As Pastorinhas (com Noel Rosa), Yes, Nós Temos Banana (com Alberto Ribeiro) e muitas outras.

A criação mais notória, porém, é um choro-canção feito em 1937. A cantora Heloísa Helena pergunta se Braguinha pode pôr letra num choro de Pixinguinha. O compositor aceita o desafio e, em apenas um dia, entrega a encomenda. A música? Carinhoso, considerada um clássico definitivo da música nacional.

Na mesma época se torna diretor artístico da gravadora Columbia. Durante a carreira ajuda a projetar nomes como Radamés Gnatalli, Tom Jobim, Lúcio Alves, Dick Farney, Doris Monteiro, Tito Madi e Jamelão.

Tourada no Maracanã

A década de 1940 também é profissionalmente frutífera – e em diversas áreas. Torna-se roteirista e assistente de direção em filmes da Cinédia. Dubla temas musicais para a Disney, em filmes como Pinóquio, Dumbo, Bambi e Branca de Neve e os Sete Anões. Escreve, adapta e compõe histórias infantis, entre as quais Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos. Faz Copacabana, um hino de amor ao bairro carioca. Passa a ser conhecido internacionalmente pela voz de Carmen Miranda. As marchinhas carnavalescas também não param: Pirata da Perna de Pau, Tem Gato na Tumba, A Mulata é a Tal, Chiquita Bacana...

Um dos momentos mais emocionantes da vida se dá em 1950, quando o Brasil enfrenta a Espanha pela Copa do Mundo. A seleção goleia os europeus por 6 a 1 no Maracanã e, ao fim do jogo, os torcedores formam um dos coros mais impressionantes já vistos num estádio de futebol. Os 200 mil presentes entoam, a plenos pulmões, a marchinha Tourada em Madri (Braguinha e Alberto Ribeiro): Eu fui às touradas em Madri / E quase não volto mais aqui / Pra ver Peri / Beijar Ceci... Só uma pessoa não cantou: o próprio Braguinha. “Vendo aquilo, a única coisa que consegui foi chorar”, contou pouco depois.

Yes, Nós Temos Braguinha

No começo dos anos 1960 a marchinha carnavalesca entra em declínio no mercado fonográfico. Mesmo assim, lança Garota de Saint-Tropez, com Jota Júnior, alcançando relativo sucesso. Volta à cena em 1979, quando Gal Costa grava uma canção de quatro décadas atrás, Balancê: Ô, balancê, balancê / Quero dançar com você / Entra na roda, morena pra ver / Ô balancê, balancê...

Uma das últimas consagrações públicas ocorre em 1984, na inauguração do Sambódromo do Rio. A Mangueira desfila sob o tema “Yes, Nós Temos Braguinha” e torna-se campeã do carnaval. O artista passa os anos subseqüentes recebendo homenagens, tanto pela obra quanto pelo seu jeito leve e bem-humorado. “A vida só gosta de quem gosta dela”, como o autor de quase 500 canções sempre gostou de ensinar.

* Texto publicado na edição de dezembro de 2008 da revista Almanaque Brasil.

22 de outubro de 2008

Sambistas “aposentam a navalha” em canções trabalhistas

O compositor Wilson Batista era um assíduo freqüentador da Lapa, reduto da nata da malandragem carioca na primeira metade do século passado. Tanto que num de seus principais sucessos, Lenço no Pescoço, se cita como um típico personagem do local: De chapéu do lado / Tamanco arrastando / Lenço no Pescoço / Navalha no bolso / Eu passo gingando / Provoco e desafio / Eu tenho orgulho em ser tão vadio...

Mas, com a instituição do Estado Novo pelo presidente Getúlio Vargas, em 1937, passou a haver intensa valorização do trabalhismo. Músicas como as de Wilson eram censuradas pelo Governo ou pela própria população, que via nas letras temas que denegriam as causas nacionais.

O malandro não teve dúvidas. Compôs Bonde de São Januário, um hino de exaltação ao trabalho, e ficou bem com todo mundo: Quem trabalha é quem tem razão / Eu digo e não tenho medo de errar / O Bonde São Januário / Leva mais um operário / Sou eu que vou trabalhar.

Ouça a música:



Não foi o único a lançar mão do artifício. O sambista Geraldo Pereira, outro notório malandro, compôs a bela Pedro do Pedregulho, na qual canta sobre um sujeito barra-pesada, que quebrava barracos, brigava com a polícia e só vivia do jogo. Para alívio dos trabalhistas, Pedro se regenera no fim: E ele trocou o revólver que usava, fingindo embrulho / Por uma marmita, e sobe o Pedregulho / De noite, cansado do seu batedor.

