12 de fevereiro de 2008

De Pedro Pedreiro a Subúrbio: evolução sem atropelos

O primeiro sucesso popular de Chico Buarque foi Pedro Pedreiro, do compacto lançado em 1965 que também continha Sonho de um Carnaval. Segundo afirmação de Paulo Vanzolini à época, “este é um samba perfeito, sob qualquer ângulo. E impressiona ter sido feito por um garoto de apenas 23 anos”. E, desde então, Chico se mantém numa coerência musical ora louvável, ora alvo de críticas pela “pouca inventividade” de sua obra.

Há exemplos de críticas ao Chico por esta conduta. Tom Zé disse sobre o compositor, sarcasticamente, no final dos anos 1960: “Temos de respeitá-lo. Afinal, ele é nosso pai”. Já nos anos 1990, Fernando Henrique Cardoso, o criticou de forma parecida, após ter lançado o Paratodos: “Lá vem o Chico com os mesmos sambinhas de sempre”.

Mas “vir com os mesmos sambinhas de sempre”, mesmo se fosse verdade, não é necessariamente um demérito. Grosso modo, artistas precisam de ao menos uma das duas coisas a seguir pra serem valiosos: ser inovador, como Caetano Veloso, por exemplo, ou ter extremo talento. Estando no segundo caso, se pode dar o caminho que desejar à obra (até ser “sempre a mesma coisa”), que será interessante.

Basta citar João Gilberto. Há 50 anos veste um terno escuro, se agarra ao violão como se fosse a si próprio e toca um repertório bem parecido, com sutis variações harmônicas. E é genial.

E neste grupo está Chico Buarque. Muito mais parecido a João Gilberto do que a Caetano Veloso. A coerência e naturalidade artística são postas acima de invenções que soariam artificiais.

Ao ouvir seu último disco, Carioca, percebe-se que há muito daquele Chico de 40 anos atrás. Há uma linha que une o semi-adolescente ao senhor que já passou dos 60. Claro, em Carioca há mais esmero na escolha das harmonias e arranjos. As letras são menos pulsantes e mais exatas. É um projeto mais intelectual do que emocional.

Mas há o mesmo Chico, de qualquer época, em suas faixas. A música Subúrbio ilustra muito bem essa conduta. Ao ouvir, há algo que puxa as sensações para Pedro Pedreiro. Talvez pelo tema, pois esse tal Pedro provavelmente vive “de costas para o Cristo”. Ao mesmo tempo, a música é mais madura. É densa. É exata. É uma evolução sem atropelos do “mesmo Chico de sempre”. E assim está ótimo. Porque gênios não precisam se propor a revolucionar a cada cinco minutos. Gênios já são uma revolução em si.

7 de fevereiro de 2008

Considerações nada científicas sobre o carnaval carioca

Estive no Rio durante o carnaval. Ô lugar maravilhoso (desculpe o clichê). O clima é pulsante, espontâneo e realmente popular. Como estou ainda no espírito carnavalesco – traduzindo: com preguiça de pensar -, listo abaixo as dez sensações mais óbvias sobre esses dias. Certamente, em 2009 haverá uma nova lista. Vamos a ela:

1 - O Rio é mais seguro do que Berna durante o carnaval. E não só os lugares mais turísticos. Fui pra todo canto: Santa Teresa, Lapa, Ipanema, Niterói, Laranjeiras, Central do Brasil, Candelária, pé do morro dos Tabajaras, Copacabana e outros lugares indefiníveis. E meu rolex, garanto, estava mais seguro do que no cofre de casa.

2 - O Rio é a verdadeira cidade da garoa. Deve ser pelo derretimento das calotas polares.

3 - Os blocos “monomusicais”, com uma única música própria, são uma decepção. Ao menos pra mim.

4 - Os blocos com músicas gerais são o céu na terra (sem trocadilho).

5 - O bloco do Cacique de Ramos é exatamente o que penso sobre o Cacique de Ramos.

6 - Tem mais paulista do que em São Paulo.

6 - Santa Teresa é um dos lugares mais lindos do mundo. Faltou andar de bondinho.

7 - A marchinha “Bafo-de-Onça” é a mais fantástica de todas (oba!).

8 - Cariocas não sabem dar informação.

9 - Funcionários cariocas, seja lá fazendo o quê, nunca são subservientes. Graças a Deus.

10 - Lá ainda é possível andar só de ônibus e de metrô. Mas, pela força do hábito – e pelo preço baixo -, táxi também é bacana.

Atualização: agora percebi que há dois itens "6". Fica assim mesmo. Afinal, rankings com números redondos são sempre melhores.

