10 de julho de 2008

Você sabia?

Dez notas curtinhas sobre samba.
O amor de nove sambas
Noel Rosa compôs nove sambas para Ceci, a dançarina de cabaré que foi o grande amor de sua vida. São eles A Dama do Cabaré, O Maior Castigo que te Dou, Deixa de Ser Convencida, Quantos Beijos, Pela Décima Vez, Quem Ri melhor É quem Ri no Fim, Pela Primeira Vez na Vida, Pra que Mentir?, Ilustre Visita e Último Desejo. As canções, autobiográficas, são todas em primeira pessoa.
O primeiro
A primeira canção de Noel para Ceci foi A Dama do Cabaré. O cabaré citado, no qual Ceci trabalhava, se chamava Apolo.
A briga de nove sambas
A briga entre Noel Rosa e Wilson Batista também rendeu nove músicas. Por Wilson foram compostas Lenço no Pescoço, Mocinho da Vila, Conversa Fiada, Frankstein da Vila e Terra de Cego. Já Noel escreveu Rapaz Folgado, Feitiço da Vila, Palpite Infeliz e João Ninguém.
Os adversários se unem
A única parceria entre ambos é em Deixa de Ser Convencida. Deu-se logo após Wilson ter composto o samba de mau-gosto Frankstein da Vila. Eles se encontraram em um bar da Lapa, brincaram sobre a música e Wilson disse: “Noel, tenho mais uma aqui pra você”, e cantou Terra de Cego. Noel gostou da melodia e sugeriu que se fizesse uma nova letra para ela. Em poucas horas, estava pronta Deixa de Ser Convencida, uma mensagem a Ceci.
Bela resposta
Wilson Batista, em entrevista a uma rádio em 1951, tentou explicar o inexplicável: o porquê de ter escrito Frankstein da Vila. E se saiu bem. “Noel era homem. E não há mal algum em chamar homem de feio”, disse.
Lá na Penha vou levar minha morena pra sambar...
Ao contrário do que se pensa, não foi a Vila Isabel o bairro mais exaltado por Noel. O mais mencionado por ele – em oito canções – é a Penha.
Joãozinho faz samba
João Gilberto, considerado o precursor da Bossa Nova, recusa o título. “Eu faço samba”, afirma.
O presente de Cyro deu resultado
Chico Buarque compôs a música Receita para Virar Casaca de Neném para responder a Cyro Monteiro, que tinha como hábito enviar uma camisa do Flamengo aos filhos recém-nascidos de amigos. Na canção, o tricolor Chico afirma que de nada adiantaria, pois ele mudaria as cores da camisa, inverteria o listrado no peito e “nasceria desse jeito uma outra tricolor”. Mera ilusão. Silvia Buarque (o neném de então) se tornou rubro-negra.
Quanto custa?
Um dos sambas mais famosos da história, A Flor e o Espinho, é assinado por Nelson Cavaquinho, Guilherme de Britto e Alcides Caminha. Este último, na verdade, não fez nada na música. A comprou de Nelson, pratica freqüente do sambista. E o freguês tinha um pseudônimo, Carlos Zéfiro. Com este nome publicava histórias pornográficas ilustradas (conhecidas como catecismos), que se tornaram cults. Algumas de suas ilustrações estão na capa do disco Barulhinho Bom, de Marisa Monte.
Sem mancada não tem samba
O Arnesto, da música O Samba do Arnesto, existiu (aliás, existe, e está com 93 anos). Chama-se Ernesto Paurelli e vive no bairro da Mooca. Porém, quando se tornou amigo de Adoniran Barbosa, morava no Brás. Por gostar da sonoridade de seu nome, o compositor disse que um dia ainda faria um samba para ele. E, alguns anos depois, o “Arnesto” ouviu a canção no rádio. Ficou emocionado. Só uma coisa o incomodava: as piadinhas que ouvia toda hora, pela fama de ser alguém que “dá bolo” (a situação descrita no samba nunca existiu). Comentou o incômodo a Adoniran, que respondeu: “Se não tem mancada não tem samba, Arnesto”.
Pra fazer as pazes
Foi um Rio que Passou na minha Vida, samba de Paulinho da Viola de exaltação à Portela, nasceu por causa da Mangueira. Ao menos indiretamente. É que o compositor tinha sido parceiro de Hermínio Bello de Carvalho em Sei Lá, Mangueira, causando mal-estar na Portela. Para se redimir, então, compôs a música. E tudo ficou em paz.

26 de junho de 2008

Por que "pois"?, ora pois

Sempre que ouvia a clássica Último Desejo, de Noel Rosa e Vadico (aliás, sinto que já falei sobre esse samba há pouco tempo) na gravação de Aracy de Almeida, me surgia uma dúvida importante: afinal, por que ela canta “pois meu último desejo você não pode negar” em vez de “mas meu último desejo você não pode negar”?
A interpretação de Aracy é rara, é bonita, é precisa. Mas esse “pois” irrita, porque muda completamente o sentido do verso, que não pretende indicar uma conseqüência.
Achava que Noel tivesse escrito dessa maneira. Mas, apesar dos coloquialismos de suas composições, não era dado a esses desvios lingüísticos. Será que escrevera assim por estar sofrendo pela Céci?
Enfim, descobri a causa após folhear o livro Noel Rosa: Uma biografia (João Máximo e Carlos Didier) que encontrei na redação. E a resposta é a mais óbvia possível: Aracy cantou errado.
Para desgosto de Noel, é bom saber. O ano era 1936. O compositor estava com a saúde debilitada e recebeu, em sua casa, a visita de um amigo, que lhe deu a notícia: “Acabei de ouvir a Aracy cantar Último Desejo no rádio”.
“Mas, como? Ela nem aprendeu o samba direito”, respondeu Noel. “É, eu percebi”, retrucou o amigo.
Além de “pois meus último desejo”, informou que também trocou o “o meu lar é o botequim” para “o meu lar é um botequim”. Noel ficou bravo. Disse que nunca mais daria uma composição sua para ela cantar. Mas, pouco depois, e por estar muito doente, esqueceu o assunto.

“Calma!”

E esta não foi sua primeira briga gramatical com a Dama do Encantado. Dois anos antes, houve outra discussão devido ao samba O Maior Castigo que eu te Dou, que estava prestes a ser gravado por ela.
Aracy insistia em cantar “não há ninguém mais calma do que eu sou”. Ela argumentava que era uma mulher, afinal.
“Mas, Aracy, este “calmo” depois de ninguém não varia”, explicando que era um pronome indefinido, que não acusa gêneros, e portanto devia cantar "não há ninguém mais calmo...".
“Não interessa! Não vou cantar como se fosse homem”, respondeu.
Já bravo, Noel insistia: “Mas o certo é calmo”.