Ouça a música, cantada pelo próprio Geraldo:


6 de outubro de 2008

Chico versus 1968

Radicais de direita e de esquerda que encheram a paciência de Chico Buarque em 1968.

Bom-mocismo às favas

Garotas de classe média – e de cabelos impecáveis – lotaram o auditório do Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro. Afinal, era a estréia da peça Roda Viva, escrita pelo “genro ideal” de seus pais, Chico Buarque. As meninas suspiravam ao imaginar o que o “cantor dos olhos de ardósia” e símbolo do bom-mocismo havia criado.

Quando as cortinas se abriram, entretanto, todas ficaram espantadas. A peça era extremamente provocativa, quase violenta. Tratava-se uma encenação revolucionária comandada pelo diretor Zé Celso Martinez Côrrea. O texto de Chico também não ficava atrás: era uma ironia deslavada ao mundo do show business, ao qual ele fazia parte. Muitos saíram antes de terminar, ofendidos. O ator Antônio Pedro, que fazia o papel do Anjo da Guarda, foi ameaçado por um espectador ao começar mais uma provocação: “Olha aqui, ó, Anjo, se você não parar vou te dar uma porrada”.

Mas porrada quem deu mesmo foram integrantes do Comando de Caça aos Comunistas, um grupo paramilitar de extrema direita, que espancaram integrantes da peça após uma apresentação em São Paulo e seqüestraram dois atores em Porto Alegre.

Festivaia

Tom Jobim suportou exatos 23 minutos de vaias durante a apresentação de Sabiá, na fase eliminatória do 3° Festival Internacional da Canção. O público de 20 mil pessoas, que lotava o Maracanãzinho, considerava a canção alienada. Quase todos torciam para Não Dizer que Não Falei de Flores, a politizada canção de Geraldo Vandré. O co-autor de Sabiá, Chico Buarque, escapou dos apupos por estar em turnê pela Europa.

Na finalíssima, entretanto, teve que encarar a multidão. E mais vaias, que calaram as intérpretes Cynara e Cybele. Os dois, que também estavam no palco, ficaram visivelmente constrangidos. No final da apresentação, Geraldo Vandré tomou as dores dos adversários e, ao microfone, proferiu uma das suas últimas frases em público. “A vida não se resume a festivais”, bradou à platéia.

Contrariando a preferência popular, Sabiá foi a vencedora. E logo seria adotada como uma espécie de hino da saudade dos exilados políticos: Vou voltar / Sei que ainda vou voltar / Para meu lugar.

25 de setembro de 2008

A malandragem de Donga

A casa da Tia Ciata era famosa no centro do Rio de Janeiro no início do século passado, principalmente pelas reuniões musicais. Entre os freqüentadores estavam Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Sinhô e um tal Donga, que entraria pra história como o autor do primeiro samba, Pelo Telefone. O chefe da polícia/ Pelo telefone / Mandou avisar / Que na Carioca / Tem uma roleta / Para se jogar... Só que a autoria sempre foi contestada. De acordo com vários relatos, a música foi uma criação coletiva em um desses encontros, sem compositor definido. Mas Donga, espertamente, a registrou em novembro de 1916 no Departamento de Direitos Autorais como sendo dele e do jornalista Mauro de Almeida, conhecido como Peru dos Pés Frios. A música foi o maior sucesso do carnaval de 1917. Mas a ironia contra a polícia e a apologia à jogatina – que estava proibida no Rio – poderiam trazer problemas. Num ato de autocensura, os primeiros versos foram mudados para O chefe da folia/ Pelo telefone / Manda avisar / Que com alegria/ Não se questiona/ Para se brincar.

No vídeo abaixo, Donga canta, com Chico Buarque, a música na versão original. Foi transmitido em 1966 no programa da Hebe Camargo. Uma das pessoas que está no palco é o mítico Pixinguinha. Enfim, aperta o play aí.

