20 de dezembro de 2010
Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito cantaram suas tatuagens
9 de dezembro de 2010
Viver, sofrer e amar demais

2 de dezembro de 2010
19 de novembro de 2010
Música de preto e sobre preto (3): Funk, o novo samba
A umbanda era considerado caso de polícia até a década de 1940, quando um congresso convenceu o presidente Getúlio Vargas a assinar sua legalização.
Os praticantes de capoeira também eram perseguidos até a mesma década, e praticá-la poderia dar pena de prisão de até três meses.
Hoje, os brancos de classe média e as meninas de colégios particulares lotam as rodas de samba pela cidade. As academias de capoeira também têm mais brancos que negros. Há espaços de umbanda em bairros chiques, e dondocas fazem fila para ter um conselho espiritual. Nada contra os brancos que frequentam estes espaços. Mas é irônico.
Sagaz, o sambista Geraldo Filme retratou este cenário em Vá Cuidar da Sua Vida, que contou com gravação definitiva de Itamar Assumpção no disco Pretobrás. Dando-me (inadvertida) liberdade como compositor, imagino como faria um outro Geraldo Filme daqui a 40 anos: Preto cantava funk / Dondoca passava mal / Essa música é violenta / As letras são do mau / Hoje, ela tá no funk / Requebra e acha graça / Agora ela é uma cachorra / Mas uma cachorra de raça....
17 de novembro de 2010
Música de preto e sobre preto (2): "Dona Ana fez de mim um homem, não uma puta"
É puro racismo. Enquanto os negros pobres que ascendem socialmente têm a "obrigação" de se preocupar a vida toda de onde vieram, aos brancos é propagado um mantra: "Suba na vida, suba na vida, suba na vida!". Ninguém acusa Silvio Santos de ter enriquecido e esquecido dos amigos camelôs. Pouca gente está preocupado se Samuel Rosa, Arnaldo Antunes, Dinho Ouro Preto, Tico Santa Cruz etc tinham origem pobre. Pior ainda quando já se é sabido que a pessoa era rica de infância. Sobre Luciano Huck, branco e rico desde pequeno, não se põe nenhum peso de ter de se preocupar com as questões sociais. Ele tem passe livre para a explorar a miséria humana até não poder mais em quadros como o Agora ou Nunca. O quadro é um caldeirão indigesto, numa humilhação sem fim para um pobre coitado levar 10 mil reais para casa. Huck pode morar em Alphaville à vontade. Tem todo o direito de ter quantos Audis quiser na garagem. Netinho, não. Ter nascido preto e periférico é uma marca que o cantor levará para o resto da vida.
Para que toda esta introdução? Para analisar um dos desabafos mais sinceros e fortes da música brasileira, vinda de um preto pobre que "subiu na vida": a música Jesus Chorou, escrita por Mano Brown, líder dos Racionais, principal grupo de rap do Brasil - e, para mim, o grupo contemporâneo mais talentoso e genial.
A música faz parte do disco Chora Agora, Ri Depois e o CD todo me soa como um desabafo contra os "zé povinho" (como Brown diz), que são as pessoas que o acusam de ter se tornado rico e desprezado a região de onde veio. Ao ganhar notoriedade e dinheiro, Brown parou de receber unicamente manifestações preconceituosas dos brancos de classe média, mas também pelos moradores da periferia. É como se um preto e pobre não tivesse para onde correr.
Jesus Chorou dá uma demonstração sem máscaras das inquietações, contradições e solidão de Brown. Por ser negro, por ter vindo da periferia, por ter se tornado um sujeito com dinheiro. O cantor, que sempre usou as questões raciais em suas músicas, agora se vê num paradoxo. Como uma frase que vez ou outra surge por aí: "Fala de pobreza mas tem Audi?".