“Calma!”.

“Calmo!”.
Um amigo contemporizou os ânimos e explicou que Noel estava certo. Aracy morreu sem concordar.

24 de junho de 2008

Como gastar muito dinheiro à toa

Ou os profissionais da Gillete sabem alguma coisa que ninguém mais sabe, ou é o amigo do sobrinho do dono da empresa que cuida da publicidade da corporação.
Pense: a empresa contrata quatro dos maiores – e mais caros – esportistas atuais. Os futebolistas Kaká e Thiery Henry, considerado o melhor jogador de 2007 e a principal estrela do futebol francês atual, respectivamente. O golfista Tiger Woods, provavelmente o maior fenômeno da modalidade de todos os tempos. E o tenista Roger Federer, número um do ranking da ATP há 112 anos.
Lança uma campanha mundial com esses ícones para divulgar seu novo aparelhinho de fazer barba. Gasta, conseqüentemente, milhões de dólares. Divulga os comerciais em mais países do que os que são associados à ONU. E o resultado é o vídeo abaixo.
Aguardo explicações dos meus dois inteligentíssimos leitores.
Obrigado.

Gillete Mach3, com Kaká, Henry, Woods e Federer

14 de junho de 2008

Música de museu

“Não há, ó gente, ó não, luar como este do sertão...”.

“Brasil, meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro...”

“Moro num país tropical, abençoado por Deus...”.

Os versos acima são de canções incríveis, feitos por grandes compositores da popular música brasileira (Catulo da Paixão Cearense, Ary Barroso e Jorge Ben, respectivamente). Mas de tão tocadas, executadas, declamadas – e qualquer outra coisa que termina em “ada” -, cansou. Aliás, não é bem que cansou. É além disso. Tais músicas conquistaram tanta importância que não há mais sentido de serem executadas em bares ou festas. É o dejavù do dejavù. É como se, num debate sobre artes plásticas, alguém chegasse para analisar o olhar da Monalisa.

E essas canções são a Monalisa da nossa música. Como há diversas outras, que deveriam ser guardadas num museu e apenas lá serem mostradas. Justamente por serem valiosas, mas não terem mais efeito à sensibilidade.
OK, a Monalisa é muito legal. Mas me mostra o próximo quadro.

11 de maio de 2008

Tristeza com ritmo

A base do samba é a amargura, e não a alegria. Ou, melhor: é uma tristeza com ritmo contente. É a desesperança dançante. É enganar o mal. Como diria Assis Valente no clássico Alegria, “Minha gente era triste e amargurada e inventou a batucada pra deixar de padecer. Salve o prazer, salve o prazer”.

Outro exemplo clássico é uma marchinha criada em Mangueira que se popularizou na voz de Elza Soares que, num ritmo delicioso, é posta tal letra: “Ai, ai, meu Deus! Tenha pena de mim/ todos vivem muito bem só eu que vivo assim/ trabalho, não tenho nada, não saio do miserê/ Ai, ai meu Deus, isso é pra lá de sofrer (...) E pra matar o tempo e não falar sozinho/ Amarro essa tristeza com as cordas do meu pinho”.

É o que os sambistas têm feito há quase um século. Amarrar a tristeza com as cordas do pinho e do cavaquinho. É saber que tristeza não tem fim, felicidade sim. É notar que é feliz aquele que sabe sofrer. É voltar ao jardim com a certeza que se deve chorar. É perceber que era mentira que enfim se vivia o grande amor. É pedir um último desejo.

E a última oração do parágrafo anterior é o lugar no qual se está o samba mais triste da história. Noel, e tinha que ser Noel. Sem esperança, sem alegria, sem ironia, sem retrato, sem bilhete, sem luar, sem violão. É o funeral do amor. Mas pede um inegável último desejo. Só arrepia.

Colocar a letra desta música é pouco. Abaixo segue o vídeo. Aperte o play e diga amém.

Último Desejo

30 de abril de 2008

Fácil, extremamente fácil

Há décadas que muitos músicos compõem priorizando mais as vendas do que qualquer tipo de anseio artístico. Basta lembrar os termos “música de carnaval” e “música de meio de ano”, comuns entre os anos 1930 e 1970. As de carnaval eram lançadas entre dezembro e janeiro, para o povo se acostumar e serem executadas à exaustão nos bailes carnavalescos. Se perdurasse, melhor, mas tinha apenas a finalidade de agradar e, conseqüentemente, gerar lucro. Normal. Afinal, músico é um profissional, mas ganhar dinheiro, na maioria dos casos, vinha junto com qualidade e proposta artística. Mais recentemente, outro fenômeno, e este um pouco pior: os artistas, infelizmente, pararam de ter vergonha de usar o horroroso termo “música de trabalho”. E assim iam, aos programas dominicais “mostrar a maravilhosa música de trabalho que, logo, logo o Brasil todo vai cantar. Me dá um dó, maestro”. E uma notícia que li hoje, sobre o lançamento do novo CD do sertanejo Daniel, mostra que se chegou ao fundo do poço. Na reportagem, o nosso querido sertanejo diz que “As músicas neste disco se resolvem e evoluem com facilidade. Hoje em dia, as mensagens têm que ser claras. As pessoas querem saber logo do que trata uma música, então, mostramos logo qual é a mensagem”, e completa: “Vamos direto ao coração de quem está escutando”.

É o fundo do poço, sem dúvida. Como assim “as músicas se resolvem e evoluem com facilidade”? O que se resolve e evolue com facilidade é metrô, e não nenhuma obra artística. Mas a pior frase é sobre que, atualmente, as mensagens músicais têm que ser claras e que as pessoas querem saber logo do que se trata. Se alguém encontrá-lo, manda ele falar por si. Quero saber logo do que se trata em conta de matemática, em extrato de banco, em saber onde passa tal ônibus. Arte é pra provocar inquietude e desconforto. Pode provocar alegria também, claro. Mas não esse tipo de alegria extremamente fácil (que um sorvete de chocolate substituiu com o mesmo resultado). E o mais preocupante de tudo é ele não sentir vergonha de falar isto. Mostra que se chegou num ponto em que esse tipo de declaração não provoca pouco – ou nenhum – tipo de reação.