Donga e Chico Buarque cantam Pelo Telefone

17 de setembro de 2008

O cachorrinho sambista de Adoniran

Em 1957 uma música começou a fazer sucesso nas rádios de São Paulo. Era a canção Deus Te Abençoe, gravada pela Dupla Ouro e Prata. Mas o público se confundia com o autor da música, um tal de Peteleco. Quem seria o desconhecido compositor, afinal? A dúvida foi desfeita na edição de julho daquele ano da Revista do Long-Playing. Peteleco era o cãozinho de estimação de Adoniran Barbosa. “Por que não teria o conhecido cômico usado seu próprio nome? Tem exclusividade com os Demônios da Garoa ou achou que o samba tão bonito não era digno de seu nome?”, questionou o jornalista Francisco D. Silva na revista.
Os motivos que levaram Adoniran a “lançar” seu fiel amigo na música permanecem obscuros. Mas a carreira do gracioso vira-lata continuaria em outras composições, por motivos mais claros. Em alguns casos, para fazer parceria com artistas de outros sindicatos e associações de recebimento autoral. Em outros, simplesmente porque não queria ver seu nome associado a determinado parceiro.
Contabiliza-se que Peteleco foi “autor” de cinco sambas. Além de Deus Te Abençoe, assinou sozinho as canções Pra Que Chorar e Onde Vai, Leão. Em parceria, está com o nome registrado em É da Banda de Lá (com Irvando Luiz), Nóis Não Usa as Bleque Tais (com Gianfrancesco Guarnieri) e Mãe, Eu Juro (com Marques Filho, como o cantor Noite Ilustrada assinava suas músicas à época).
O último caso é fruto de uma das mais importantes polêmicas da música brasileira. De acordo com entrevistas dadas por Noite, ele é o verdadeiro autor da melodia de Bom Dia, Tristeza, que foi creditada somente a Adoniran e Vinicius de Moraes. Adoniran teria pedido que fizesse a música e, na hora de registrar, excluiu seu nome. Há quem discorde. Segundo Ayrton Mugnaini Jr., autor da biografia de Adoniran, é discutível essa versão. “Com todo o respeito a Noite Ilustrada, não creio ter sido ele o autor da melodia”, explica. Mas o fato é que, logo após a polêmica, Noite - que estava em início de carreira - o convidou para terminar um samba intitulado Mãe, Eu Juro. Adoniran aceitou, mas registrou o nome de seu cãozinho. Noite ficou magoado e os dois nunca mais se falaram.
O amor de Adoniran por Peteleco, porém, permaneceu inabalável. Mais do que “parceiro musical”, era o seu grande companheiro. O cachorro vivia ao lado do cantor e também tinha jeito de artista. Ele próprio buscava os doces na padaria, numa prateleira mais baixa, para deslumbramento do padeiro. Nas constantes viagens a Santos, gostava de ficar sobre o peito do dono, enquanto boiava no mar. E foi na cidade que o cachorrinho morreu, após comer um alimento estragado. Acredita-se que o samba Não Quero Entrar, lançado em 1968, tenha sido composto em homenagem a Peteleco: "Eu voltei somente pra buscar/ Meu cachorrinho, meu cobertor e meu violão...".

16 de setembro de 2008

"Um minuto só, cavalheiro"

Nóis viemo aqui pra beber ou pra conversar?

10 de setembro de 2008

Um homem de moral

No fim de agosto entrevistei, para a revista Almanaque Brasil, o zoólogo e compositor Paulo Vanzolini (tem até foto pra provar o feito). Antes da entrevista, alguns me advertiram: "Cuidado. O Paulo não tem muita paciência pra besteira". Acho que não perguntei muita besteira, porque conheci uma pessoa leve e bem-humorada. Contou histórias, falou dos trabalhos científicos e, principalmente, de música com empolgação.
O que mais agrada é seu jeito objetivo, sem frescuras. Faz elogios e críticas a fatos e personalidades sem mudar a expressão ou o tom de voz. Ponho abaixo alguns trechos que foram publicados no Almanaque.

Ronda
Compus Ronda em 1945, quando estava servindo o Exército. Às vezes, dava patrulha no meretrício e, sabe como é, sambista sempre está atrás de temas. Eu via aquelas mulheres indo de bar em bar, como quem procurasse algo. A música é uma piada, uma brincadeira. Vou iludindo o ouvinte, que pensa que é uma música romântica, de uma mulher que pretende encontrar o amado. Aí, no fim, o que ela quer mesmo é descarregar o pente no pilantra. Na verdade, não acho essa canção grande coisa. É meio piegas.

Música era hobby
Música para mim sempre foi um hobby, uma diversão entre amigos. Também nunca compus para gravar. O mercado da música era uma droga, muito sujo. O primeiro sambista profissional que conheci foi o Ismael Silva. Eu perguntava: "Essa música não é sua, Ismael? Não foi você que fez?". Ele respondia: "Eu fiz, mas vendi pro Francisco Alves. Então é dele". Sambas maravilhosos eram vendidos por 20 mil réis, uma mixaria.