Nos primeiros minutos da música é reproduzido um telefonema entre Brown e um amigo, que avisa ter encontrado um sujeito que diz: Esse Brown aí é cheio de querer ser / Deixe ele moscar e vir cantar na quebrada / Vamos ver se é isso tudo quando ver as quadradas / Periferia nada, só pensa nele mesmo / Montado no dinheiro, e cês aí no veneno. Num misto de indignação e preocupação, Mano Brown defende-se: Amo minha raça / Luto pela cor / O que quer que eu faça é por nós, por amor. Para depois disparar, num verso seco e irrefutável: Dinheiro é bom, eu quero sim / Se essa é a pergunta / Mas dona Ana fez de mim um homem, não uma puta.
A música segue com a mesma aflição e com grandes versos, como quando um sujeito dita a Brown como ele deve agir: Famoso pra caralho, durão, xi, truta / Faz seu mundo, não, jão / A vida é curta / Só modelo dando boi / Põe elas pra chupar e manda andar depois. Arrisco dizer que o último verso da música resume sua inquietação diante deste cenário opressor: Lágrimas...
Bem, é melhor ouvir Brown do que me ler. Segue no vídeo abaixo. Mas a pergunta que fica: já é possível a um negro ser rico em paz no Brasil? Já dá pro lugar natural deles não ser apenas a periferia, sem que haja nenhum ônus por isso? Jesus Chorou deixa dúvidas.
Ah, claro, não vale o Pelé...
15 de novembro de 2010
Semana da Consciência Negra: música de preto e sobre preto (1)
Pra começar, Preconceito, um grande samba de Wilson Batista e Marino Pinto. Na letra, o sujeito, negro, suplica à amada branca que não o maltrate, já que, apesar de ser "moreno demais", "no fundo é um bom rapaz".
E fecha com um argumento irrefutável: Meu samba, vai e diz a ela / Que o coração não tem cor.
Este samba de 1941 dá um indício da naturalidade com a qual o racismo era tratado na época.
Assista, pela voz e violão de João Gilberto, uma das obras-primas de Wilson Batista.
Vaias da música popular
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Vandré tenta acalmar a plateia |
O co-autor de Sabiá, Chico Buarque, escapou dos apupos por estar em turnê pela Europa. Na finalíssima, entretanto, teve que encarar a multidão. E suportar mais vaias, que calaram as intérpretes Cynara e Cybele. Ao fim da apresentação, Geraldo Vandré tomou as dores dos adversários e, ao microfone, proferiu uma de suas últimas frases em público durante muitas décadas. “A vida não se resume a festivais!”, bradou à plateia.
Contrariando a preferência popular, Sabiá foi a vencedora. E logo seria adotada como uma espécie de hino da saudade dos exilados políticos: Vou voltar / Sei que ainda vou voltar / Para meu lugar.
14 de setembro de 2010
Adoniran, astro de cinema
Veja uma cena de Adoniran em O Cangaceiro no vídeo abaixo.
24 de agosto de 2010
Sem saber, Agnaldo Timóteo fez nascer poderosa canção de protesto
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Paulo César Pinheiro |
5 de agosto de 2010
Nos sambas, pedaços de seu coração
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"Tudo o que eu canto é verdade", dizia Lupicínio |
22 de julho de 2010
João da Baiana precisou de senador para tocar pandeiro em paz
1 de julho de 2010
Saudade faz nascer clássico da música brasileira
A morte de Jacob, em 1969, foi dura para o rapaz de 29 anos. Em sua homenagem compôs a comovente Naquela Mesa: Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor... Há quem diga que a canção foi escrita durante o velório do pai. A música ficaria famosa nas vozes de Elizeth Cardoso e Nelson Gonçalves e tornaria-se um clássico, quase obrigatória em repertórios boêmios Brasil afora.
Para Sérgio, era apenas a forma encontrada para relembrar o seu grande ídolo. E para revelar a tristeza de nunca mais ver a figura do pai: Naquela mesa está faltando ele / E a saudade dele está doendo em mim. Em 1978, um ano antes de morrer precocemente, o jornalista declarou: "Tenho certeza e assumo: não sou nada, porque, de fato, não preciso ser. Me basta ter a certeza inabalável de que nasci do amor, da loucura, da irrealidade e da lucidez de um gênio".
Ouça a música no vídeo abaixo.