17 de janeiro de 2008

Com saudade, sem saudosismo

Lendo e-mails antigos, encontrei essa reportagem que produzi pro jornal da faculdade, em 2003. O personagem é o jornalista e escritor Fernando Pessoa Ferreira. Foi uma das entrevistas mais bacanas que já fiz. Publico na íntegra (escrever "publico na íntegra" é a vantagem de se ter um blog).

Obs: para saber mais sobre o Jogral, clique aqui.

Com saudade, sem saudosismo

Bruno Hoffmann

O jornalista Fernando Pessoa Ferreira, 71 anos, é a prova que o caminho equilibrado pode ser o mais correto. É uma figura que demonstra que nem sempre os extremos valem a pena. Ser o maior, ser o pior, ser o que mais lutou contra a ditadura, ser o mais alienado. Ele não foi nada disso. O maniqueísmo não cabe com ele. Nascido em Recife e em São Paulo desde 1968, Ferreira passou pelos anos de ditadura de forma politizada, esquerdista, mas não radical. Foi preso pelos militares, e não acha isso um grande status. Fez amigos intelectuais – e famosos – porém a fama não chegou a ele, e está feliz assim. Dividiu mesas de bar com Ruy Castro – seu melhor amigo até hoje –, Fernando Morais, Ziraldo, Millôr Fernandes. Bateu longos papos com figuras lendárias, como o artista plástico e ícone de Ipanema Hugo Bidet. Mas não guarda saudosismo daquele tempo. Escreveu quatro livros, dois de poesias e dois de contos. No primeiro, O Instrumento do Tempo, ganhou, em 1958, o prêmio Fábio Prado, o mais importante da categoria na época. Com o dinheiro da premiação (“muita grana!”), casou-se e mobiliou o apartamento inteiro. E, anos depois, cansou-se de escrever poesias. Está finalizando seu quinto livro, de contos, com previsão de lançamento para 2004. Trabalhou na Folha de São Paulo, na Quatro Rodas, na revista Realidade, e em outras publicações. Não acha que o jornalismo de antigamente era melhor que o atual, que as pessoas eram mais intelectuais e politizadas ou que aquela época era um tempo romântico. Hoje, de cabelo e barba brancos, e com muita vitalidade, é assessor de imprensa da Secretaria de Economia e Planejamento.
No departamento em que trabalha, com janelas retangulares grandes, no qual se tem uma vista quase total da avenida Faria Lima, Ferreira concedeu esta entrevista por mais de duas horas. Em tom de bate-papo, relembrou os “anos de chumbo”, contou sua relação com a intelectualidade paulista, destacou que o jornalismo atual não é pior do que o feito há anos, e, acima de tudo, criticou qualquer tipo de saudosismo em relação àquela época. “Acreditar que os anos 70 eram uma época mágica, na qual todos eram mais intelectualizados, a vida era mais divertida e o jornalismo era melhor é uma grande besteira. Tudo era muito parecido com estes tempos”, afirma.

“Eu rondo a cidade...”

É difícil de acreditar. Hoje não há o Jogral, bar que ganhou glamour no fim dos anos 60. Ficava na rua Avanhandava, no Centro, e reunia como nenhum outro a intelectualidade da época. Ferreira chegou em São Paulo em 1968, e lembra que por lá aparecia constantemente os cantores Maysa, Jorge Ben (desacompanhado do Jor), Paulo Vanzolini, Eduardo Gudin, Toquinho, Elza Soares, e outros ícones da época, como Ziraldo e Irene Ravache. “Conheci a maioria desse pessoal no Jogral. Por muitas vezes, ouvi canjas maravilhosas da Maysa, do Jorge Ben, do Toquinho”, lembra. O dono do bar era Luis Carlos Paraná, agitador cultural e músico, que morreu em 1970. “Agora há uma praça com o nome dele, aqui mesmo no Itaim. Estamos perto de novo”, diz, de brincadeirinha.
Se Ziraldo e Millôr vinham às vezes para São Paulo, Ferreira também costumava retribuir a visita. O jornalista pegou o auge de Ipanema, onde tudo “era só felicidade”. Mas nem essa época ele romantiza. “Dizem por aí que era o melhor lugar do mundo, há uma fantasia sobre Ipanema. Não há motivo algum pra isso. Só posso dizer que era um bairro muito, mas muito bom de estar”. Em Ipanema, o Jangadeiro era seu local preferido. Lá conheceu Hugo Bidet – “Figura fantástica” -, um dos fundadores da Banda de Ipanema. Tomava chopes com Vinícius de Moraes, discutia política com Paulo Francis... e ele insiste que não há motivos para saudosismo.
Em São Paulo, além do Jogral, outros bares foram (muito) freqüentados por ele. O jornalista lembra de dois com um pouco mais de carinho: o Quincas Borba e o Paulicéia Desvairada. Com nomes intelectuais de propósito, esses bares ficavam lotados quase que diariamente por pensadores, poetas, músicos, e muitos jornalistas. Apesar dessa, como dizem, “nata da intelectualidade”, bebia-se muito, falava-se muito de futebol, de mulher... e quase nada de política. Mas, “quem era favorável à ditadura não entrava lá”, afirma.
Apesar desse distanciamento de assuntos políticos nos botecos, quando o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) conquistou maioria nas eleições majoritárias para o Senado, em 1974, ele e Paulo Vanzolini passaram a noite no Jogral, que tentava se reerguer após a morte de Paraná, bebendo em homenagem ao início da virada do jogo político. “Mas foi uma das poucas vezes que fomos beber por uma motivação política”, afirma.