Chico Buarque
Desde pequeno era um menino fabuloso e superinteligente. Um dia, ainda bem jovem, ele me mostrou uma música que acabara de compor, Pedro Pedreiro. Fiquei impressionado como aquela canção era perfeita. Chico é a única unanimidade nacional. Pode-se discutir a respeito de qualquer um, menos de Chico.

Vinicius de Moraes
Uma das melhores pessoas que conheci na vida. Só tinha o defeito de fazer samba nas coxas, de uma noite para a outra, quase só com emoção. Em geral, o resultado era ruim. Vinicius foi um dos maiores poetas da língua portuguesa e um péssimo sambista.

Sem exageros

Sou absolutamente contra cantores excessivos, cheios de emoção e firula. Meus sambas já têm muita emoção. Se puser mais, lambuza tudo, fica uma coisa piegas.

Sem novos sambas

Meu último samba é Quando Eu For Eu Vou Sem Pena. Por volta dos 80 anos (ele tem 84), de uma hora para a outra, perdi completamente a vontade. Não voltarei a compor. Mas já fiz mais de 60 músicas. Está bom demais.

31 de agosto de 2008

Melhor que o silêncio, só conversa de João

“Boa noite, obrigado”. Essa foi a primeira surpresa de uma noite inacreditável. João Gilberto não é aquele músico excêntrico e fechado que, ao entrar no palco, mal percebe que há uma platéia a sua frente? Ao menos naquela apresentação histórica do Auditório do Ibirapuera, mandaram um sósia. E duvido que alguém tivesse sentido falta do original.
Ele tocou a primeira música, com a perfeição que lhe é usual. O público fez silêncio absoluto, com a admiração (e algum medo que o violonista fosse embora do nada), como também é usual. Mas, ao terminar de executá-la, encarou o público e começou a – surpreendentemente – falar, daquela maneira de seduzir ouvintes que só João sabe. “Uns jornalistas por aí falaram que me atrasei ontem porque havia saído para jantar. Gente, eu peguei um avião demoradíssimo, e não era desses modernos a jato, não. Era quase um teco-teco, um avião de hélice ainda. Disseram que saí pra jantar... Eu engoli a comida! Se não comesse algo, cairia morto aqui na frente de você”. Entre “Ahhhhhhhhhhhh....” e gargalhadas do público, se viu que em uma explicação São Paulo já havia perdoado o gênio de todas as críticas que já recebeu na vida. Mas era só o começo.
Após outra música, foi novamente ao microfone. “Disseram que saí pra jantar.... humpf. Tem jornalista que perde o amigo, mas... não perde a notícia”. Novos “Ahhhhhhhhhhh” do público. Disse que tem amor por São Paulo, pela gente trabalhadora e que nunca faria algo que desagradasse esta cidade. E terminou, de forma quase nonsense: “É o amoooooooor”, com timbre de cantor sertanejo. Neste momento todos ficaram com coraçõezinhos de desenho animado nos olhos.
Chegou o momento do, possivelmente, maior clássico do seu repertório, O Pato. A reinventou de forma igual como faz há 50 anos. Terminou de tocar, olhou para o nada e divagou: “Tão bonitinhos os patos na lagoa, né? Tão bonitinhos...”. Houve uma divisão na platéia. Ninguém mais sabia se queria que a música começasse ou que terminasse. Pois, a cada término, ouviríamos João falar, que é a única coisa melhor que seu canto.
E não importa se fossem críticas à imprensa, divagações ou comentários semi-fúteis. Saindo de Joãozinho, se tornavam acontecimentos. “Eu nunca bebo água no show. Nunca bebo. Hoje vou beber”. Pegou a garrafinha ao seu lado, começou a abrir e... “Ah, hoje não vou beber também”.
Mostrou uma música inédita também, que pelo que entendi foi composta por ele. Era uma homenagem ao Japão, com palavras em japonês, português e inglês. “Eu só deveria mostrar essa música lá no Japão. Mas vou tocar pra vocês. Eu adoro o Japão, adoro aquele povo. Que bom que eles vieram para o Brasil ser nossos vizinhos”. O público: “Ahhhhhhhhhhhhh”.
Na hora de executar Bahia com H, lembrou como conheceu a música. "Eu encontrei com o compositor na antiga Rádio Excelsior. Ele era de Campinas. Falei pra ele: 'Que beleza a música que você fez sobre a Bahia. Que linda, que coisa linda. Você deve amar a Bahia'. E ele me respondeu: 'Eu nunca fui na Bahia'".
Logo depois, tocou a última música, se levantou e se curvou para São Paulo, que já havia se curvado a ele há 50 anos. Ao se retirar, todo o barulho contido nos 800 (ou 1.600) pulmões começou a ecoar. “Volta! Volta! Volta!”. E ele voltou.
Todos já sabiam que aquela possivelmente seria a última música de uma noite inesquecível. O baiano se envolveu ao violão (porque ele não toca, mas se envolveao instrumento. Se fosse um ser mitológico seria meio homem, meio violão, como disse um jornalista), começou a dedilhar os primeiros acordes e se despediu do público com a belíssima Guacyra. “Adeus Guacyra/ Meu pedacinho de terra/ Meu pé de serra/ Que nem Deus sabe onde está / Adeus Guacyra / Onde a lua pequenina / Não encontra na colina / Nem um lago pra se oiá / Eu vou embora/ Mas eu volto outro dia...”. Adeus, João, pensou o público em uníssono, quase com lenços brancos de mulheres de soldados que estão indo para a guerra. Assim que ele sumiu entre as cortinas, o público boquiaberto ainda conseguiu soltar suas últimas palavras: "Ahhhhhhhhhh".