17 de junho de 2010
Francis e Antonio gravaram o melhor disco de 1967
Com saudade do Brasil, Tom desembarcou no Rio em julho de 1964. Tratou de retomar a vida, fazer coisas nas quais era craque. Ficar horas tomando chopes no Veloso, por exemplo. Numa tarde qualquer, porém, estava no bar quando recebeu um telefonema que mudaria sua vida por um tempo. Ao atender, demorou para crer que o sujeito que falava inglês era Frank Sinatra. A Voz o convidava para gravar um disco. E ainda pediu: "Não tenho tempo para aprender canções novas e detesto ensaiar. Vamos ficar com as mais conhecidas, os clássicos".
Era a senha para Tom voltar aos Estados Unidos. Deste encontro histórico sairia o disco Francis Albert Sinatra e & Antonio Carlos Jobim - eleito pela crítica norte-americana o melhor álbum de 1967 -, com direito a um dueto magistral em Garota de Ipanema (assista ao vídeo abaixo). Foi o segundo disco mais vendido do ano, perdendo somente para Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. A dupla se reuniria novamente em Sinatra & Company, dois anos depois.
10 de junho de 2010
Cabo Laurindo, um herói inexistente da música brasileira
Um personagem inusitado surgiu na música brasileira em 1943. Era Laurindo, protagonista da canção homônima de Herivelto Martins composta para o carnaval daquele ano. A música era uma continuação de Praça Onze, esta primeira sobre a destruição da praça onde as escolas de samba cariocas desfilavam.
No novo samba, o personagem subia o morro comemorando: Não acabou, a Praça Onze não acabou / Vamos esquentar nossos tamborins. O nome “Laurindo” também tinha sido usado num samba de Noel Rosa na década anterior, mas a foi a partir da canção de Herivelto que começaria a inspirar outros compositores da cidade.
Afinal, quem era Laurindo? Ninguém. Ele nunca existiu, mas caiu nas graças dos sambistas da época (até hoje não se sabe por quê). O mais notório continuador da saga de Laurindo foi o sambista Wilson Batista. Com uma diferença. O compositor transformou-o num diretor de bateria da Mangueira, mas que parou as atividades carnavalescas para lutar na Segunda Guerra Mundial. Como conta a letra de Lá Vem Mangueira: Lá vem Mangueira / Sem Laurindo na frente da bateria/ Perguntei: Conceição, o que aconteceu? / Laurindo foi pro front, este ano não desceu.
Só que Wilson tratou de dar um final feliz para o soldado. Em Cabo Laurindo, em parceria com Haroldo Lobo, o pracinha voltava intacto do campo de batalha, “coberto de glória, trazendo garboso no peito a cruz da vitória”.
A história não pararia por aí. Haveria ainda uma terceira canção, Comício Em Mangueira, desta vez numa parceria com Germano Caetano. A letra e a melodia são emocionantes.
A música conta sobre um discurso do soldado logo após a volta triunfante: Houve um comício em Mangueira / O cabo Laurindo falou / Toda escola de samba aplaudiu / Toda escola de samba de samba chorou/ “Eu não sou herói” / Era comovente a sua voz / “Heróis são aqueles que tombaram por nós”.
Não faltou gente que acreditasse que Laurindo existisse de fato. Menos o compositor Zé da Zilda, que tratou de desmascarar o impostor num samba. Na letra, afirma que o sujeito é tratado como herói, porém “nem saiu de Niterói”. E que sua única participação na guerra foi a de ficar “na retaguarda aplaudindo a nossa gente”.
Depois de tantas músicas, chegou a um ponto de Wilson Batista não suportar mais ouvir sobre o herói fictício. O compositor chegou a planejar matá-lo num crime passional. Laurindo seria encontrado assassinado numa viela do morro da Mangueira, mas a canção nunca saiu.
A cantora Cristina Buarque diverte-se com a história. Cristina, que gravou parte das músicas sobre Laurindo, ainda tem dificuldade de entender por que o inexistente veterano da Segunda Guerra caiu nas graças de sambistas da década de 1940. Numa entrevista, a cantora disse, entre risos: “Comício Em Mangueira é um negócio emocionante. A volta de Laurindo, o discurso, as pessoas chorando. E é tudo mentira!”.