Prisão

Como todo intelectual que se preze, ele foi preso pela ditadura, em 1969, auge da repressão política. Ferreira foi acusado de hospedar um procurado pelos militares. Passou 26 detidos, sendo os 14 últimos em Belo Horizonte. Os militares não davam informações aos familiares. “Eles simplesmente desapareceram comigo”, recorda. Ele conseguiu sair da prisão após pedir para um outro preso, que seria solto naquele dia, para avisar a direção da Abril que ele estava preso. “Os militares queriam saber de qualquer maneira como a Abril descobriu que eu estava em Belo Horizonte. Se não descobrisse, não sei quando sairia”.
Ele não foi torturado – “tomei só um tapão pra entrar logo na viatura” – mas colegas presos junto com ele sofreram torturas brutais.“Foi uma época difícil. Os militares tinham prazer em prender, em bater, em torturar. Segundo eles, faziam tudo isso em nome do Brasil”.

Pasquim e censura
Em outubro de 1970 toda a redação d’O Pasquim foi presa por agentes do Doi-Codi (salvou-se a secretária). Henfil, Millôr e Miguel Paiva, que escaparam da prisão, decidiram manter o jornal em circulação. Para isso, receberam contribuições de diversos artistas e intelectuais, entre essas colaborações um conto de Ferreira. Chamava-se “O Dia em que Jesus Prendeu Poncio Pilatos por Desacato a Autoridade”. O texto foi cortado em diversas partes pelo censor. Por exemplo, a palavra Jesus saiu do título. “O censor era uma verdadeira anta. Qualquer um que aceite esse cargo só pode ser um energúmeno. Ele cortou meu texto, e não havia referencia alguma à ditadura e nenhum tipo de crítica à religião. Assim que eles trabalhavam: viam uma palavra que não gostavam e cortavam. O contexto pouco importava”.

“O Globo é o mais imparcial”

Passado por diversas funções do jornalismo impresso, Ferreira acredita que os grandes jornais, em geral, são bons. Ou ao menos parecido com o nível dos anos 70. Mas tem seus preferidos. “A Folha eu acho confusa, o Estadão eu considero o mais bem produzido”. Mas, para ele, o melhor jornal do País não está na cidade. “O Globo me surpreende. Me parece o que tenta ser o mais imparcial de todos, dando espaço ao maior número de correntes de opinião”, afirma.
De resto, diz que é um jornalista, e não um estudioso sobre o jornalismo, e que, portanto, não pode dar opiniões profundas sobre o assunto. Fala do passado com desenvoltura, mas sem empolgação gratuita. Parece que o passado foi um tempo bom, mas que não é o que mais importa. A definição é essa: foi um tempo bom. E basta.
Escritor de cinco livros – O Instrumento do Tempo (1958), Em Redor do A (68), Os Fantasmas da Gaveta (81), Umbigo do Anjo (99), Os Demônios Morrem duas Vezes (ainda inédito), jornalista há 50 anos, amigo de intelectuais de toda espécie, testemunha de fatos históricos, preso pelos militares, colaborador do Pasquim, Fernando Pessoa Ferreira, ao ser perguntando por este repórter qual é um grande comunicador que lhe vem à cabeça, respondeu: “Casseta e Planeta”. O grupo humorístico é sensacional, mas, convenhamos, é muito pouco saudosismo...

10 de janeiro de 2008

O samba está na moda (e meu charme já era)

Como é bom gostar – sinceramente, sem fazer tipo – de coisas que pouca gente gosta. Há dez anos me sentia o supra-sumo da intelectualidade paulistana ao explicar detalhes sobre a obra de Chico Buarque. Há uns cinco, era gênio por exaltar a revolução musical de João Gilberto. Há dois, gostar de Geraldo Pereira me diferenciava da multidão. Pois bem: falar de Chico se tornou lugar-comum, João Gilberto é citado a cada três minutos e Sem Compromisso é a música pop do momento. Virei burro.