Antônio Abujamra certa vez sugeriu que artistas deveriam esquecer de querer agradar, que a arte é uma expressão individual. E só quem quisesse fosse ver, porque “esta é minha arte e ponto final”. Este tipo de radicalização não é o ideal. Bom é saber mesclar a expressão individual e a aceitação popular. Mas a aceitação desse pragmatismo artístico, traduzido sem vergonha (e sem-vergonha) por Daniel, é um alento. Porque, se chegamos neste ponto, a tendência é só melhorar. Ou fechar a lojinha.

24 de abril de 2008

Futebóis europeu e brasileiro

Esqueçamos o “futebóis” - palavra certa, mas esquisita – e vamos nos atentar sobre as diferenças entre dois dos principais palcos do futebol mundial: brasileiro e europeu. Após cada rodada, é comum entre os jornalistas esportivos a seguinte sentença: “Na Europa seria diferente”, normalmente para desdenhar do estilo brasileiro de jogar e apitar futebol. Ao mesmo tempo, quando um jogador brasileiro se destaca pela ginga, rapidamente a mídia sentencia: “Esse é o futebol brasileiro, não aquele jogo europeu completamente amarrado e na base do chuveirinho”.

Há, sim, diferenças claras entre as duas praças esportivas. Algumas favoráveis a nós, outras a eles. Vamos a elas:

Brasil ganha da Europa

Numeração: A Europa tem a exdrúxula mania de colocar números altos em seus jogadores. Camisas 99, 74, 54 não são incomuns. O Edmundo usava a 98 em sua época de Napoli, por exemplo. Torcedores desavisados podem se sentir numa partida de basquete. Para ficar claro: a zaga e os volantes usam camisa até oito. Os armadores usam a sete e a dez, e os atacantes a nove e a 11, como comumente ocorre no Brasil. Simples assim.

Torcida: Talvez contradizendo minha postagem abaixo, futebol não é teatro. Enquanto os europeus (principalmente os espanhóis) se acostumaram a assistir de maneira confortável às partidas em cadeiras numeradas e sentados praticamente durante toda a peleja, a torcida corinthiana entoa a singela canção contra os poucos que querem imitar os hispanos: “Levanta, cuzão, é jogo do Timão”. Conforto em estádio é ter lugar pra estacionar, banheiro minimamente em condições e algo pra comer. Frente a frente aos 22 jogadores, é momento de ficar em pé.

Preço dos ingressos: A Inglaterra é um dos mais importantes exemplos de como se frear a violência nos estádios. Mas, para evitar os hooligans, tomou uma atitude infeliz: inflacionar o preço dos ingressos, que se tornaram caros mesmo pra quem ganha em libra. No Brasil a entrada não é uma mixaria, mas essa mania – ainda – não se instalou por aqui. Os preços continuam acessíveis.
Europa ganha do Brasil

Nova cobrança de pênalti: Você está lá, assistindo seu time conquistar um empate heróico contra outra equipe muito mais forte. Mas, aos 44 do segundo tempo, o lateral-direito derruba o adversário num carrinho sem necessidade dentro da área. Pênalti! Você pensa: “Ih, fudeu”. Porém, na hora da cobrança, seu goleiro consegue se esticar todo e tirar a bola com a ponta dos dedos. Enquanto você comemora, o bandeira levanta o instrumento: a cobrança foi anulada. Segundo julgamento do auxiliar, seu goleiro saiu de cima da linha antes da cobrança. Na Europa, é rara a situação acima ocorrer. O bom-senso prevalece sobre a regra.

Discussão em campo: Em partidas decisivas, é normal – e até mesmo saudável – os jogadores estarem tensos. Aí, por qualquer motivo, ocorre uma discussão em campo. Os jogadores se encaram e ocorre um rápido empurra-empurra. Em vez de deixar o jogo seguir, lá vai o imbecil vestido de preto (ou em outras cores, o que o torna mais imbecil ainda) distribuir cartão amarelo. E sempre é um pra cada lado – mesmo se um deles apenas se defendeu. Em campos europeus essas discussões são encaradas com naturalidade.

Cartões não são dados à toa: Os árbitros brasileiros estão cada dia mais chatos. Foi comemorar com a torcida: cartão amarelo. Discutiu com o adversário: cartão amarelo. Deu uma puxadinha na camisa do outro jogador: cartão amarelo. E, pior: se já tiverem sido amarelados, não titubeiam em mostrar o cartão vermelho ao jogador. Ainda não entenderam que dar cartão é exceção, não regra. Querem que os gramados estejam repletos de santos. E quando o futebol chegar neste nível, procuremos outro esporte pra ser a coisa mais importante entre as menos importantes.

25 de março de 2008

Cadê a vaia?

Hoje o UOL noticiou as dificuldades que o grupo de teatro Os Satyros passou com sua apresentação da peça Vestido de Noiva em Curitiba. O espetáculo é multimídia e mistura artes cênicas com projeções em vídeo. Pois bem, a apresentação de estréia teve apenas meia-hora, pois houve problemas com a projeção. O grupo ficou em pânico, a peça foi adiada e a experiente atriz Norma Bengell saiu do palco aos prantos. E o público vaiou, vaiou e vaiou. Sabe por qual motivo, meu fiel leitor? Porque queriam o dinheiro de volta. O fato é revoltante por dois motivos: por associar uma expressão cultural a mais mesquinha relação de consumo e por só haver vaia em espetáculos se for por dinheiro. Qual foi a última vez que você ouviu vaia em teatro, cinema, shows musicais, debates, etc, afinal? A vaia sincera, infelizmente, é um artigo em extinção.

Há diversas peças de teatro chatas. E, pior: conceitualmente patéticas, seja por agressividade boba ou por defender pontos indefensáveis. Shows de música, então, nem se fala. Debate de jornalismo também costuma ser uma tristeza. Sempre tem um pra falar besteira em cima de besteira. E o público fica lá, com cara de sonso, e o aplauso soa tão natural quanto respirar. Falta posicionamento, falta protesto, falta inquietude. Falta fugir do lugar-comum, esse buraco negro que suga tudo e todos impiedosamente.