27 de maio de 2010
O dia que Chico Buarque saiu esbravejando do Pacaembu
No próximo domingo haverá Corinthians e Santos no Pacaembu. Num domingo de 1985 o estádio também recebeu o clássico, só que com uma preliminar especial. Em homenagem à criação do jornal Retratos do Brasil, ocorreria um show com importantes músicos no Palace. Antes, os artistas fariam uma partida na preliminar do jogo entre músicos cariocas e paulistas. Por que a ideia? “Só com futebol conseguimos atrair o Chico Buarque pro show”, explica, às gargalhadas, o artista gráfico Elifas Andreato, responsável por convidar todo o pessoal pro espetáculo.
Do lado dos cariocas, Chico, Fagner, a turma do MPB4 e dos Novos Baianos. Já entre os paulistas, Elifas, Toquinho, Fernando Faro, Raul Leite (produtor musical) e Branca de Neve, que, além de cantor, era bom de bola. Antes da partida, Branca de Neve começou a conversar com Chico. Papo vai, papo vem, e Chico conseguiu convencê-lo a jogar no time dos cariocas.
Percebendo a sacanagem, Toquinho – que era tão competitivo quanto o compositor de A Banda - resolveu fazer uma sacanagem maior ainda. O violonista convidou dois jogadores profissionais para reforçar o time. Um era Pita, que já tinha brilhado na Portuguesa, e um jovem jogador do São Paulo. “Quem são esses?”, perguntou Chico. “Ah, são músicos da noite paulistana”, respondeu Toquinho, na maior cara de pau.
Os times subiram a campo. As arquibancadas estavam com 30 mil pessoas e haveria transmissão ao vivo pela tevê, comandada por Juarez Soares com comentários de Falcão. O time paulista, como era de se esperar, deu show. Os atletas profissionais sobravam em campo diante de tantos boêmios. Resultado final: Paulistas 5 x 1 Cariocas.
No ônibus, de volta ao hotel, Chico estava de cara amarrada. Sentiu que tinha passado uma baita vergonha diante de tantos espectadores. Futebol é coisa séria pra ele. Só conseguiu olhar para o Elifas e, irritadíssimo, esbravejar: “Chama seu time de profissionais pra subir no palco hoje à noite, tá?”. O artista, a contragosto, cantou no espetáculo, mas ficou sem conversar com Elifas e Toquinho durante meses.
20 de maio de 2010
Adoniran se sentia um palhaço triste

13 de maio de 2010
Nike não é bem-vindo no baile da saudade
Abril de 2010. Noite fria em São Paulo. O repórter do Almanaque começa a subir a escadaria coberta por um tapete vermelho. A senhora da recepção adverte, de forma educada: “Você é o Bruno da revista, né? Seja bem-vindo. Só esqueci de avisar que não pode entrar de tênis”. A ondinha do Nike cinza chama mais atenção do que diamante naquele ambiente repleto de sapatos pretos, clássicos e engraxadíssimos. O cenário é o salão do União Fraterna, na zona oeste de São Paulo, um dos últimos redutos da pauliceia onde ocorre um autêntico baile da saudade.
A recepcionista abre exceção ao incauto e o coloca numa mesinha perto da entrada. O amplo salão impressiona: lustres extravagantes, florões decorando as paredes e o teto. O prédio, construído em 1934, é tombado desde 1994. Serviu de cenário para o filme Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, lançado em 2008. A banda comanda a festa com boleros, valsas e músicas italianas. Todo mundo ali tem de 60 anos pra cima. O repórter, com seus 30 e poucos, é disparadamente o mais jovem. E certamente o mais mal-vestido.