O samba está na moda. A Lapa (RJ) e a Vila Madalena (SP) que o diga. Os bares estão lotados de semi-adolescentes apaixonados por Nelson Cavaquinho, Cartola, Herivelto Martins e Paulo Vanzolini. O primeiro pensamento é inevitável: “O que essa gentalha ta fazendo usufruindo da minha música?". Mas, logo depois, lembro o que pensava na época em que me sentia inteligente: "O que essa gentalha ta fazendo ouvindo música eletrônica? Vai escutar samba, pô!". Conclusão: a "gentalha" estar certa ou errada é um dos mistérios do momento. Enquanto isso, vou tentar conhecer melhor a música romena. Ou ficar mudo.

24 de dezembro de 2007

O jovem executivo do futebol

Pasquale Cipro Neto afirmou outro dia em seu programa semanal na rádio Cultura: “Vivemos um dos períodos de juventude mais careta da história”, e enfatizou: “Careta de doer”. Chico Buarque, no filme sobre Vinícius de Moraes, disse que não imaginava o poeta vivendo no mundo atual, pois ele era um “desvairado” e a sociedade está extremamente pragmática, e sentenciou: “Vivemos a vitória do consumismo”. Na semana passada Kaká foi eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa. E comprovou, no campo futebolístico, as afirmações do professor e do compositor.
O status quo força as pessoas, de qualquer atividade, a serem pragmáticas. Sem perda de tempo, sem criatividade desnecessária, sem atitudes polêmicas. E é exatamente esta a figura do camisa 22 do Milan e o maior símbolo esportivo brasileiro deste way of life. Bom menino, evangélico, objetivo, ótima relação custo-benefício a seu empregador e fiel pagador de seus impostos. No mundo corporativo, seria definido como “jovem executivo, dinâmico e pró-ativo”, como as empresas tentam enquadrar (ou idiotizar) seus funcionários.
Enquanto isso, verdadeiros gênios do futebol, como Alex (do Fenerbahçe), Messi (Barcelona), Cristiano Ronaldo (Manchester) e Valdívia (Palmeiras) são colocados em segundo plano. Estes, certamente, não passariam em dinâmicas de grupo de empresas.

Arena multiuso?

Outra coisa irritante é a nova moda de usar o termo “arena multiuso”. O Atlético-PR diz que já tem e o Palmeiras promete construir a sua. Sendo claro: arena multiuso não passa de um estádio com lojinhas. É desnecessário esse nome tão moderno quanto imbecil. Enfiam essa linguagem rebuscada goela abaixo, e em poucos minutos o povo sai repetindo igual papagaio: “Também quero uma arena multiuso”. Estádio é estádio, como nos bons tempos em que futebol era futebol. Só espero que não adotem como oficial a terminologia “soccer”. Do jeito que as coisas estão, não é nada impossível.

30 de novembro de 2007

Samba do grande amor

Muitas sensações vêm ao peito. Poucas permanecem. Apenas a angústia se acomodou, com toda a tranqüilidade, e neste momento está lendo jornal no melhor sofá da alma preta-e-branca. Faltam dois dias para o jogo decisivo. “Pára, isto é só futebol”, exclamam alguns desavisados. Não, não é só futebol. Isto é Corinthians. O time do povo. E, tal qual o povo, cheio de imperfeições. Ingênuo, maltratado, enganado e sofrido. E só peço que domingo esse sentimento deixe em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa.

Por falar em pote até aqui de mágoa, me lembro de algumas músicas do Chico (afinal, este é um blog musical; por força das circunstâncias o Corinthians se fez presente). Ele cantou para o povo, cantou para a massa, cantou para amenizar desesperos, cantou a favor dos injustiçados, cantou para alentar esperanças. E, agora, nenhum outro grupo social se enquadra mais neste perfil do que a torcida corintiana. Há pouco começou a tocar “Cordão” no rádio. No campo da idealização, imagino a torcida, como numa corrente, cantando no Estádio Olímpico antes da partida: “Eu não vou desesperar/ Eu não vou renunciar/ Fugir/ Ninguém/ Ninguém vai me acorrentar/ Enquanto eu puder cantar/ Enquanto eu puder sorrir/ Ninguém/ Ninguém vai me ver sofrer/ Ninguém vai me surpreender/ Na noite da solidão/ Pois quem tiver nada pra perder/ Vai formar comigo o imenso cordão”.

E que esse cordão contagie os jogadores. Que a bola estufe a rede de Sajas. Que o Felipe continue sendo o Felipe. Que o Vampeta tenha nascido quatro anos a mais do que em sua certidão. Que Lulinha seja um jogador de R$ 50 milhões. Que Dualibs e Kias da vida, que inventaram de inventar toda a escuridão, sejam esquecidos. Que os jogadores tenham precisão de flecha e folha seca. Vamos, Corinthians. Domingo, coincidentemente o dia nacional do samba, é a hora da minha gente sofrida ver a banda passar cantando coisas de amor. Um samba do grande amor.

