21 de maio de 2011

Vamos fazer um som na casa da vovó?

Há uma nova fórmula na música brasileira, tão fórmula quanto a infestação de neo-pagodes e axés dos anos 1990: as bandas de rock fofas. E desde ontem, com a propagação viral de uma banda de Curitiba, essa nova moda tem um refrão: Coração não é tão simples quanto pensa / Nele cabe o que não cabe na dispensa / Cabe o meu amor / Cabem três vidas inteiras / Cabe uma penteadeira...

Os integrantes dessa banda – auto-intitulada A Banda Mais Bonita da Cidade – fazem apenas parte de uma leva de jovens brancos, com jeitão de sensíveis e com cara de estudantes da PUC, seja qual PUC for. Provavelmente todo mundo ali votou na Marina Silva e propaga ideais de consumo consciente.

Como toda fórmula, essas bandas trazem elementos semelhantes entre si. Pra começar, os clipes têm de ser feitos em lugares meigos, com cara de casinha da vovó. Ou em jardins com tijolos alaranjados à mostra. Acho que é pra fazer um ar de república dos anos 1970. Além de violão, flauta e pandeiro, é fundamental um instrumento que soe mais exótico que os outros, mesmo que o som desse instrumento faça pouca diferença no arranjo. É preciso ter pelo menos uma mulher (no meu tempo, existia banda ou de mulher ou de homem, mas tudo bem). Os músicos precisam sorrir ou, no mínimo, fazer uma cara serena. Mas, sobretudo, e é isso que caracteriza todas as bandas, as letras tem de ser amorosas e, ao mesmo tempo, fofas e nonsenses. Se não houver letras assim, esqueça, está fora do grupo.

É estranho porque realmente é um movimento, com bandas semelhantes que surgiram de um tempo pra cá. A paulistana Tiê é um bom exemplo. Numa música ela diz, despudoradamente: Já que não te tenho por perto / Vou tomar um sorvete, pra alegrar o meu dia. Num clipe em que faz cara de musa da esquerda brasileira, dispara: Fica um pouco pra cá, pra variar / A lua brilhando no calcanhar...

Outra que merece lugar de destaque é Barbara Eugênia. O clipe de A Chave concentra todos os elementos dessa nova onda. O clipe começa com uma conversa informal entre os envolvidos, pra dar um ar casual (é muito importante parecer improvisado, uma boa reunião na casa de amigos). Os homens usam umas camisas meio Faustão fashion descolada. Um deles empunha um contrabaixo acústico, como se fosse a coisa mais natural do mundo ter um instrumento maior do que a pessoa num encontro de amigos. O outro tira som de um tecladinho de assoprar – acho que o nome é escaleta. A cantora está sentada num jardim com árvores singelas, janelas pintadas de azul e muros baixos – apesar de ter aparência de ter nascido num desses edifícios com seguranças de terno preto na porta. Ela ainda usa um vestido azul bem Brasil e um lenço vermelho na cabeça. Eu acho que azul e vermelho não combinam, aliás, mas essa é outra discussão.

Num outro clipe de Barbara, chamado Por Aí, há a mesma conversa informal antes dela surgir na janela de um sobrado, estilo fofoqueiras da Mooca ou meninas sofridas que esperam o amor passar. E cantarola, olhando pro nada: Por que você não passa por aqui / Pra gente fumar mil cigarros / Pra gente beber Coca Cola / Pra gente papear um pouco? Tudo com direito a ela bater um pauzinho no outro, que faz um som tão engraçadinho quanto inócuo. Essas bandas são apenas exemplos. Há muitas outras.

Há quem diga que a mesma crítica foi feita ao pessoal da bossa nova no fim dos anos 1950, quando rapazes bem-nascidos da zona sul carioca começaram a fazer letras de amor feliz. Há semelhanças, claro. Tanto que Nara Leão disse numa entrevista, quando decidiu romper com a bossa para se aproximar do samba tradicional: “Estou cansada de bossa. Estou cansada de fazer para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que a expressão do nosso povo”.

Mas a diferença entre a música de apartamento citada por Nara e a música de casas da vovó feita hoje é que a bossa trazia em si elementos revolucionários. Um jeito de romper com a era boleral que tanto infestava as rádios pré-1958. Havia novidades harmônicas, melódicas e conceituais. Além de um gênio, João Gilberto. E um gênio valida tudo.