10 de agosto de 2008

Melhor que o silêncio, só show de João

Coerência e genialidade. Não há outras formas para descrever a figura que modernizou a música brasileira e, em apenas um disco, livrou todo o País dos bolerões sentimentais que infestavam as rádios no fim dos anos 1950.

João Gilberto, aquele que diz que faz samba, e não bossa nova.

João Gilberto, aquele que nunca abriu concessão a sua arte.

João Gilberto, aquele que disse que as árvores se descabelavam. Ao ser interpelado por uma pessoa desavidada, que explicou que as árvores não têm cabelos, respondeu: "E tem gente que não tem poesia".

João Gilberto, aquele que quase enlouqueceu todos os músicos na gravação de Chega de Saudade, porque eles insistiam em não ter sua genialidade.

João Gilberto, aquele que disse pra Tom Jobim: "Você é brasileiro, Tom, você é preguiçoso".

João Gilberto, aquele que, ao gravar com Stan Getz, balbuciou em português: "Como este gringo é burro".

João Gilberto, aquele que explica que cantar é como rezar. Acima da técnica e do alcance vocal tem que ter sinceridade.

João Gilberto, aquele que é melhor que o silêncio.

João Gilberto, aquele que fará dois shows em São Paulo nos dias 14 e 15 de agosto.

Bruno, aquele que conta os milésimos de segundos pra estar em uma das cadeiras do Auditório do Ibirapuera na apresentação de sexta-feira.

Amém.

1 de agosto de 2008

Pedro Cafardo, fale por mim

Há anos atuo numa filantrópica campanha para abrir os olhos da humanidade sobre alguns temas lingüísticos. Não por puritanismo gramatical, mas porque as expressões têm sentido de ser como são. Existir "mau" e "mal", por exemplo, não é um capricho de quem inventou as palavras. Enfim, enfim... Deixo Pedro Cafardo, do Valor Econômico, terminar de falar por mim. E um bom final de semana a todos.
Alguém já viu uma jaca despencar 5%?