12 de novembro de 2007

Obrigado, Iran

Pênalti infantil. Não, não é o momento de agir como criança dentro da área. Foi querer afastar o perigo numa bicicleta espalhafatosa, quase acertou o rosto do adversário e... o juiz está apontado para o cal fatal. Faltam duas rodadas. São 30 da segunda etapa. O Corinthians vai voltar à zona de rebaixamento. Não, não é o momento.

Enquanto o lateral-direito trapalhão está se sentindo culpado, como se pensasse: “Por que escolhi ser jogador de futebol? Não queria ser o culpado pela tristeza de tanta gente”, o zagueiro e capitão é a imagem da desolação. Mãos no rosto, cara de choro. Os jogadores sentem o peso da cobrança enquanto o juiz os retira da área para a cobrança.

Estou sem ar. Vislumbro o sofrimento para as próximas duas rodadas derradeiras. “Estaremos um ponto atrás”, penso. “E agora?”. Não há solução. Não há saída. O futebol me dará essa tristeza. Eu, num canto da sala, espero pela definição do lance. O jogador adversário, famoso por ser bom nas bolas paradas, corre para a cobrança. Meu coração corintiano bate no mesmo compasso da sua corrida.

Bateu! Eu, que há pouco estava olhando para baixo, arregalo os olhos. A bola parte forte. Segue rasteira para o canto esquerdo. A famosa “cobrança indefensável”, como adoram analisar os comentaristas esportivos. Prevejo a rede estufando, o que murcharia 80% das minhas esperanças. Alias, caso estufe, terei que passar a ser bom em matemática. Só com equações complexas poderia encontrar a saída.

Não estufou! O goleiro salta mais do que a matemática poderia supor. Chega no momento exato de, com a ponta das unhas, desviar a bola para a linha de fundo. A torcida explode. O goleiro começa a pular, como se tivera feito um gol. Por um segundo, para mim, o mundo é perfeito.

A equipe continua na berlinda. Caso não seja competente nas próximas rodadas, ainda pode cair. Mas, neste momento, apenas sinto que é muito bom ser corintiano. E agradeço ao Iran – o tal lateral-direito trapalhão – por ter me feito sentir tantas emoções em menos de um minuto. Obrigado.

8 de outubro de 2007

Três letras, todas as emoções

A angustia. A raiva subterrânea. A alegria. O orgulho. O medo. A felicidade efêmera. O desprezo. A tristeza. A dor. O prazer. Por menos de um segundo, todas as emoções cabem num mesmo monossílabo: o da palavra GOL.

Obrigado, futebol.

5 de outubro de 2007

Cassação em Brasília!

O governador do Distrito Federal, Roberto Arruda (DEM), proibiu, na semana passada, o uso do gerúndio entre os funcionários públicos. O decreto afirma: “fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal (...) Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA” (assim mesmo, com direito a “Gerúndio” e “INEFICIÊNCIA” em maiúsculas).

Ironicamente, é compreensível e ridícula a medida de Arruda. Compreensível porque o mau uso do gerúndio é motivo de “assassinato por justa causa”, tal irritação que causa. Ridícula porque, se os funcionários obedecerem literalmente ao decreto, haverá diálogos do tipo:

- Onde está o Alberto?
- Está a almoçar.

- Termina logo o relatório.
- Estou a terminar, pô!

- O que você está a fazer?
- Estou a encaminhar os documentos para a Câmara. O motoboy está a ir neste minuto.

A melhor definição para o caso foi dada pelo UOL Tablóide, ao escrever “o manifesto” do gerúndio contra a demissão. “Os assessores de meu ex-patrão estariam sempre ‘fazendo, providenciando, estudando, preparando, encaminhando’, mas nunca concluindo. Aí, em vez de estar demitindo os assessores, o demitido fui eu”. Injustiça. O gerúndio é um recurso lingüístico como qualquer outro. O decreto deveria somente determinar que o usasse com correção. Sem estar inventando.