Como disse o diretor teatral Gerald Thomas (é, aquele chato): “É melhor uma vaia emocionada do que aplausos insossos”. Entretanto, também não é defensável a vaia pela vaia. Algumas são tão estúpidas quanto aplausos sem graça, como a famosa que ocorreu contra a música Sabiá, em 1968, tendo como alvo Chico Buarque, Tom Jobim e as irmãs Cynara e Cybele. Cego pela forte e politizada música Pra Não Dizer que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, o público no Maracanãzinho não percebeu que ali estava a nova canção do exílio. Enfim, a história mostrou que tanto Geraldo Vandré quanto Tom e Chico estavam certos. E que aquela vaia foi burra.

Mas, desde então, se tornou exceção. Lembro-me a sofrida pelo Lobão no Rock in Rio de 1985, e a do Carlinhos Brown numa outra edição do festival. De resto, com poucas exceções, se aceita tudo. Desde que não tenha grana no meio, claro.

Só o futebol salva

O futebol é a última expressão culturalmente genuína do Brasil. Lá, o público não está presente para resgatar um movimento histórico importante e nem para homenagear o modo de ser do brasileiro. É verdadeiro, é pulsante, é espontâneo. E a vaia ocorre tão naturalmente quanto o aplauso, a cada segundo. O humor muda conforme o que os torcedores vêem. Um jogador errou uma jogada mas mostrou raça? Quase todos aplaudem, alguns vaiam o perna-de-pau. Um atacante habilidoso dribla metade do time adversário mas chuta displicentemente? Os xingamentos soam alto no estádio. É um show com preço considerável, que dura 90 minutos e que, ultimamente, tem apresentações sofríveis. Mas é bem difícil ouvir: “Nossa, paguei R$ 20 e vi um joguinho. Quero meu dinheiro de volta!”. Essa frase é rara porque os espectadores lotam os estádios por emoção, e não por status. A mesma coisa que esse público curitibano devia ter feito.

14 de março de 2008

"Morreu na contramão atrapalhando o tráfego"

A letra completa de música, obviamente, é importante. Mas há versos que têm força para se destacar do texto, para tirar o fôlego, para se tornar quase slogans.
Demorou. Mas depois de centenas (ou talvez milhares) de e-mails pedindo o ranking de Eu Quero um Samba sobre os melhores versos da música brasileira de todos os tempos, a lista finalmente está pronta. Vamos a ela:

1º - “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”, de Construção (Chico Buarque)

2 ª – “Tire seu sorriso do caminho que quero passar com a minha dor”, de A Flor e o Espinho (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)

3º - “Não confio na polícia, raça do caralho”, de Homem na Estrada (Racionais MCs)

4º “Relógio em vez de retrato na cabeceira”, de Cara Limpa (Paulo Vanzolini)

5º “Tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português”, de Não tem Tradução (Noel Rosa)

6º “Ali onde eu chorei, qualquer um chorava, dar a volta por cima que eu dei quero ver quem dava”, de Volta por Cima (Paulo Vanzolini)

7º “Vinte e cinto, francamente, foi de graça”, de Praça Clóvis (Paulo Vanzolini)

8º “Tudo penso e nada falo, tenho medo de chorar”, de Último Desejo (Noel Rosa)

9º “Teus seios inda estão nas minhas mãos”, de Eu te Amo (Chico Buarque)

10º “Feliz daquele que sabe sofrer”, de Rugas (Nelson Cavaquinho, Augusto Garcez e Ary Monteiro)

11º “Te perdôo por te trair”, de Mil Perdões (Chico Buarque)

12º “Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia quem brincava de princesa acostumou na fantasia”, Quem te viu, Quem te vê (Chico Buarque)

13º “Quem trouxe você fui eu, não faça papel de louca”, de Sem Compromisso (Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro)

14º “E me beija com a boca de hortelã”, de Cotidiano (Chico Buarque)

15º “Impulsos de amor, de amor, três”, de Identificação (Tom Zé)

16º “E dei pra maldizer o nosso lar”, de Atrás da Porta (Francis Hime e Chico Buarque

17º “Deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa”, Gota D’água (Chico Buarque)

18º “É samba que eles querem, nada mais”, de A Ordem é Samba (Jackson do Pandeiro)

19º “A tempo de poder a gente se desvencilhar da gente”, de Todo o Sentimento (Cristóvão Bastos e Chico Buarque)

20º “Quando me roça a nuca e quase me machuca com a barba malfeita”, de O meu Amor (Chico Buarque)

21º “Te recolher pra sempre à escuridão do ventre, curuminha” de Uma Canção Desnaturada (Chico Buarque)

22º “Eu só sei que quando eu a vejo me dá um desejo de morte ou de dor”, de Nervos de Aço (Lupicínio Rodrigues)

23º “Que este já não bate nem apanha", de Socorro (Arnaldo Antunes)

24º “Meu samba vai, diz a ela que o coração não tem cor”, de Preconceito (Wilson Batista)

25º “Que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais”, de Pedaço de Mim (Chico Buarque)

26º “Que se dane o Evangelho e todos os orixás”, de Dueto (Chico Buarque)

27º “É desconcertante rever o grande amor”, de Anos Dourados (Tom Jobim e Chico Buarque)

28º “Sabe lá se está vestida ou se dorme transparente”, de A Noiva da Cidade (Chico Buarque)

29º “Não arranque minha cabeça da sua cortiça”, de Leve (Chico Buarque e Carlinhos Vergueiro)

30º “Por amor, por favor é pra ela voltar, sim” (Vinícius de Moraes e Chico Buarque)

31º “Mas depois de um ano eu não vindo ponha a roupa de domingo e pode me esquecer”, de Acorda Amor (Chico Buarque)

32º “Ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos”, de Mamãe, Coragem (Torquato Neto)

33º “Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?”, de Senhor Cidadão (Tom Zé)

34º “Deus me ensinou praticar o bem, Deus me deu essa bondade”, de Cuidado com a Outra (Nelson Cavaquinho)

35º “Sei que ela pode ser mil, mas não existe outra igual”, de Ela faz Cinema (Chico Buarque)

36º “Não posso mais, eu quero é viver na orgia”, de Oh! Seu Oscar (Wilson Batista)

37º “Batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio”, de Feitio de Oração (Noel Rosa e Vadico)

38° “O meu luto é saudade e saudade não tem cor”, de Silêncio de um Minuto (Noel Rosa)

39º “Ser estrela é bem fácil, sair do Estácio é que é o X do problema”, de O X do Problema (Noel Rosa)

40º “Dispensa essa vadia, eu vou voltar”, de Palavra de Mulher (Chico Buarque)

41° “Mas não vai dizer depois que você não tem vestido, que o jantar não dá pra dois”, de Você Vai se quiser (Noel Rosa)