Pedro Cafardo
Valor Econômico

O leitor mais atento deve concordar que a imprensa freqüentemente exagera na criatividade, escorrega nas palavras e agride normas no uso diário da língua portuguesa. Pela repetição, alguns erros e manias certamente chegam a irritar esse leitor.
O "fim de semana", por exemplo, foi quase extinto na imprensa, tanto em jornais e revistas quanto no rádio e na televisão. Usa-se, pomposamente, "final de semana". Vá lá que o Aurélio admita o uso da palavra "final" como substantivo, mas ela é primordialmente um adjetivo.
Não há explicação para o fato de que o adjetivo "final" tenha, aos poucos, tomado o lugar do substantivo "fim", muito mais elegante nesse caso. Afinal, se fim de semana fosse final de semana, o início dela seria inicial. Dói ouvir a todo instante no rádio e na TV a repetição de final de mês, final de semestre, final de ano ou final do filme. Isso chega a ser brega.
Jaca despenca de vez ou fica no galho. A bolsa, idem
Não há, obviamente, nenhuma regra para o uso de termos em inglês ou originários do inglês. O bom senso indica o que usar. Agride o bom senso, por exemplo, empregar a palavra "sítio" no lugar de "site" da internet. Pode ser que em Portugal, onde essa palavra é comumente usada com o sentido de "lugar", sítio seja melhor que site. Mas, no Brasil, sítio sempre foi uma pequena propriedade rural. O "site da internet" já ganhou a briga: não há por que se insurgir contra o termo. Puristas poderiam até tentar emplacar um aportuguesado "saite", mas "sítio" não dá. É pedante.
Outras palavras advindas do inglês, embora inadequadas, acabam ganhando também a briga e se impondo no dia-a-dia apressado dos textos da imprensa. É inútil combatê-las. "Volatilidade", por exemplo, é um termo escrito sem nenhum receio pelos jornalistas de economia. No dicionário, "volátil" é uma coisa que voa, que se reduz a gás ou vapor. É uma qualidade que, em português, se aplica perfeitamente aos gases, não às cotações das ações. Mas, quando as bolsas passaram a ter um comportamento instável, na crise da bolha da internet, a imprensa econômica importou o "volatility" do inglês. E não teve a idéia de traduzi-lo por "instabilidade". Para a imprensa, "volatilidade" passou a ser uma instabilidade muito forte, significado que não encontra respaldo na origem da palavra.
Para dar mais ênfase a uma notícia, a imprensa de economia também acaba por escolher alguns verbos diferentes, que são usados de forma inadequada - como "despencar" ou "desabar" no lugar de "cair" e "disparar" no de subir. São muito comuns frases assim: "A bolsa de São Paulo despencou 5%" ou "o dólar desabou 6%". Isso chega a ser engraçado. Pode-se, é claro, usar esses verbos para retratar o dia-a-dia do mercado, mas sem perder a noção de seu significado. Despencar é um verbo usado para descrever a queda de frutas, objetos ou pessoas. Uma jaca despenca da jaqueira quando está muito madura. Nunca se viu, porém, uma jaca despencar 5%. Ou ela despenca de vez ou fica no galho. E se a jaca não pode despencar 5%, por que a bolsa de valores poderia? Desabar se aplica bem a um prédio que cai ou a uma ponte. Se uma obra dessas desaba, cai de uma vez. Também não dá para imaginar como seria possível um prédio desabar 6%. Se o articulista quiser ser grandiloqüente, até poderá dizer que a bolsa "despencou", o dólar "desabou" ou que a cotação da soja "disparou". Mas nunca que "despencou 5%", "desabou 6%" ou "disparou 10%".
Outro uso inadequado que deve irritar o leitor atento é o do verbo "acontecer". São muito comuns frases assim: "A reunião do Conselho Monetário Nacional vai acontecer na quarta-feira". Acontecer passa, necessariamente, a idéia do inesperado ou do imponderável. Então, um evento programado não pode "acontecer". Ele ocorre ou realiza-se. Só acontecem mesmo acidentes nas estradas, desabamentos, enchentes nas cidades etc. Enfim, não podem acontecer coisas previstas.
Por falar nisso, é comum acontecer a troca de advérbios por adjetivos em textos jornalísticos. "Independente" ocupa com freqüência o lugar de "independentemente". Há dias, alguém escreveu que "independente do resultado final da inflação de junho, o Banco Central deverá aumentar os juros na próxima reunião do Conselho de Política Monetária". No dia seguinte, a notícia de uma agência informava que "a confiança do investidor caiu 'forte' em razão dos aumentos de preços". Aparentemente, a imprensa odeia advérbios e cultiva os adjetivos.
Pedro Cafardo é editor-executivo do Valor.
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Nota minha: Mas o pior continua sendo o "literalmente o Brasil saiu dos trilhos". Essa liberdade poética é imbatível.

17 de julho de 2008

Clube de fidelidade

Meus queridos dois leitores. Vocês, como portadores da carteirinha Eu Quero um Samba: Sou Vip, têm um mundo de vantagens. E, pra estrear essa nova jogada de marketing, colocarei um especial que será publicado apenas na edição de agosto da revista Almanaque Brasil.

Só minha dupla de leitores VIP preferida pode ler antes (mas não esqueça de pagar a mensalidade em dia).


O ritmo em pessoa
Por Bruno Hoffmann

A, E, I, O, U, Ypsilone... Foi assim que o nordestino, pobre e semi-analfabeto Jackson do Pandeiro se lançou para o Brasil. Sucesso instantâneo, Sebastiana deixou boquiaberto o público, que possivelmente pensou em uníssono: "De onde vem tanto ritmo?". A resposta é difícil, tal qual sua vida. Mas há suspeitas: vem da Paraíba, de sua mãe, de ex-quilombolas, do inexplicável.