Como boa parte das fórmulas, essas bandas tendem a sumir antes de alçar voos mais altos. Não porque torça pelo insucesso. Os músicos devem ter seu público e ganhar dinheiro honestamente fazendo música, tanto falando de amores que não caibam na dispensa quanto sobre o melhor jeito de segurar o tchan. Só se deve fazer justiça. Não há invenção, criatividade ou originalidade nessa nova moda. Há repetições de clichês. É fácil falar mal do Restart, mas essa onda fofa perde de 10 a zero quando um fã do Restart faz um coraçãozinho com a mão. Há muito mais espontaneidade e verdade em seus fãs do que nessa rapaziada na casa da matriarca italiana, pelo menos.

 

35 comentários:

Cissa disse...

será q esqueceram de tirar o carro vermelho da garagem da Barbara ou foi proposital pra combinar c o vermelho/azul da roupa dela??

Anônimo disse...

Bela observação! Se fosse um Fusca, ficaria no meio da banda.

Anônimo disse...

Acho que o que dá mais medo é, de repente, sem querer, a gente (branco, universitariado, que frequenta bares e padarias fora da periferia de sampa e que tbém tem uma cara meio-PUC-meio-de-esquerda) se sentir meio parecido com eles. Seu texto me lembra isso, me lembra dessa velho risco, sempre a espreita.

Bruno Hoffmann disse...

É, sou branco e tenho essa cara meio-PUC-meio-neoecológico. É um velho medo.

Natália Pesciotta disse...

Sim, medo de se achar parecido e estar sendo tão hipócrita tanto ao fazer uma separação entre nós e eles. Afinal, tendo a achar que a casa da vovó é mais legal que uma cobertura duplex.
E certeza que se eu tivesse vivido nos anos 60 ia achar o povinho da bossa bem tosco.
(Há quem diga...)

PS: vermelho e azul não necessariamente combinam, talvez por isso seja legal.

Bruno Hoffmann disse...

Já pensei que se vivesse nos anos 60 talvez participasse da marcha contra a guitarra elétrica. Ou mesmo que fosse contra a bossa um pouco antes. A diferença é que essas bandas novas trilham um caminho fácil para fazer algo simplório parecer bom, enquanto fazem pouco caso de outras músicas muito mais elaboradas que a deles, como o rap, que tem conceitos mais verdadeiros e mais complexos. E não, Natalia, não há nada legal na Barbara Eugenia. Não combinar é uma coisa. Ter uma roupa escrota de propósito pra parecer desencanada é outra coisa.

Natália Pesciotta disse...

Tb participaria da marcha contra a guitarra certeza, mas não tem a ver com isso agora. Não é uma questão ideológica. É só questão de achar chato, sem personalidade e, acima de tudo, irritantemente pretensioso e esnobe apesar da roupagem (perdão) despretensiosa e humilde. Nessa estou com vc.
(A obs sobre o vermelho e azul era mais genérica. Mas o estilo da Barbara Eugênia é charmoso, assim como ela, e tão legal qto a casa da avó ou ou quintal - cada coisa isolada no mundo)

Anônimo disse...

"chato, sem personalidade e, acima de tudo, irritantemente pretensioso e esnobe apesar da roupagem (perdão) despretensiosa e humilde". Genial.

ארינה disse...

Nossa, concordo em gênero, número e grau contigo. Não entendi o porquê daquelas mil postagens do vídeo do coração da dispensa, afinal a voz de todo mundo é ruim, o vídeo é sem qualidade, a letra é tão sem graça quanto sorvete derretido e como tu disseste, não tem nada de especial. Quanto ao vídeo dessa Barbara, não aguentei sequer ver a metade. Deu ânsia de vômito.

Anônimo disse...

Achei lindo e chorei e vcs tb... Entao parem de falar mal... Era o sonho de vcs estarem la naquela casa....

Tiago Morini disse...

Eu não entendo de música. Não sei sequer pegar em um violão. Ouço o que agrada aos meus ouvidos. E a Banda mais bonita da cidade, me agrado. Gosto de ouvir o som deles. Se é "moda", não sei, é a unica banda do genero que conheço. Mas qual o estilo musical que não gera muitos compositores?

Marcello Menezes disse...