2 de outubro de 2007

Quinze anos dessa noite

Dois malandros que se acham "muito espertos" -considerando que os "mais inteligentes" mesmo têm advogados para não ficar presos- brigam pelo espaço de um varal no pátio de uma cadeia superlotada de bandidos pobres.
É ridículo, mas é só uma cueca o que um deles quer pendurar para secar. E, folgando, vai enfiando o troço... Acontece que há tanta roupa pra arranjar pro domingo que se avizinha que o vizinho resolve não deixar. E joga o treco no chão.
Os dois discutem. Todos estão agitados para ficar bonitos. Há mulheres para receber, filhos para beijar, alguns lances para acertar e mesmo falar de outras coisas, que de más intenções o lugar esteve cheio a semana toda.
Aquela besteira entre eles não vai acabar bem, mas ainda é cedo para saber. Por enquanto são os dois que se partem nas pernadas.
Logo os outros que se chutavam no campo de futebol juntam-se a eles, no que são seguidos por muitos outros, curiosos e torcedores de ver até onde o circo ia queimar. Todos vão se danar neste inferno, mas estão acostumados a lidar com a vida assim, do jeito que as suas vidas lidaram com eles.
Os guardas, protegidos pelos muros e cancelas, se assustam com o tamanho da balbúrdia. As feras soltas são muitas e nem estão domesticadas! Resolvessem virar bichos, não haveria grade ou guarda penitenciária para conter a sua fúria sanguinária!
Por isso os funcionários chamam a polícia detestada pela maioria daqueles outros lá de baixo, onde a briga degenera em bandalheira, como a guerra fratricida da realidade brasileira.Chegam os assessores engravatados e telefonemas atrapalhados são disparados até atingirem os maiores líderes dentre eles, que estão ocupados com tudo num dia de eleição, menos com aqueles que não votam, não se elegem e, no máximo, representam os milhões que votarão com o estômago e o intestino.
É uma porcaria mesmo. Esse era o valor da vida então...Aqui não é diferente agora, mas o acerto de contas, naquela hora, sai do varal do quintal e contagia dentro da "Casa", invadindo o pavilhão, as alas e as celas onde os "reeducandos" deveriam repousar e aprender.
São capazes de aprender a apanhar! E o pau segue comendo como se fosse a coisa mais natural do mundo em que nasceram.O mais burro -ou seria apenas ingênuo demais de não imaginar o que mais poderia acontecer?- ainda se tranca e dá a chave ao carcereiro! Disse que "iriam resolver a coisa entre eles", como se houvesse assunto privado na latrina em que se encontravam.Não há reféns, nem bandidos armados, mas os coturnos dos homens blindados são ouvidos.
Estão prestes a serem servidos...
O banquete será longo, seco e obscuro.
A luz foi cortada. A água que sobrou está minando na parede como se mandasse um recado aos experientes, mas parece que só mesmo os insanos conseguem dar ouvidos às súplicas dos inocentes.
As súplicas serão caladas na porrada.
Há baionetas improvisadas, facas e estiletes para serem arremessados e espetados uns nos outros, que essa convivência nunca foi fácil para ninguém.
De um lado estão mais de três centenas e meia de agentes da lei com carteira assinada por salários suicidas; do outro, mais de mil iletrados desempregados que tiveram o azar de nascer no lugar errado ou terem se desencaminhado na insatisfação mesquinha dos seus desejos.
Mesquinharia, de todo modo, ainda está por vir... Porque apesar de ninguém ter nada a perder, resolveram deixar a sanha da morte pegar tudo o que pudesse ganhar, numas rajadas de ignorância que fizeram as escolas e bibliotecas da região fecharem de vergonha da civilização que defendem em seus livros!
Todos puderam ouvir os gritos que os cachorros deram, bem como os latidos dos homens que ajudavam, ganindo desesperados pelos corredores.
Foram 111 os presuntos desossados ao fim de tudo, segundo as autoridades. "Eram mais de 400", segundo alguns malucos miseráveis que asseguraram ter visto cadáveres como eles arremessados no lixo!
As cadeias de TV ficaram agitadas para o deleite da insegurança.
Algumas cabeças foram cortadas e assessores perderam o emprego, mas ganharam imunidades e aposentadoria... Ainda hoje são condecorados por bravura. Policiais, é claro. Quanto aos 111 empilhados do outro lado e que exalam há 15 anos nesta longa noite dos paulistanos, o Estado tapa o nariz, a justiça os olhos e o cidadão dorme o sono que merece...
E ai de quem discordar, não é mesmo?

Fernando Bonassi, Folha de S. Paulo, 2/10/2007.

25 de setembro de 2007

Surpreendentemente comum

Quando soube, de manhã, quem seria o entrevistado do programa Roda Viva (da Cultura), fiquei empolgado. Era Mano Brown, líder de um grupo que é uma ilha de autenticidade entre o marasmo artístico. Genial, corajoso, diferenciado em diversos aspectos. Tinha certeza de que seria uma noite histórica. Pois bem, assisti ao programa. E me decepcionei.