42º “Minha alma segue aflita e eu me esqueço até do futebol”, de Falando de Amor (Tom Jobim)

43° “Solidão apavora, tudo demorando em ser tão ruim”, de Desde que o Samba é Samba (Caetano Veloso)

44º° “Meu Deus do céu, que palpite infeliz”, de Palpite Infeliz (Noel Rosa)

45° “E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto e nenhum no marginal ”, de Haiti(Caetano Veloso)

46º “Certezas e esperanças pra trocar por dores e tristezas que bem sei um dia ainda vão findar”, de Porta Estandarte (Geraldo Vandré)

47º “Isso não acontece”, de Acontece (Cartola)

48º “Deixando espinhos que dilaceram meu coração
”, de Não quero mais Amar a ninguém (Cartola)

49° “Meu coração tem mania de amor”, de Foi um Rio que Passou na minha Vida (Paulinho da Viola)

50º “Piririm,piririm, piririm, alguém ligou pra mim”, de Atoladinha (Bola de Fogo – em homenagem a Luiz Cotrim)

Lista sujeita a alteração sem aviso prévio.

Obs: ter muito “Chico Buarque” é culpa dele, não minha.

11 de março de 2008

O bloco do Oscar

João encara o grande museu feito por Oscar Niemeyer, postado entre as rochas e o mar de um dos principais bairros de Niterói. Parece um disco voador ou, quem sabe, uma miragem. Mesmo sendo do prestigiado arquiteto, a visão é mais bonita do que a expectativa. A chuva cai e está anoitecendo. O Corcovado já não é mais visível do lado menos glamouroso da Baía da Guanabara. As pessoas que seguem o bloco carnavalesco parecem que esbarram menos em seu ombro. A música das baterias, pandeiros e trombones fica em terceiro plano, soando apenas como um pequeno zumbido. As águas do céu o molham confortavelmente. João pensa em como é bom se surpreender, e passa os olhos pela passarela em forma de serpente que leva à entrada. Fica boquiaberto e surge um sorriso quase infantil em seu rosto. “Vamos, porra”, grita Paulo. Caso se percam, será difícil voltar à Lapa, bairro em que estão hospedados. Ambos dependem da carona de uma terceira pessoa, Maria, que está no front do bloco, com uma mini-fantasia de Cleópatra cercada de homens mais mal-intencionados do que Júlio César.

“Vamos tirar a Maria do meio daqueles tarados. Ela ta bêbada pra cacete”, grita Paulo, mais preocupado com a carona do que com o bem-estar da menina. Puxa o amigo pela junção do braço e antebraço, para tirá-lo daquela contemplação considerada inútil. “Amanhã você compra um postal. Museu não combina com diversão, pô!”. João finge que concorda, e começa a andar rápido entre as pessoas dançantes. Enrolado em todas as serpentinas do carnaval, enfim ultrapassa a bateria. Encontra a menina de cabelos vermelhos quase agarrada com um pit-boy sem camisa e com boné da Raça Fla para trás. Paulo a interpela: “Tá anoitecendo, Maria, e essa chuva já ta enchendo. Vamos continuar na Lapa”. O flamenguista não gosta da interrupção, e o encara como se fosse aplicar um mata-leão. Percebendo o perigo, João se mete entre os dois, empurra o cara com o cotovelo – mas sem força – e diz que a amiga está passando mal, que realmente precisa ir embora. Não se sabe bem porquê, mas o pit-boy balança a cabeça afirmativamente, diz que o melhor é que cuidem da menina e se perde na multidão, cantando a marchinha “Bafo-de-Onça”. Paulo e João sorriem aliviados. Maria bufa, mas concorda em ir para o Rio.


Entre a ponte

O Palio está na Ponte Rio-Niterói, pela pista da direita. Segue no máximo a 60 quilômetros por hora. João está no comando, enquanto Paulo dorme ao seu lado, com a cabeça encostada na porta. No banco traseiro, Maria fala sem parar, lembrando dos “gatinhos maravilhosos” que havia nas ruas niteroienses. O motorista não quer saber de nada. Liga o som do carro. Um locutor com voz empolgada (e quase brega) afirma aos berros que o carnaval carioca é o maior espetáculo da Terra. O som é novamente desligado.

Já na alça de acesso ao centro do Rio, Paulo acorda e diz que está a fim de continuar em algum bar da Lapa. Maria concorda: “Não volto para a casa de forma alguma”. João não diz nada. Leva a dupla para uma rua atrás dos arcos e se despede. Segue, sozinho, para a casa. Deixa o carro no estacionamento e sobe pela escada os seis andares do prédio decadente. Abre completamente a janela e enquanto a brisa geladíssima invade a casa, tenta encontrar a ponte. Busca Niterói. Procura o monumento do Oscar, agora deste lado da Baía. Mas a neblina não deixa.

3 de março de 2008

Pedro sorri

Pedro está preocupado. Preocupado, aliás, é eufemismo. Em sua sala de trabalho o publicitário mira-se no espelho e vê o resultado da noite anterior. Olheiras profundas, cabelo de vassoura, camisa amassada. A noite foi longa, na cama de uma desconhecida agradável, e não houve tempo para tomar banho. A menina, apesar de interessante, não tem potencial para se tornar apaixonante. O verdadeiro amor, este sim, Pedro marcou de encontrar em uma hora. Eles não se vêem há quatro meses, desde que ela resolveu terminar o namoro de três anos e meio durante uma viagem a Buenos Aires. E este reencontro é o motivo do desespero. E de suas olhadas desanimadoras ao espelho. Não quer parecer a imagem da desolação.

São 17h53. Faltam sete minutos para ir embora. Neste tempo, esquece um pouco sua (má) aparência e diversos desejos bons vêm à cabeça. Ela deve estar linda. Deve estar feliz profissionalmente. E deve estar triste amorosamente. Pedro sorri.

Mas, ao descer do elevador do prédio em que trabalha, o grande espelho a sua frente o relembra que ela não pode o ver assim. Então decide ir a um shopping, ao lado do seu trabalho. Primeira parada: Hering. Compra uma camisa cinza, nem tão larga e nem tão justa. Gosta do que vê, afinal cultiva um estilo sóbrio.

Parada número dois: banheiro. O cara, novamente com o espelho a sua frente, molha muito o rosto e o cabelo. Tira oito papéis descartáveis do suporte e vai secando enquanto modela os fios. O resultado também é bom. Ao menos, parece que tomou banho nas últimas 24 horas.