Acho até interessante uma banda conseguir uma repercussão na internet nessa proporção, com um trabalho independente. O que me incomodou mesmo foi que a idéia do clip(que alguns comentários diziam ser genial)é praticamente uma cópia de alguns clips do Beirut (que eu acho sensacional) como La Fete e Nantes.
Bruno, eu tenho um blog que fala de discos obrigatórios da música brasileira. Se puder dá uma olhadinha no post que eu fiz dos 2 primeiros discos do Cartola www.discosobrigatorios.blogspot.com Abraços

Bruno Hoffmann disse...

Vou olhar, Marcello. Valeu!

Águeda disse...

Texto incrível, parabéns. Só uma correçãozinha: o instrumento maior que a pessoa é um contrabaixo, e não um violoncelo. Abraços.

Bruno Hoffmann disse...

Ah, vou corrigir. Obrigado, Águeda.

Natália Leon disse...

Gostei muito, Bruno. E concordo contigo. Beijos!

José Almeida disse...

Independente do gosto musical, do prazo de validade contido nos eternos clichês de décadas existe implicito em cada um dessess "estilos" "modas" ou "ondas" um retrato verdadeiro e irritantemente transparente da sociedade da época a que pertencem, por isso meus amigos, tudo é sempre tão repetido e tão irritante, pois no mundo da música e da mídia, o que se vê e se ouve não é o coerente ou o lógico, e sim a resultante das forças.
O que se vê dessa "onda de singeleza", do "rock da casa da vó" é um grito de uma geração que se jogou de cabeça na velocidade da internet, nos relacionamentos relâmpagos, nas febres do celulares dos vídeo games, da precocidade na bebidas e nas drogas, e simplesmente saiu disso tudo com a ausência de algo para realmente se lembrar, se orgulhar, algo com cara de memória. Por isso essa linguagem de SUPER8, essa visão distorcida saída de uma LOMO, esse som abafado saido de um corredor de tacos de madeira, por isso essa música no chão de ardósia da garagem do avô. Porque meus amigos, temos fotos mas não temos lembranças, temos perfis mas não temos identidade. E qualquer coisa que nos distancie dessa frieza tecnológica em que enfiamos todas as nossas relações cotidianas será bem vinda. O grupinho de 5 amigos tocando violão e falando de sustentabilidade aos 25 anos é o efeito colateral de nossas adolescencias de 300 amigos no orkut comendo mac donalds na sexta a tarde.

Anônimo disse...

Ótima análise, José.

Marcela disse...

Se esses novos cantores estão sendo pretensiosos em "falsificar" uma identidade singela, criticá-los com ar de superioridade também é uma forma de pretensão. Concordo com o José..de fato devemos pensar que essa iniciativa de fazer música "na casa da avó" é uma tentativa de se agarrar às raízes que se perderam...à um ideal bucólico que hoje está longe da realidade desses jovens.

Igor Paiva disse...

Acho que a arte é livre na questão de fazer uma menção temporal saudosista que não condiz com a realidade atual. Minha observação pontua apenas a imagem intelectualizada superficial e não menos vazia que esses grupos sustentam. Devido a isso, vêem se no direito de tornarem-se formadores de opinião quando na verdade resolveram futricar o baú de discos, livros e fitas k7 dos avós e dos pais 1 ano atrás. O pior de tudo é que estamos tão à mercê daquilo que a informação digital nos apresenta, que torna-se difícil materializar esse contraste. São os emos dos anos 60 travestidos e digitalizados.

Bruno Hoffmann disse...

Na hora de criticar Calypso e dupla sertaneja, ninguém se sente prepotente. Mas há uma certa dificuldade de falarmos mal de realidades mais próximas a nossa, como se tivéssemos ofendendo um primo ou um amigo que poderia fazer parte da banda.

Anônimo disse...

musica de pessoal de apartamento. mundo paralelo. europa quem sabe?
nao toca na verdadeira realidade do nosso mundo, principalmente do mundo da maioria dos jovens latino-americanos. é uma pena, a melodia é boa, se a letra e o clipe fossem uma coisa inteligente, algo que nao esse ingenuo e superficial eu iria gostar bastante. e nao vi nada de sustentável ali. como vai falar em sustentabilidade sem falar do que é a realidade hoje?