Nem os executivos da gravadora Copacabana conseguiram acreditar. A estréia fonográfica de um nordestino até então desconhecido, em um disco de 78 rotações, alcançou a vendagem de 50 mil cópias naquele verão de 1953. Mais do que o dobro de sua estrela principal, a popularíssima Ângela Maria. O nordestino em questão, Jackson do Pandeiro, estourou em vendas com Sebastiana, de Rosil Cavalcanti, e Forró em Limoeiro, de Edgar Ferreira. Seu estilo único de cantar, tocar e se apresentar - mistura de samba, coco, baião e forró; cheio de síncope e sofisticada divisão ritmíca - impressionou o público. Enfim, começava a conquistar o "sul-maravilha", que logou colocou sobre a novidade a alcunha de "o rei do ritmo".

Ninguém poderia vislumbrar esse futuro em 31 de agosto de 1919, quando nasceu na cidade de Alagoa Grande, agreste paraibano. Primeiro filho do oleiro (fazedor de tijolos) José Gomes e de Flora Maria da Conceição, José Gomes Filho chegou ao mundo em situação de extrema pobreza. Mas não musical. A mãe, conhecida como Flora Mourão, era uma respeitada cantora de coco da região. Dela receberia as primeiras aulas ritmícas. E seriam as únicas que freqüentaria na infância. "Jack", como Flora o chamava por sua suposta semelhança com Jack Perry - ator norte-americano de western dos anos 1930 - nunca estudou em escola regular. Foi semi-analfabeto por toda a vida.

Entre cocos e foxtrotes

Jackson receberia outras influências musicais na cidade-natal. Graças ao desenvolvimento da região, motivado principalmente pelos engenhos de açúcar, o município passou por um momento de importante expansão cultural. Havia escolas de música, quatro blocos carnavalescos e um teatro que abrigava refinados saraus. Também havia a Bandinha de Caiana, formada por integrantes da comunidade de Caiana dos Crioulos, ex-quilombolos que vivam nas cercanias da cidade. Suas apresentações se caracterizavam pelo sincretismo musical. Misturavam ritmos herdados dos antepassados com modismos da época, como a rumba e o foxtrote. Destacavam-se ainda pelo vestuário cheio de cores fortes: vermelho, amarelo-ouro, rosa-choque. As referências musicais e estéticas do pequeno Jack iam tomando forma.

No início dos anos 1950, após decidir pela música como profissão, Jackson partiu para Recife. Na cidade conheceu a cantora e dançaria de rumba Almira Castilho, com quem formou uma dupla - de música e de fato. Casaram-se em 1953. Nas apresentações, formavam uma unidade: ela, com danças envolventes e sensuais; ele, sendo Jackson do Pandeiro.

Toda essa cena era envolvida com roupas coloridas e alegres, tal qual às dos quilombolas de sua infância. O sucesso veio com óbvia naturalidade. Primeiro no Norte e Nordeste; depois, em todo o País, com a gravação do primeiro disco pela Copacabana.


A ordem é samba

Após indas-e-vindas para apresentações no Sudeste, Jackson e Almira se mudaram definitivamente para o Rio em 1955. Gravaram no mesmo ano o álbum Sua Majestade - O Rei do Ritmo, que contém músicas como Canto da Ema (Alventino Cavalcante, Ayres Viana e João do Vale) e A Mulher do Aníbal (Nestor de Paula e Genival Macedo). Também atuaram em diversos filmes populares.

No carnaval, gravava frevos e marchinhas. No meio do ano, forrós, cocos e xaxados. E os sucessos foram se somando. No auge da carreira, gravou canções que posteriormente receberiam a voz de importantes nomes da música popular, como Chiclete com Banana (Gordurinha e José Gomes) e Cantiga do Sapo (Jackson do Pandeiro e Buco do Pandeiro). Na esteira veio também A Ordem é Samba (Jackson do Pandeiro e Severino Ramos), uma espécie de "canção-protesto" contra a mania do público carioca de só querer saber de samba. E de samba ele também entendia: É samba que eles querem?/ Eu tenho/ É samba que eles querem? / Lá vai / É samba que eles querem? / Eu canto/ É samba que eles querem / Nada mais.

Obra viva

Com a efervescência cultural dos anos 1960, Jackson foi paulatinamente perdendo espaço para a Tropicália, para a Jovem Guarda, para a dita MPB. As apresentações rareavam. O casamento também não andava bem. Separou-se de Almira em 1967. No mesmo ano conheceu a adolescente Neuza Flores dos Anjos, com quem se casou.

Nos anos 1970, seus sucessos foram regravados por artistas como Novos Baianos e Gilberto Gil. Também lançou discos com canções inéditas, mas suas novidades já não atraíam tanta atenção. Em 1981, após passar mal depois de um show em Brasília, morreu aos 62 anos, em decorrência de embolia pulmonar e cerebral.