A decepção maior foi com os entrevistadores. Perguntas genéricas e preguiçosas. Ecoavam de duas formas: ou demonstravam mal conhecer o entrevistado, com perguntas vazias como “qual é a solução para a violência?”, ou queriam agradar o rapper. Ao ponto de Mano Brown mostrar surpresa: “Já assisti várias vezes ao programa e sempre ‘batiam’ forte no entrevistado. Hoje estão pegando muito leve”.

Mas o entrevistado também não estava bem. Não se mostrava nem o radical de antigamente e tampouco tinha uma atitude serena. Soou comum. E, ao se tratar de Mano Brown, soar comum é bem surpreendente.

O que salvou a entrevista – por mandar pra muito longe o lugar-comum- foi uma resposta sobre como o rapper lida com seus filhos. Ele estava falando que não conheceu o pai. O jornalista Paulo Markun, mediador do programa, então perguntou: “Você tenta compensar essa falta sendo um pai presente pros seus filhos, né?! Você é um pai presente?”. Até por estímulo, a tendência era receber uma resposta positiva. Com olhar e voz firmes, Brown respondeu: “Não, sou ausente”. Houve dois segundos de silêncio no estúdio.
Excetuando essa resposta, infelizmente, foi uma noite comum. Inacreditavelmente comum.

21 de setembro de 2007

Dia histórico

Pausa musical momentânea.
Hoje, 21 de setembro de 2007, foi dada a notícia de que há um ditador a menos no poder.

Dia de festa. E de alívio.

20 de setembro de 2007

Os 10 mais (continuação)

5º - Nelson Cavaquinho



Quando aquela voz característica começa a ecoar, é impossível não saber de quem se trata. O canto rascante, rouco e amargurado é o retrato fiel da obra de Nelson Cavaquinho. Dadas a desilusões amorosas e desesperança na vida, suas canções são sem paralelo na história da música popular. De uma simplicidade musical – e de vida – impressionante. Nelson era craque da boêmia. Do desapego material. Do medo e da alegria. Dos sentimentos nobres e baixos. Para ser sincero, é difícil falar sobre o compositor. Possivelmente é o personagem mais complexo da nossa música. Há muito de desconhecido no subterrâneo daquele olhar profundo e carismático.

Medo da velhice e, conseqüentemente, da morte, é constante em suas músicas. Os versos que registram essa temática são vastos: “Quando o tempo avisar/ Que eu não posso mais cantar/ Sei que vou sentir saudade/ Ao lado do meu violão/ Da minha mocidade” (Folhas Secas); "Sei que estou/ No último degrau da vida, meu amor/ Já estou envelhecido, acabado/ Por isso muito eu tenho chorado" (Degraus da Vida); "Sempre só/ E a vida vai seguindo assim/ Não tenho quem tem dó de mim/ Estou chegando ao fim" (Luz Negra); "O meu pecado foi querer na minha mocidade/ Amar muitas mulheres/ O tempo já passou/ Eu sinto saudade" (O Meu Pecado).

Teve seu momento de criação mais intensa quando se juntou a Guilherme de Brito. Um tipo totalmente contrário a Nelson. Casado com uma única mulher a vida inteira, fiel, pouco dado a boêmias. Desta parceria inusitada, nasceu o verso mais bonito da história musical, feita pelo Guilherme. A famosa “Tire seu sorriso do caminho que quero passar com a minha dor”, de A Flor e o Espinho.

Mas há um outro verso, impressionantemente irônico, triste e exato, que sintetiza sua vida: “Feliz daquele que sabe sofrer”, da música Rugas. Por estas linhas, podemos suspeitar que Nelson, afinal, era uma pessoa feliz. À sua maneira.

24 de agosto de 2007

Os 10 mais

Rankings são bacanas. Ajudam a organizar o pensamento e dar reforço visual ao que se quer expor. Portanto, crio o ranking dos melhores – ou dos que mais me emocionam, pelo menos - músicos brasileiros da história. Eis a lista definitiva:

1º - Chico Buarque

Millôr Fernandes disse no fim dos anos 1960: “Chico é a única unanimidade nacional”. E, contrariando Nélson Rodrigues, proferiu a frase de forma positiva. E é o caso. É raro encontrar alguém que, categoricamente, afirme não gostar do compositor carioca. E conquistou essa popularidade sem nunca cair no popularesco. Sem abrir concessões à sua arte. Escreve sobre situações comuns com um talento sobre-humano. Há um lirismo absurdamente forte, sarcasmo impressionante, junção de palavras sem paralelo. Todos esses elementos vêm com ausência de afetação ou demagogia. Simplicidade genial. Além de ser a única personalidade que nunca falou uma besteira grande em público (na verdade, nem pequena).