Anônimo disse...

nao teria nada contra esse movimento se vivessemos num mundo perfeito. acho que um dos grandes problemas hoje em dia é o gasto absurdamente enorme de energia (mental e material) em coisas que nao vao levar a nada, e o desinteresse com o que mostra a realidade. nada contra as coisas sem sentido, mas quase só se ve isso nessas redes sociais... experimenta colocar um rap ou um documentario legal (tipo os do john pilger, hubert sauper, silvio tendler, peter joseph) na rede pra ver até onde vai...

Juliana Oliveira disse...

Mandou bem na reflexão! Valeu! Ótima provocação o seu texto. Eu, de fato fui uma das facebookeiras a a propagar o vírus, assumo. Mas concordo com tudo o que você disse. Mas... enquanto esse tipo de banda nao virar nada muito fanatico, nao me incomoda. Algum prazer auditivo elas dão...

Luis Felipe disse...

Acho o texto excessivamente agressivo. Ninguém sabe o que os integrantes das bandas pensam a não ser eles mesmos, comentários sobre roupas, olhares, instrumentos e estilos são preconceituosos, e quem sabe, até invejosos. Não conheço ninguém de nenhuma das bandas, mas ao ver os clipes, vejo pessoas felizes com o que estão fazendo e me alegro, acho triste quem se incomoda com a felicidade e espontaneidade dos outros, que neste caso, ainda inclui o sucesso de uma banda que até pouco tempo, ninguém nunca tinha escutado falar.

Amanda Henriques - @achamanda disse...

http://www.youtube.com/watch?v=dM7Uzjy2joE

Felip R8 disse...

Concordo com Luis Felipe...

Anônimo disse...

Gente, que coisa mais latinoamericana de ser. Por que no Brasil tudo tem que parecer - e realmente ser - pobre materialmente para ter valor? Aqui ser rico ainda é vergonhoso. Identidade cultural: pobre e preto com caixinhas de fósforo no botequim. Que lindo, samba de raiz. Somos o povo mais feliz do mundo. Casa da vovó sem mulata pelada não pode. P.S.: não, eu não estudei na PUC.

Anônimo disse...

Deixa os caras fazerem a música deles!
Acho que se existe algum problema com a música hoje, é que todo mundo adora cagar uma regra... Agora produzir algo efetivo, ah, isso é quase impossível.
Vamo descer do salto e fazer o seguinte: se gostou, ouça de novo, se não gostou ouça outra música.

E outra, não me venha com comparações com a Bossa Nova e etc.
O autor do texto mesmo disse que na época a Bossa Nova recebeu a MESMA CRÍTICA que a Banda mais bonita da cidade.
Longe de mim querer comparar as duas, agora se isso é possível, a história nos ensinou que só é possível um balanço de um estilo musical algum tempo depois do lançamento deste.

Marcela Egito disse...

"Há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que darei na sua boca" também é fofo. :)

Anônimo disse...

Bem, debaixo da experiência de quem viveu os anos da Tropicália: informados como são, duvido que vocês entrassem na marcha contra a guitarra. O mais provável é que ficassem eletrizados com a revolução tropicalista, assim como ficariam com a revolução da bossa-nova.

Brinks disse...

Eu faria uma critica boa em relação ao clipe, que apesar de não ser original(foda-se que não é), é um estilo de filmagem muito difícil de se fazer. Um clipe de 6 minutos sem cortes é um desafio!
Pela musica... bom, ficar 6 minutos cantando a mesma estrofe, me lembra um pouco axé.... Hmmmm, Já sei como nomear esse estilo!

Axé Bossa Cult Pós Moderninho.

Anônimo disse...

Concordo plenamente!
Não pude deixar de entrar aqui pra comentar após a sua postagem, rs.
A letra é um lixo.
O clipe é ''bonitinho'', mas de coisas bonitinhas a mídia e o mundo está cheio. E na maioria das vezes, todas essas bandas ''novas e alternativas'' do Brasil estão copiando algo, alguma tendência ou alguma sonoridade que já é sucesso há algum tempo lá fora, seja EUA, Canadá, Europa, França... enfim. É foda curtir música brasileira, a gente é obrigado a ouvir axé e outras porcarias, e quando surge algo tido como ''inovador''... é algo DESSE nível... sem graça. E o povo adoooora, acha cult... sinto nojo. u.u

Anônimo disse...

beijinhos pra vc pas no seu coraçao marcelo camello mallu magalaes (amor vem me limpa)

Anônimo disse...

Blá, blá e blá, tudo branquinho da PUC!!!