O clube é antigo. Foi fundado em 1925, a partir da união de duas associações, uma delas de imigrantes italianos. A história é contada por Henrique Zanferice, um dos diretores. Ele também explica sobre os trajes: “Até um tempo atrás, era só homem de terno ou smoking e mulheres de vestidos longos. Mas muita gente morreu e era uma dificuldade atrair novos frequentadores. Passamos a ser mais liberais, deixar entrar de esporte fino. Mas, pode olhar: é raro ver uma de dama de calça”.
Em algumas mesas, destacam-se senhoras vestidas com coroas e faixas transversais sobre o peito, com os dizeres: “Rainha do Baile União Fraterna”. Elas são eleitas anualmente, e hoje é dia de homenageá-las. Sete estão presentes, com seus “reis” à tiracolo.
A ocasião também serve para coroar a rainha das rainhas, dona Ester, de 100 anos. Ela faz questão de corrigir: “100 anos e dois meses”. “Frequento o baile desde que tenho 10 anos. Venho porque gosto de dançar”, explica, da forma mais objetiva possível.
Depois é hora de danças coreografadas ao somde músicas espanholas. Oito casais se põem no centro do salão. Os homens se armam com lenços brancos à mão direita. “É uma forma elegante de não colocar a mão diretamente nas costas da dama”, explica um dos frequentadores, mais experimentado. Ao fim da música, cada cavalheiro acompanha a parceira até a mesa. “Seria uma grosseria deixar a dama voltar sozinha”, esclarece o dançarino.
A volta da banda garante novo ânimo aos cerca de 100 presentes. As canções se tornam mais modernas: baiões, sertanejos, sambas invocados. Rodas se abrem. Casais se dão as mãos e giram pelo ambiente. O cantor, para agradar, lança a clássica pergunta: “Tem corintiano aí?”, e a casa quase vem a baixo.
Já está perto de uma da manhã, hora do encerramento. “Você acha que acabou? A turma toda ainda vai tomar um caldinho por aí”, ressalta uma animada dançarina, que completa: “Hoje, a noite só termina altas da madrugada”.
22 de abril de 2010
Na cadência do samba

Nascido numa pequena cidade mineira em 2 de maio de 1909, era filho de um conhecido violeiro da região. Ainda jovem se mudou para o Rio de Janeiro, tornando-se ajudante de farmácia. Nada que o impedisse de, após o batente, ficar horas em rodas de samba no bairro do Rio Comprido, onde morava.
Aos poucos começou a levar as composições a sério. Até que chamou a atenção de Almirante e de Carmen Miranda, que gravaram algumas de suas músicas. Definitivamente entrava no mundo artístico. Havia quem o comparasse a Noel Rosa.
Homem charmoso e educado, levava elegância às suas músicas. Os sucessos surgiam: Laranja Madura, Oh! Seu Oscar, Atire a Primeira Pedra. Uma outra, composta com Mário Lago, deixa as feministas de cabelo em pé até hoje: Amélia. Sob críticas, justificava: “Amélia é compreensão, é ternura, é vida. Ela simboliza a companheira ideal, que luta ao lado do marido, sem exigir o que ele não pode lhe dar”.
No início dos anos 1950 uniu-se a cantoras – que chamava de pastoras – e percorreu o País em apresentações. As composições não parariam. Seriam 320 na carreira. Só interromperia as atividades após descobrir um grave problema de saúde, decorrente de uma úlcera. Morreu em 1969, pouco antes de completar 60 anos. Sem cumprir um desejo expresso em outro retumbante sucesso: Quero morrer numa batucada de bamba / Na cadência bonita do samba.
24 de março de 2010
Só quando virou Milton, Bituca pôde entrar no clube da cidade

No fim do ginásio, Bituca foi o melhor aluno da turma e representou a classe como orador da formatura (na foto ao lado, o quarto da direita para a esquerda). Terminada a cerimônia, correram os formandos, alvoroçados, a se preparar para o baile de gala. Bituca, porém, pegou o diploma, a medalha, rumou para casa e fechou-se no quarto. O Clube Literário Recreativo Trespontano, da mineira Três Pontas, não permitia a entrada de negros em suas dependências.