2º - Noel Rosa

O compositor é a figura mais importante para a popularização da forma urbana de se fazer samba. Viveu apenas 27 anos e, neste período, criou sambas antológicos nos quais se agrupavam vários temas. Sarcasmo, ironia, protesto, dramas amorosos. As músicas compostas para a briga com Wilson Batista (Rapaz Folgado, Palpite Infeliz, Feitiço da Vila, João Ninguém) são antológicas. Mas as minhas preferidas são as feitas para Céci, seu maior amor. A menina era, para usar um eufemismo, uma “mulher de cabaré”. E para ela compôs músicas de forte apelo, sem cair no lirismo bobo tão comum naquela época. As letras são extremamente diretas e cruas, como Dama do Cabaré, Pra que Mentir, Ilustre Visita e Último Desejo. Inigualáveis.

3º - João Gilberto

O baiano é o maior exemplo de coerência musical que se tem notícia no Brasil. Desde 1958, quando gravou o elepê Chega de Saudade e popularizou seu estilo revolucionário de cantar e tocar violão, Joãozinho (como Tom Jobim o chamava) se mantém na sua busca esquizofrênica pela batida perfeita. Canta com extrema delicadeza e precisão. Ajudou a matar a breguice musical daquela época. Influenciou decisivamente diversas gerações de músicos de primeira linha (como Chico Buarque, Edu Lobo, Baden Powell). Ao mesmo tempo, jamais se preocupou com notoriedade que não seja ligada à música. Deu menos de uma dezena de entrevistas na vida. Ficou recluso por um longo período até encontrar a batida e a forma de cantar que considerava ideais. Retira-se do palco quando as coisas não estão conforme o desejado. Pede para desligar o ar-condicionado e não gosta que a platéia cante. Ele não se preocupa com o público. Preocupa-se com a música. E isto basta.

4º - Geraldo Pereira

Pixinguinha ficou impressionado quando ouviu pela primeira vez uma música do Geraldo Pereira. Era Se Você Sair Chorando, apresentada a ele por Roberto Paiva, em 1939. O consagrado compositor, que produziu os arranjos para a canção, se disse entusiasmado com a originalidade da melodia. Mais tarde, seus sambas sincopados (uma característica harmoniosa) também chamou a atenção de outros músicos, como João Gilberto. Mas o que mais salta aos olhos (ou aos ouvidos) são as letras. Ele não era dado a romantismo lírico. Preferia a “forma cronista” de compor. Em sua obra, não há espaço pro amor romântico, pras belezas da natureza ou pro brilho da lua. Ele é objetivo, preciso e mordaz. Vide Bolinha de Papel, Escurinho, Você Está Sumindo, Falsa Baiana. Mas a música do coração é Sem Compromisso. Para mim, o maior samba da história. Une harmonia fantástica, machismo e humor sem cair no escracho. Ah, não, não. Sem Compromisso não é do Chico Buarque. Pode confiar.
No próximo capítulo: Nélson Cavaquinho e Paulo Vanzolini.

20 de agosto de 2007

"O menino que fugiu da peça" em SP

Durante este e o próximo mês (veja cartaz inilegível acima), rolará no Espaço Parlapatões, no centro, O Menino que Fugiu da Peça. Oficialmente, é uma peça de teatro voltada ao público infantil. Mas tem um humor irônico (e, às vezes, sarcástico) que agrada todo mundo. É só R$ 10. E, depois, ainda dá pra ir no sambão da Praça Roosevelt, que é do lado.
Veja resenha publicada no Guia da Semana:
O Menino que Fugiu da Peça
Espetáculo inova e foge da obviedade
A fábula escolar O Menino que Fugiu da Peça reestréia no Espaço Parlapatões e fica em cartaz até o dia 16 de setembro. Com canções ao vivo, cenários e figurinos pitorescos e derrubada completa da "quarta parede", o espetáculo procura levantar questões, tanto para os pequenos quanto para seus pais, acerca das noções de autoridade, criatividade e liberdade. O texto de Felipe Sant´Angelo, metalingüístico e provocador, leva todos os espectadores, tanto crianças quanto adultos a encontrarem identificação e questionamento nas situações vividas pelas personagens.
A peça conta a história de Denis, um menino comum, pestinha e bagunceiro, como tantos que encontramos em qualquer escola. Mas quando ele foge da peça de final de ano, seus colegas e professores entram em polvorosa e inicia-se uma divertida e emocionante busca pra descobrir como é que funcionam as complicadas relações entre professores e alunos. O grupo traz para o palco a experiência de rua que desenvolveu ao longo dos últimos anos, sempre buscando o encontro direto com o espectador, tornando-o componente ativo na realização da peça.
Onde: Espaço Parlapatões
Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 158 - República
Quando: 18/08 a 16/09 de 2007 (sábados e domingos), às 17h
Quanto: R$ 10