Para começar, agradeçamos a incompetência inicial do Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros, ou Cansei, como preferem seus criadores. Essa versão século 21 da Tradição, Família e Propriedade escolheu como suas garotas-propaganda as popstars Ana Maria Braga, Ivete Sangalo Hebe Camargo e Regina Duarte (esta última é a mesma que disse, em 2001, que tinha “medo do Lula”). Com essas mulheres, digamos, tão defensoras de um status-quo perigoso, o Cansei perde credibilidade antes de ganhar fôlego.
O movimento sugere um envolvimento nacional contra alguns problemas. Crise aérea, violência e outros itens que ainda não ficaram claros. Apesar de obscuro em alguns pontos, é límpida sua intenção maior: criar uma oposição popular e organizada contra o Governo Federal.
Porém, é um movimento excludente e elitista. Não ouvi que se cansaram da miséria, da desigualdade econômica, do salário mínimo, das condições das favelas ou das penitenciárias parecidas com calabouços da Idade Média. Alguns dirão: “Eu ganho dois salários mínimos por mês e apoio o Cansei”. Eis o ponto. Boa parte da classe média e classe média baixa da população tem o mesmo pensamento de quase toda a elite econômica: defesa da propriedade privada, conservadorismo, tolerância à exclusão social, ao preconceito racial e ansiedade por uma “limpeza social tão necessária a este País”.
Mas, a pergunta fica: por que só se cansaram agora? O Brasil tem um Governo Federal que, se não foi escolhido uma das novas sete maravilhas do mundo, ao menos é melhor - ao se levar em conta os índices costumeiros - em décadas. Estamos fortalecidos economicamente. A miséria diminuiu. O emprego aumentou. A educação está mais democrática (mas ainda ruim, é verdade). Temos relevância externa sem paralelo na história. Ah, será que se cansaram por termos um presidente “nordestino, analfabeto e bebum”?
Em 1964, a contra-revolução que levou os militares ao poder também tinha apoio popular. Também estava cansada de sei-lá-o-quê. Também ansiava por um governo de “pulso mais firme”. Conseguiram. Espero que desta vez continuem sendo incompetentes.
Em 1964, a contra-revolução que levou os militares ao poder também tinha apoio popular. Também estava cansada de sei-lá-o-quê. Também ansiava por um governo de “pulso mais firme”. Conseguiram. Espero que desta vez continuem sendo incompetentes.
“Você só dança com ele, diz que é sem compromisso”. Alguns dizem que o samba deste verso acima é do Chico Buarque. Outros, do Noel Rosa. Há ainda os que juram ser do João Gilberto – apesar de o baiano ter feito menos de uma dezena de música na vida. Na verdade, Sem Compromisso é do genial Geraldo Pereira, autor desta e de outras músicas preciosas, como Bolinha de Papel, Cabritada Mal-Sucedida, Na Subida do Morro, Pisei num Despacho, Escurinho e por aí vai.
Há alguns meses se iniciou uma campanha para a escolha das sete novas maravilhas do mundo. Não entendi direito sobre o que se tratava, qual instituição estava organizando a disputa e quais eram os outros concorrentes. Esqueci o assunto. De repente – “e não mais que de repente”, como diria o poeta – houve uma semi-comoção nacional para a escolha do Cristo Redentor. Um daqueles ataques de ufanismo burro e sem propósito tão comum por estas terras. Colocaram a bonita estátua acima do Corcovado, inclusive, a frente de verdadeiras obras para a humanidade, como o Taj Mahal e Macchu Picchu. E, logo depois, começaram os jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. E este é o tema desta postagem.
Toca a cuíca, toca a cuíca: ............. Faz-se silêncio no papel, pois como se reproduzir em tipos o som duma cuíca? Enquanto o cavaquinho, o violão – de seis ou sete cordas -, o tamborim e o tão exaltado pandeiro continuam dançando, a cuíca fica lá, sozinha, chorando na contramão.
Andando pela Paulista, de repente aparece vindo em sua direção aquele conhecido do tempo da faculdade, que não se conversa há três anos. E agoraaa? O desespero bate, não dá mais tempo para atravessar a avenida (a não ser que queira morrer atropelado). O jeito é, em três milésimos de segundo, colocar no modo “clichê: on” e se preparar para o embate:
Aviso de antemão que este texto estará repleto de obviedades, clichès e parca apuração de fatos históricos. Totalmente opinativo e emocional. Mas, ainda assim, a expressão da verdade.
A frase do título deste texto é da Regina “Tenho Torcicolo” Duarte, dita no programa eleitoral do então candidato à presidência (e agora governador de São Paulo) José Serra, em 2002. A sorridente atriz se dizia com medo do Lula, não se sabe bem por quê. Agora, com a licença da global, é a minha vez de dizer: eu tenho, muito, medo.