Parada três, e esta a mais pouco usual aos seus hábitos: Boticário. Em geral, Pedro recusa-se a usar perfume. Mas lembra que sua amada, no começo do namoro, reclamava desta condição. Então finge que quer experimentar alguns para seu pai (ele mente que era aniversário do velho). A vendedora espirra alguns nos papéis próprios para este fim. Quando encontra o que mais lhe agrada, pede para ela borrifar em dois papéis. E diz que já volta. Já no corredor do shopping, Pedro passa os papéis no pescoço, no pulso, na barba. Agora já se sente decentemente preparado para encará-la.

Entra no carro. Falta apenas meia-hora para chegar ao local marcado, e atraso é algo abominável para ele. Chove uma chuva forte em São Paulo. Ele buzina, quase põe o tronco inteiro para fora para xingar o motorista da frente, que insiste em dar passagem a outros carros. Um marronzinho olha feio e saca de sua caderneta de multas, mas é apenas uma ameaça. Pedro desculpa-se, respira fundo e tenta manter a calma de um praticante de yoga. Logo ele, que costuma ter a paz de um torcedor do Corinthians em dia de final com o Palmeiras.

Chega em frente ao estacionamento do bar combinado. Entre deixar as chaves com o motorista e entrar no bar, passam séculos. Nos dez passos que dá até a entrada, arrepende-se, fica bravo, sente saudade, pensa em agarrá-la, planeja fugir. Não sabe se a menina o desprezará, será blasé, o abraçará firme ou se irá pedir de joelhos para voltar. Empurra a porta de vidro e procura seus cabelos pretos entre as mesas redondas (e desconfortáveis) daquele bar metido a besta. Não encontra. Apesar de odiar atraso, sabe que este é um dos costumes da amada. Releva essa característica e põe-se numa mesa. Pede água com gás. Pelo nervosismo, torna-se praticamente um craque em origami, ao fazer as mais abstratas formas nos guardanapos. A garçonete olha feio.

Irrita-se novamente ao olhar o relógio com o logotipo da Brahma que está acima do caixa. A espera já é de 17 minutos. Acha um absurdo entrar em duas lojas, gastar dinheiro, quase ser multado, e chegar no horário, enquanto a menina que teoricamente não tinha compromisso algum no dia – ela está de férias – não se preocupa em estar às 19h em ponto.

Quando pensa em ir ao banheiro para lavar o rosto e arrumar novamente o cabelo, eis o grande acontecimento: ela entra, mas ainda não o percebe no bar. Pedro, que já havia se semi-erguido da cadeira dura, senta-se novamente. Em milésimos a analisa. O cabelo está bem curto. Ela deve ter emagrecido uns dois quilos. Mudou a armação dos óculos, agora para um modelo mais simples, sem cores gritantes. Está bronzeada, mas nem tanto. As roupas são elegantemente alternativas, com uma calça mole de um tecido que não identifica, uma camiseta estranha com a imagem de Mao Tse Tung e um tênis All Star amarelo. Algo que ele traduz como “para fazer charme, mas não parecer atraente”. E finaliza em seu pessimismo habitual: “para se afastar de mim”.

Ela o reconhece no bar. Depois de meses, este é o primeiro contato visual entre os dois, excetuando suas encaradas diárias na foto três por quatro que carrega na carteira, que o lanceiro da Praça Clóvis insiste em não roubar. Eles se cumprimentam com um abraço e um beijo no rosto, há quilômetros da boca. Ela dá um sorriso largo, cativante. Ele sorri de canto de boca, tentando parecer firme, mas não efusivo.

Pedro diz “Olá, tudo bem?”, enquanto reúne com a mão direita a bagunça de guardanapos que deixou na mesa. Ela sorri novamente, por perceber que foi uma das frases mais artificiais que já falara na vida. Ainda o conhece bem, e manda um “Primeira coisa, Pedro: relaxa”. Pedro não relaxa. Apenas se irrita com aquele poço de segurança. Mas disfarça.

“Como está no escritório?”, pergunta, agora com uma voz mais natural. Ela diz que tudo está teoricamente bem, mas que já se encheu do chefe, da dinâmica de trabalho e das estagiárias. “Quero prestar concurso. É a melhor solução pra quem se formou em Direito”. Pedro, enquanto responde “Ah, acho uma boa solução”, pensa: “Como mulher adora reclamar”. Lembra-se das queixas mais usuais: ela não gostava que ele deixasse a barba grande, que tivesse mania discutir até com o dono da locadora por não ter o mais recente lançamento e que gostasse de andar de calça jeans e Havaianas.

Ela faz a mesma pergunta. Pedro não gosta de falar de trabalho, talvez por medo de desdém alheio. Então, diz apenas que está tudo ótimo e que há um novo projeto de uma empresa pública para promover o minério de ferro brasileiro no Mercosul. A menina deseja sorte. O garçom chega com o cardápio.

Antes, Pedro costumava roubá-lo e decidir pelos dois. Agora, porém, espera pacientemente sua escolha. Ela passa os olhos, fica em dúvida, filosofa sobre a diferença entre lula a doré e mariscos, pergunta ao garçom se o salmão é realmente macio. Pedro, aproveitando que o homem da gravata borboleta está à mesa, pede nhoque ao sugo, para adiantar. Ela então diz: “Ah, quero o mesmo”.

Pedido feito, conversa novamente à mesa. “Está apaixonado por alguém?”, indaga a menina de cabelos agora curtos. Pedro assusta-se com a pergunta direta. E, pior: não sabe qual é a resposta certa. A questão desestabiliza toda sua tática, que era a de parecer leve no começo e, devagarzinho, ir seduzindo-a. Desconcertado, diz que se envolveu com uma menina de Curitiba, mas que não deu certo.

Com medo, sente-se na obrigação de fazer a mesma pergunta, apesar de não querer saber a resposta. Ele se lembra que, há duas noites, teve um pesadelo, que o fez acordar com os olhos arregalados. Nele, sua amada conversava consigo na cama. Segurando firme sua mão, dizia: “Eu estou apaixonada por outro cara. Muito. E quero me casar com ele, constituir família. Ele mora em Bauru. Estou me mudando para lá, Pedro, e nada vai me impedir”. Além do susto, pensa até agora por que seu inconsciente escolheu Bauru, já que a única coisa que conhece desta cidade do interior é o Noroeste, o pequeno time de futebol.

