Levara uma vida de abandono, amargura, vaidade e raro talento. São se conformava com o ostracismo que a carreira havia lhe imposto. Mas não era apenas isso. Para entender o que lhe fez chegar ao suicídio – a derradeira de três tentativas -, é necessário voltar ao começo de tudo.
O menino José de Assis Valente nasceu em 19 de março de 1908 na Bahia. A cidade natal é confusa para os biógrafos. Uns dizem que foi entre Bom Jardim e Patioba. Ele, numa entrevista ao Cine Rádio Jornal, afirmou ser de Campo da Pólvora (“por isso tenho essa pele queimada”).
O certo é que teve uma infância atribulada. Foi sequestrado ainda pequeno de casa e criado por outro casal. Eles se mudaram para Salvador e, pouco depois, para o Rio. Com um detalhe: sem ele, que ficou sozinho na capital baiana.
Virou-se como podia. Profissionalizou-se ainda jovem como especialista em prótese dentária. Mas o que queria é ser artista, se sentir pertencente a algo, receber aplausos. As primeiras atividades foram como orador de circo e desenhista de uma revista soteropolitana. Mas ainda era pouco.
Entre próteses, desenhos e sambas
Decidiu se mudar para o Rio em 1928. Logo empregou-se no gabinete de um protético. Mas gostava mesmo de desenhar, atividade que tomava suas noites, e os vendia para revistas da cidade.
Em 1932, conheceu o compositor Heitor dos Prazeres, e a história começaria a mudar. Ele se impressionou com a facilidade do baiano para compor versos, sempre intuitivos. Com o decisivo incentivo de Heitor, conseguiu no mesmo ano ter o primeiro samba gravado: Tem Francesa no Morro, pela voz de Araci Cortes.
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Logo depois faria o que considerava a sua melhor canção, criada na noite de Natal de 1932. Era Boas Festas, o maior sucesso do gênero natalino da história da música nacional. Estava sozinho em casa, triste, quando viu uma imagem de uma menina com os sapatinhos sobre a cama para esperar o presente de Papai Noel. Foi o suficiente para a canção amargurada nascer ali mesmo: Anoiteceu, o sino gemeu / E a gente ficou feliz a rezar / Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar / Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...
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A paixão platônica por Carmen Miranda
No mesmo ano assistiu a uma apresentação de Carmen Miranda, jovem cantora que o encantou instantaneamente. Fez de tudo para se aproximar e, após se conhecerem de fato, passou a compor canções exclusivamente para ela. Foram 24 gravações e quase todas se tornaram sucesso, como E o Mundo Não se Acabou, Recenseamento e a genial Camisa Listrada: Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí / Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu Parati...
E o Mundo Não se Acabou
Recenseamento
Camisa Listrada, por Carmen Miranda
Estava no auge da fama, sentindo-se importante e amado pelo público, quando Carmen, em 1939, decidiu se mudar para os Estados Unidos. Foi um baque. Assis sentiu-se traído, abandonado. E, pior: tinha dificuldade de compor para outras cantoras.
Daí em diante a carreira começou a decair. Novos ritmos tocavam nas rádios e sua música passava a ser considerada obsoleta. Ele não conseguia – e muitas vezes não queria - acompanhar as novidades. Emplacou alguns sucessos, como o clássico Fez Bobagem, de 1942, gravado por Araci de Almeida. Mas sem a mesma repercussão de antes. Também não teve sucesso no casamento com Nadyle da Silva Santos, que durou menos de três anos. Com ela teve sua única filha, Nara Nadyle.
Vendo a fama de longe e com dívidas quase impagáveis, tenta o suicídio duas vezes. Não para de compor, mas boa parte apenas lota a gaveta. Pouca gente quer gravar um compositor que estampa as manchetes dos jornais apenas por tentar se matar. Cada vez se afasta mais das pessoas. E aí chegou a fatídica data de 1958.
O sucesso que sempre perseguiu viria pouco depois. Não mais na voz de Carmen Miranda, mas pelas sucessivas regravações a partir dos anos 1960. Com destaque para os Novos Baianos, que transformaram Brasil Pandeiro num estrondoso sucesso nacional.
Uma das mais regravadas é o samba Alegria, um marco na carreira e, sobretudo, uma das mais elaboradas sínteses da sua existência. Uma vida na qual a dor e o prazer coexistiram numa eterna busca por um sentimento que nunca alcançaria: Esperando a felicidade / Para ver se eu vou melhorar / Vou cantando, fingindo alegria / Para a humanidade não me ver chorar.
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