Sua obra, no entanto, permanece viva. Seja entoada em qualquer forró que se preze; seja reavivada por sucessivas novas gerações de artistas brasileiros.

10 de julho de 2008

Você sabia?

Dez notas curtinhas sobre samba.
O amor de nove sambas
Noel Rosa compôs nove sambas para Ceci, a dançarina de cabaré que foi o grande amor de sua vida. São eles A Dama do Cabaré, O Maior Castigo que te Dou, Deixa de Ser Convencida, Quantos Beijos, Pela Décima Vez, Quem Ri melhor É quem Ri no Fim, Pela Primeira Vez na Vida, Pra que Mentir?, Ilustre Visita e Último Desejo. As canções, autobiográficas, são todas em primeira pessoa.
O primeiro
A primeira canção de Noel para Ceci foi A Dama do Cabaré. O cabaré citado, no qual Ceci trabalhava, se chamava Apolo.
A briga de nove sambas
A briga entre Noel Rosa e Wilson Batista também rendeu nove músicas. Por Wilson foram compostas Lenço no Pescoço, Mocinho da Vila, Conversa Fiada, Frankstein da Vila e Terra de Cego. Já Noel escreveu Rapaz Folgado, Feitiço da Vila, Palpite Infeliz e João Ninguém.
Os adversários se unem
A única parceria entre ambos é em Deixa de Ser Convencida. Deu-se logo após Wilson ter composto o samba de mau-gosto Frankstein da Vila. Eles se encontraram em um bar da Lapa, brincaram sobre a música e Wilson disse: “Noel, tenho mais uma aqui pra você”, e cantou Terra de Cego. Noel gostou da melodia e sugeriu que se fizesse uma nova letra para ela. Em poucas horas, estava pronta Deixa de Ser Convencida, uma mensagem a Ceci.
Bela resposta
Wilson Batista, em entrevista a uma rádio em 1951, tentou explicar o inexplicável: o porquê de ter escrito Frankstein da Vila. E se saiu bem. “Noel era homem. E não há mal algum em chamar homem de feio”, disse.
Lá na Penha vou levar minha morena pra sambar...
Ao contrário do que se pensa, não foi a Vila Isabel o bairro mais exaltado por Noel. O mais mencionado por ele – em oito canções – é a Penha.
Joãozinho faz samba
João Gilberto, considerado o precursor da Bossa Nova, recusa o título. “Eu faço samba”, afirma.
O presente de Cyro deu resultado
Chico Buarque compôs a música Receita para Virar Casaca de Neném para responder a Cyro Monteiro, que tinha como hábito enviar uma camisa do Flamengo aos filhos recém-nascidos de amigos. Na canção, o tricolor Chico afirma que de nada adiantaria, pois ele mudaria as cores da camisa, inverteria o listrado no peito e “nasceria desse jeito uma outra tricolor”. Mera ilusão. Silvia Buarque (o neném de então) se tornou rubro-negra.
Quanto custa?
Um dos sambas mais famosos da história, A Flor e o Espinho, é assinado por Nelson Cavaquinho, Guilherme de Britto e Alcides Caminha. Este último, na verdade, não fez nada na música. A comprou de Nelson, pratica freqüente do sambista. E o freguês tinha um pseudônimo, Carlos Zéfiro. Com este nome publicava histórias pornográficas ilustradas (conhecidas como catecismos), que se tornaram cults. Algumas de suas ilustrações estão na capa do disco Barulhinho Bom, de Marisa Monte.
Sem mancada não tem samba
O Arnesto, da música O Samba do Arnesto, existiu (aliás, existe, e está com 93 anos). Chama-se Ernesto Paurelli e vive no bairro da Mooca. Porém, quando se tornou amigo de Adoniran Barbosa, morava no Brás. Por gostar da sonoridade de seu nome, o compositor disse que um dia ainda faria um samba para ele. E, alguns anos depois, o “Arnesto” ouviu a canção no rádio. Ficou emocionado. Só uma coisa o incomodava: as piadinhas que ouvia toda hora, pela fama de ser alguém que “dá bolo” (a situação descrita no samba nunca existiu). Comentou o incômodo a Adoniran, que respondeu: “Se não tem mancada não tem samba, Arnesto”.
Pra fazer as pazes
Foi um Rio que Passou na minha Vida, samba de Paulinho da Viola de exaltação à Portela, nasceu por causa da Mangueira. Ao menos indiretamente. É que o compositor tinha sido parceiro de Hermínio Bello de Carvalho em Sei Lá, Mangueira, causando mal-estar na Portela. Para se redimir, então, compôs a música. E tudo ficou em paz.