Mas não se contém. “E você? Está apaixonada por outro?”. Ela sorri, balança a cabeça como se reprovasse um pouco a pergunta e manda: “Para que quer saber?”. “Simplesmente porque você também me perguntou. Quis tornar o papo recíproco, ué”. Pedro, que sempre costuma se enrolar em momentos tensos, sente que, enfim, conseguiu dar uma boa resposta.

“Ah, Pedro. Vamos mudar de assunto, tudo bem? Sei que você é muito curioso. Se eu responder, não vai mais parar de perguntar”. E a curiosidade – ainda mais a que pode fazer mal – realmente é uma característica do publicitário. Resolve mudar o tema, mas não sabe mais sobre o que conversar. Lembra como a conversa fluía fácil antigamente. Como passavam noites inteiras falando mais do que o Milton Neves aos domingos, enquanto ela dava gargalhadas. Como música, futebol, animais e até tênis de mesa eram assuntos para horas. Agora, sente-se como se estivesse recebendo um chefe de estado. Aquela mesa parece maior e mais larga do que quando namoravam. A menina, com quem tinha tanta intimidade, soava quase como uma semi-conhecida. Era mais uma alheia naquele bar em que ele sempre odiou os freqüentadores, mas que costumava ir por sua causa.

Meio desconfortável, Pedro abaixa o olhar enquanto a menina o encara firmemente. Vira-se para o lado para escapar daqueles olhos castanhos. Vê pessoas entrando. Uma moça de uns 30 e poucos anos, gorda, com um decote enorme em um vestido todo vermelho entra no bar. Uma loira, baixinha, sem apelo sexual algum, segue atrás. Elas já entram com sorrisos largos, como se estivessem no ambiente para caçar homem. No balcão, estão quatro presas (ou predadores) de gravata, sendo dois semi-carecas, falando alto sobre como a Juliana Paes “tem cara de puta”. Pedro despreza os dois grupos. Mas, por estar naquela situação embaraçosa, sentindo-se paralelo ao mundo normal, sente vontade de formar um quinteto com os prováveis gerentes de novos negócios, preocupar-se somente com as quedas da Bovespa e sentir-se sinceramente a fim da gorda de vermelho. Ao menos assim se sentiria confortável. E feliz.

“Pára de ficar prestando atenção nos outros!”, brada a chefe de estado. Pedro respira fundo, olha para o outro lado e percebe o garçom equilibrista vindo com os dois nhoques. Prefere manter-se mudo até o prato chegar. Ela ainda pede um vinho, enquanto o rapaz prefere uma caipirinha de abacaxi. Os dois comem rápido.

Ao fim do jantar, a menina diz: “Nossa, estranho a gente falar tão pouco, né? Posso citar Chico? Realmente é desconcertante rever o grande amor”. A sugestão de que ele ainda era seu grande amor, que ele esperou por quatro meses, inacreditavelmente não faz efeito algum. Ele sorri enquanto pensa: “Desconcertante é não reconhecer o grande amor”, e continua tomando a caipirinha, cada hora mais aguada.

Não reconhecer a menina que tanto tomou conta da sua cabeça é realmente desconcertante, e lembra de diversos momentos destes quatro meses. No começo do término, em que sentia que aquele era o maior amor do mundo e estava convicto de que a dor jamais passaria. Pouco depois, quando tinha certeza de que o certo era voltar, e que era absurdo somente ela não perceber essa verdade absoluta. Tinha certeza que seriam extremamente felizes. Quando dormia ao lado do celular e rezava para Santo Expedito, Santo Antonio, Yemanjá e para Deus e o diabo para aquele troço vibrar. O que sentia ao ouvir a seleção musical que batizou como “a mais triste do mundo”, que continha “Não fala de Maria”, “Passarim” e “Samba do grande amor” como carros-chefes. Na mesa cada vez mais quilométrica, fita a menina. Ela diz que precisa ir embora, pois tem de acordar cedo amanhã. Também o convida para se reverem, talvez para assistir a um filme no cinema. Ele balança a cabeça afirmativamente. A ex-amada pede a conta. Pedro sorri.

28 de fevereiro de 2008

Lições de mau jornalismo

Com a manchete de capa “Já vai tarde” sobre uma foto de perfil contraluz de Fidel Castro, a revista Veja prestou mais um desserviço ao jornalismo brasileiro ao tratar com fúria reacionária o dirigente cubano que deixava o poder após quase meio século e abandonar qualquer tentativa de compreensão do significado do gesto para o futuro da ilha.

Enquanto a mídia do mundo todo buscava decifrar o que será de Cuba pós-Fidel, Veja saía com um artigo editorializado, destinado a destruir a imagem do líder e seu significado na história, com juízos definitivos e texto folhetinesco, que se encaixariam bem no boletim dos cubanos exilados em Miami, mas não na maior revista em circulação no país.

É bem verdade que Veja já abriu mão de um jornalismo sério há algum tempo, mas uma edição como essa não deixa de ser reveladora. Não faz muito tempo, a semanal também se dedicou a tentar destruir o mito Che Guevara, destacando, entre outros aspectos menos nobres, que cheirava mal.

Nas duas edições, Veja nem tentou disfarçar suas matérias com alguma suposta imparcialidade jornalística. Os textos raivosos eram endossados por fontes declaradamente interessadas em condenar os líderes da revolução cubana. Na edição em que tentou desmitificar Che Guevara, Veja ouviu um agente da CIA enviado à Bolívia para caçar o guerrilheiro. Na matéria sobre Fidel, havia apenas um boxe com um dissidente que vive em Miami.

Por sinal, o dissidente Héctor Palacios Ruiz era a voz mais lúcida da edição ao reconhecer em Fidel a habilidade, a inteligência e classificá-lo de um ícone da história. Um contraste com o texto da revista que o chama de farsante, fingidor e sanguinário.

Em seu blog, o jornalista Luis Nassif tem se dedicado a descrever práticas do “jornalismo” da Veja, muito mais graves do que as tentativas de desconstrução de mitos e bem distantes, para dizer o mínimo, das normas de um jornalismo sério e de qualidade.

A prepotência de Veja me fez recordar um episódio no fim dos anos 80, quando cobria um Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, ainda no autódromo de Jacarepaguá. O repórter da revista estava escalado para fazer uma entrevista com Alain Prost, tarefa ingrata, já que as corridas não são o melhor momento para uma entrevista de fôlego com qualquer piloto, ainda mais com uma das maiores estrelas do automobilismo à época.