Foi nesse dia que a proibição mais lhe doeu. Apesar de não ser a primeira vez que lhe atrapalhava a vida. Bem menino, lá pelos 14 anos, já tocava como profissional no conjunto Luar de Prata, mas não podia assistir às grandes bandas que passavam pela cidade. Ele e Dida, também músico e também negro, tentavam ouvir o som de cada instrumento sentados no banco da praça.
Bituca seguiu em frente. Fez colégio técnico em Comércio, já fora da cidade, e nunca abandonou a música. No 2° Festival Internacional da Canção, em 1967, consagrou-se Milton Nascimento. Travessia era a segunda colocada e ele, o melhor intérprete, recebia propostas de várias gravadoras. A Prefeitura de Três Pontas mandou um ônibus a São Paulo para buscar o cidadão ilustre, seu parceiro Fernando Brant e quem mais quisesse ir.
Chegando à cidade, Milton foi ovacionado pelas ruas. Para a noite, fina ironia, a Prefeitura organizara uma homenagem no tal Clube Literário Recreativo Trespontano. Por insistência da mãe, Bituca compareceu. Em tapete vermelho, passou pela porta que sempre lhe fora fechada.
8 de março de 2010
Olha o Arnesto!
Há um tempinho encontrei, numa casa de samba de São Paulo, o lendário Ernesto Paulelli (registrado na foto), cidadão que entrou para a história da música popular por inspirar Adoniran Barbosa a criar o Samba do Arnesto. Aos 94 anos, conta orgulhoso sobre a história da canção. Mesmo tendo ficado sobre si a penca de furão.
Em sua defesa, Arnesto garante que não convidou ninguém pra samba algum. Tornou-se amigo do compositor em 1939. O sambista lhe prometeu um samba, pois havia gostado da sonoridade do nome.
Anos depois, a novidade corria as emissoras de rádio: O Arnesto nos convidô / Prum samba ele mora no Brás / Nóis fumo e não encontrêmo ninguém. Emocionou-se: "Olha lá, mulher, este samba é pra mim!".
Tempos depois encontrou Adoniran. Agradeceu a homenagem, mas comentou que já estava meio cansado de ouvir piadinhas sobre sua fama de quem marca e não aparece. Adoniran justificou: “Pô, Arnesto, segura essa aí. Se não tem mancada não tem samba".
18 de fevereiro de 2010
Nara foi atrás dos "artistas populares genuínos"

26 de janeiro de 2010
(quase) Exclusivo! João Gilberto na casa de Chico Pereira
Pouco antes da gravação do antológico Chega de Saudade (1958), disco que começaria a consagrar João Gilberto, o baiano gravou 36 canções na casa de Chico Pereira - que viria a ser o fotógrafo das melhores capas de discos da bossa nova.
Em clima descontraído, quase de sarau, João Gilberto entoa músicas como O Pato, Lá Vem a Baiana e Doralice. Além de clássicos nunca gravados em disco. João Valentão é um exemplo. A cantoria por vezes é interrompidas para rápidos bate-papos, que demonstram o caráter informal do encontro.
Abaixo, quatro registros desse documento histórico:
Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
Chão de Estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa)
João Valentão (Dorival Caymmi)
Lá Vem a Baiana (Dorival Caymmi)
21 de janeiro de 2010
O cantor das despedidas

11 de janeiro de 2010
Samba e amor
8 de janeiro de 2010
Um compositor de ouro

Herivelto Martins nasceu em 30 de janeiro de 1912 no distrito de Rodeio, atual Engenheiro Paulo de Frontin, no interior Fluminense. Estimulado pelo pai, agitava a cidade com grupos teatrais e musicais. Mas a família mudou para São Paulo. Com a maioridade recém-completa, o rapaz partiu para o Rio. Queria ser artista.
Preto e Branco
O começo na Cidade Maravilhosa não foi fácil. Teve que dividir um quarto minúsculo com sete companheiros. “Só melhorou com a Revolução de 1932: morreram quatro”, brincava. Fazia bicos aqui e acolá quando recebeu um convite para ser gerente de uma barbearia no morro de São Carlos. Aceitou com uma condição: “Tenho que sair de vez em quando, pois sou artista”.