Depois de esgotar todas as tentativas, o repórter apareceu desesperado no autódromo, comentando a última recomendação de seu editor para que ele conseguisse a difícil entrevista: “fala pra ele que é da Veja”, contou, indignado, para gargalhada geral dos coleguinhas.

Mas na postura da Veja há que se destacar um “mérito”. A revista revela-se, para quem ainda tinha dúvidas, um veículo de direita, sem limites para desenvolver suas pautas e descompromissada com os mais elementares princípios do jornalismo. Enfim, uma publicação para não ser levada a sério.

Por Mair Pena Neto, jornalista.

26 de fevereiro de 2008

Direito de resposta (ou: disputa de peso-pesados)

Herivelto Martins X Dalva de Oliveira. Noel Rosa X Caetano Veloso. Geraldo Pereira X Chico Buarque. Mas por que há esse “X” entre os nomes, pergunta um dos meus dois leitores. Ora, atento freqüentador deste mambembe blog: são os casos clássicos em que um músico compôs músicas rebatendo uma canção de um outro compositor. Excluo a famosa briga entre Noel Rosa e Wilson Batista porque esta merece um tópico a parte. Esse confronto de eu-líricos rendeu músicas fantásticas. No fim, vocês, leitores, escolhem o vencedor. Caso empate em um a um, dou o voto de minerva. Vamos lá:


Briga de casal se tornou briga musical

Herivelto Martins foi um dos compositores mais fantásticos da música brasileira. Dalva de Oliveira, uma cantora exata e carismática. Eles eram casados, mas viveram um amor entre altos e baixos, com direito a brigas homéricas. E, pra nossa sorte, esse drama conjugal acabou se tornando música. E que músicas.

Dalva não era compositora. Então pedia canções a outros músicos. E tudo começou quando cantou pra Herivelto a música Errei, Sim, encomendada a Ataulfo Alves: “Errei sim, manchei o teu nome, mas foste tu mesmo o culpado, deixava-me em casa me trocando pela orgia, faltando sempre com a tua companhia”. No fígado!

Mas Herivelto apenas ficou grogue. Ao se recuperar, escreveu de próprio punho a clássica Cabelos Brancos: “Não falem desta mulher perto de mim, não falem pra não lembrar minha dor. E agora em homenagem ao meu fim, não falem dessa mulher perto de mim”.

Era o momento, então, de Dalva acertar o queixo do adversário, com a música Fim de Comédia, também de Ataulfo Alves. E que direto! “Desse amor quase tragédia, que me fez um grande mal, finalmente essa comédia vai chegando ao seu final. Já paguei todos os pecados meus, o meu pranto já caiu demais, só lhe peço pelo amor de Deus, deixe-me viver em paz”.

Seu amado (?) chegou a beijar a lona, mas se levantou com sangue nos olhos. E fez a belíssima Caminhemos, em que dizia: “Faça de conta que o tempo passou. E que tudo entre nós terminou. E que a vida não continuou pra nós dois. Caminhemos, talvez nos vejamos depois”.

Parece que a música abalou a pugilista. Então, em composição de Rossini Pinto, se lamentou: “Que será, da minha vida sem o seu calor, da minha boca sem os beijos seus, da minha alma sem o seu calor”, da música Que Será.

Fortalecido novamente, Herivelto arrematou com Segredo, em parceria com Marino Pinto: “Teu mal é comentar o passado. Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois. O peixe é pro fundo das redes, segredo é pra quatro paredes. Não deixe que males pequeninos venham transformar o nosso destino (...).A felicidade para nós está morta. E não se pode viver sem ela. Para o nosso mal não há remédio, coração. Ninguém tem culpa de nossa desunião”.

Os juízes vão ter trabalho. Acredito que dê empate técnico. Ou uma leve vantagem a Herivelto.

Machismo e feminismo extremos

Ao menos, é sincera. Mas escrita de uma forma pesada e extremamente cerceadora. Assim é Pra que Mentir, do nosso peso-pena Noel Rosa. Outro lutador, desta vez o peso-pluma Caetano Veloso, tomou as dores e se lançou com Dom de Iludir, que também soa extremamente sincera. A luta franca deixa o resultado em aberto.

Noel se sente confuso com a suposta dissimulação da amada. Não sabe se ela sente um ódio sincero ou um amor fingido. E nem deixa claro qual dos dois prefere. Apenas pergunta, com sua voz pequena e sofrida: “Pra que mentir se tu ainda não tens a malícia de toda mulher?”.

Caetano não quer saber de brincadeira, e tenta resolver a questão nos primeiros minutos. “Não me venha falar na malícia de toda mulher. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Tornou a frase clássica, mas ainda não nocauteou Noel. Então continua, agora mais agressivo: “Cale a boca e não cale na boca notícia ruim”.

Noel apenas se protege, com os antebraços postos a frente do rosto. Caetano, já cansado, finaliza com “Como quer que a mulher vá viver sem mentir?”, mas sem causar grandes danos ao pugilista da Vila. Os adversários estão esbaforidos e o gongo toca. O juiz aparta os lutadores. Torço por Noel, mas admito que Caetano aplicou bons golpes. Será que houve outro empate?


Deixa a menina? Porque a menina não é sua

Na disputa entre Sem Compromisso, de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro, e Deixa a Menina, de Chico Buarque, serei tendencioso. Dez a zero pro Geraldo já no primeiro round. No segundo, Chico é nocauteado mas se levanta. Já no terceiro Geraldo acaba com a peleja. Há controvérsias.

Em Sem Compromisso, Geraldo demonstra ser um cara sincero com seus sentimentos masculinos. Levar sua preta pro samba e, de repente, a dita-cuja estar “batendo palmas e pedindo bis” nos braços de um outro qualquer é inadmissível. O que resta a dizer?, senão: “É bom acabar com isso, não sou nenhum pai João. Quem trouxe você fui eu, não faça papel de louca, pra não haver bate-boca dentro do salão”.

E Chico aparece como aqueles caras chatos, metido a bonitões, que se sentem superiores. Imagina, meu incauto leitor: sua morena lá, das dez da noite às seis da manhã, se acabando em um salão lotado de homens sempre tão gentis E um cara põe a mão no seu ombro e diz: “Pára com isso, mermão. Deixa a menina sambar em paz”. A coisa mais civilizada a responder é: “Deixa a Marieta dançar em paz e não me apareça mais por aqui, sangue bom. E vamô embora agora, mulher!”. Ponto final e luta decidida.