Com o novo emprego, poderia estar perto do pessoal do Estácio, os malandros cariocas que faziam os melhores sambas da cidade. Era um dos poucos compositores brancos a pintar por lá. Numa dessas andanças pelo bairro, foi convidado a assistir a um ensaio. Quando surgiu uma brecha, apresentou Da Cor do Meu Violão. Um produtor que estava por lá ouviu, gostou e mandou gravar. Era sua primeira música em disco.
Herivelto passou a compor sem parar: tangos, marchas, sambas. Mostrava-se um compositor eclético. E frenético: “A rapidez com que componho às vezes surpreende a mim mesmo”. Após um ensaio, fez um coro informal com o cantor Francisco Sena. Outro produtor viu e adorou. Procurava uma atração para apresentações no Cine Odeon. Nascia a dupla Preto e Branco. Mas o parceiro morreu prematuramente. Herivelto seguiu sozinho até conhecer Nilo Chagas, com quem reviveu a dupla. Nessa época conheceu também alguém que mudaria a sua trajetória.
Trio de Ouro
Herivelto ficou maravilhado ao ouvir o canto técnico e poderoso de Dalva de Oliveira. Logo se tornaram parceiros nos palcos e na vida. Casaram-se em 1938, e o grupo ganhou uma nova integrante. Um radialista anunciou: “Vamos ouvir agora Dalva de Oliveira e a dupla Preto e Branco, um trio de ouro”. Surgia o nome do primeiro – e melhor – trio vocal brasileiro.
Em quase 10 anos de sucesso, o Trio de Ouro lotou cassinos, teatros e auditórios de rádio. As músicas de Herivelto tornaram-se clássicos: Praça Onze, Lá em Mangueira, Calado Venci.
Além, claro, de Ave Maria no Morro – apesar das reclamações de um cardeal, que dizia que a canção era uma heresia e exigia que fosse censurada.
Em 1942, Herivelto assumiu a função de assistente do diretor Orson Welles, que viera ao País produzir o filme É Tudo Verdade. Para organizar os músicos, deu-lhe na cabeça usar um apito. Benedito Lacerda novamente fez um muxoxo: “Parece guarda-civil”. Dali nascia o uso do apito como elemento rítmico, principalmente nas escolas de samba.
“Seu mal é comentar o passado”
Enquanto o Trio de Ouro fazia sucesso Brasil afora, as brigas conjugais chegavam a níveis insuportáveis. Em 1947 viria a dolorosa separação. Os jornais se deliciavam com a briga pública do casal mais famoso do País. “Boa cantora, péssima esposa”, dizia Herivelto a um jornal. “Meu lar era um botequim”, devolvia Dalva.
A coisa esquentou quando a briga invadiu as músicas. Enquanto Dalva cantava Errei, sim/ Manchei o teu nome / Mas foste tu mesmo o culpado / Deixavas-me em casa / Me trocando pela orgia / Faltando sempre / Com a tua companhia (Errei, Sim, de Ataulfo Alves), Herivelto respondia: Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois… O público adorava.
O Trio de Ouro continuaria com novas formações. Durante a existência, gravou 99 discos com quase 200 músicas.
Homenagens
A chegada dos anos 1960 foi quase uma sentença de morte para Herivelto. O afã por mudanças que assolava a música brasileira o colocou num segundo plano. Os convites para apresentações rareavam. “O rock matou a música popular”, lamentava.
Em 1987, recebeu o Prêmio Shell pelo conjunto da obra. A grande homenagem viria em 1992. A Mangueira – que Herivelto tanto homenageou em canções – preparou, de surpresa, uma apresentação na frente de sua casa: surdos, tamborins, cuícas… Herivelto não hesitou. Pegou um apito e, completamente emocionado, marcou o ritmo da festa.
Em setembro daquele mesmo ano sentiu-se mal. No leito do hospital, teve tempo ainda de anunciar: “Estou morrendo”. E seus olhos azuis fecharam-se para sempre.